{"id":21920,"date":"2026-04-16T23:59:28","date_gmt":"2026-04-16T23:59:28","guid":{"rendered":"https:\/\/obewise.com.br\/index.php\/2026\/04\/16\/manga-livro-revela-como-os-quadrinhos-japoneses-acompanharam-as-transformacoes-do-japao-no-seculo-20\/"},"modified":"2026-04-16T23:59:28","modified_gmt":"2026-04-16T23:59:28","slug":"manga-livro-revela-como-os-quadrinhos-japoneses-acompanharam-as-transformacoes-do-japao-no-seculo-20","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obewise.com.br\/index.php\/2026\/04\/16\/manga-livro-revela-como-os-quadrinhos-japoneses-acompanharam-as-transformacoes-do-japao-no-seculo-20\/","title":{"rendered":"Mang\u00e1: livro revela como os quadrinhos japoneses acompanharam as transforma\u00e7\u00f5es do Jap\u00e3o no s\u00e9culo 20"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<div>\n<p>O crescimento global do mang\u00e1 nos \u00faltimos anos ajudou a transformar completamente a presen\u00e7a da cultura pop japonesa no Ocidente. Se antes era comum encontrar apenas um pequeno espa\u00e7o dedicado a esses quadrinhos nas livrarias, hoje h\u00e1 uma oferta enorme de t\u00edtulos traduzidos, enquanto adapta\u00e7\u00f5es em anime ganham cada vez mais destaque nas plataformas de streaming. Nesse contexto, o livro <em>Manga\u2019s First Century: How Creators and Fans Made Japanese Comics, 1905-1989<\/em>, de Andrea Horbinski, surge como uma obra importante para entender como o mang\u00e1 se consolidou n\u00e3o apenas como entretenimento, mas tamb\u00e9m como um reflexo direto das mudan\u00e7as pol\u00edticas, sociais e culturais do Jap\u00e3o ao longo do s\u00e9culo 20.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/nerdizmo.ig.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/9780520403994.jpg\" alt=\"A imagem atual n\u00e3o possui texto alternativo. O nome do arquivo \u00e9: 9780520403994.jpg\"\/><\/figure>\n<\/div>\n<p>Em vez de refor\u00e7ar a ideia bastante difundida de que o mang\u00e1 moderno descende diretamente de uma tradi\u00e7\u00e3o art\u00edstica japonesa milenar, Horbinski prop\u00f5e uma leitura diferente. Para a autora, a forma como conhecemos o mang\u00e1 hoje nasceu de maneira mais concreta no in\u00edcio dos anos 1900, em um Jap\u00e3o que passava por uma moderniza\u00e7\u00e3o acelerada e absorvia influ\u00eancias estrangeiras, como os cartuns pol\u00edticos e novos formatos visuais vindos de fora. A partir desse ponto de vista, o mang\u00e1 seria um produto profundamente moderno, ligado \u00e0 imprensa de massa, \u00e0 circula\u00e7\u00e3o industrial e tamb\u00e9m \u00e0 participa\u00e7\u00e3o ativa do p\u00fablico em sua evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa interpreta\u00e7\u00e3o ganha for\u00e7a quando o livro volta ao lan\u00e7amento da revista <em>Tokyo Puck<\/em>, em 1905, publica\u00e7\u00e3o editada por Kitazawa Rakuten. Naquele momento, o termo mang\u00e1 era defendido por ele como algo associado principalmente \u00e0 s\u00e1tira pol\u00edtica, mas com o tempo esse uso se expandiu para cr\u00edticas sociais e outras abordagens narrativas. Horbinski argumenta que muitos artistas que, j\u00e1 a partir dos anos 1920, passaram a buscar origens ancestrais para o mang\u00e1 estavam na verdade ajudando a alimentar uma vis\u00e3o romantizada do passado japon\u00eas. Ainda assim, mesmo para quem n\u00e3o quiser entrar nesse debate mais te\u00f3rico, o grande m\u00e9rito do livro est\u00e1 em mostrar como os quadrinhos acompanharam tens\u00f5es muito reais da sociedade japonesa.<\/p>\n<p>Ao longo da obra, fica claro como o mang\u00e1 tamb\u00e9m serviu para expor inquieta\u00e7\u00f5es sociais da \u00e9poca. Nos anos 1920, por exemplo, o crescimento da independ\u00eancia feminina nas \u00e1reas urbanas apareceu em v\u00e1rias hist\u00f3rias sob um olhar carregado de ansiedade masculina. Algumas personagens eram retratadas como vaidosas, gananciosas ou moralmente desviantes, num reflexo das preocupa\u00e7\u00f5es de uma sociedade que via mudan\u00e7as r\u00e1pidas nos costumes. Em paralelo, tamb\u00e9m surgiam narrativas com forte carga er\u00f3tica e fantasiosa envolvendo mulheres, enquanto ganhava espa\u00e7o um clima de desconfian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 influ\u00eancia ocidental, que ia da moda francesa ao cinema americano. O livro mostra como essas tens\u00f5es acabaram sendo absorvidas pelos quadrinhos no momento em que o mang\u00e1 infantil come\u00e7ava a crescer de forma decisiva.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1200\" height=\"1145\" src=\"https:\/\/nerdizmo.ig.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-40.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-148441\" srcset=\"https:\/\/nerdizmo.ig.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-40.png 1200w, https:\/\/nerdizmo.ig.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-40-768x733.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Jiji Manga, um suplemento de quadrinhos de Kitazawa Rakuten, 17 de maio de 1926. MeijiShowa\/Alamy.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Um dos exemplos mais marcantes citados por Horbinski \u00e9 <em>Norakuro<\/em>, considerado o primeiro grande sucesso do mang\u00e1 voltado para crian\u00e7as. Criado por Tagawa Suih\u014d e apresentado em 1931, o personagem era um cachorro de rua atrapalhado que integrava um ex\u00e9rcito imperial japon\u00eas formado apenas por c\u00e3es. A grande inova\u00e7\u00e3o da s\u00e9rie n\u00e3o estava apenas no humor visual, mas tamb\u00e9m no uso de recursos do <em>rakugo<\/em>, forma tradicional de com\u00e9dia oral japonesa, que trouxe aos quadrinhos um humor baseado em jogos de palavras e ritmo narrativo. Ao mesmo tempo, <em>Norakuro<\/em> tamb\u00e9m ajudou a consolidar formas de intera\u00e7\u00e3o com os leitores, algo que se tornaria essencial no desenvolvimento da ind\u00fastria. S\u00f3 que a obra n\u00e3o ficou imune ao contexto pol\u00edtico do per\u00edodo e acabou sendo atravessada pelo avan\u00e7o do militarismo japon\u00eas dos anos 1930.<\/p>\n<p>Na segunda metade do livro, o foco se volta para o p\u00f3s-guerra, quando o mang\u00e1 entra em uma nova fase e amplia ainda mais sua influ\u00eancia. \u00c9 nesse momento que aparecem figuras fundamentais como Hasegawa Machiko, criadora de <em>Sazae-san<\/em>, e Osamu Tezuka, frequentemente chamado de padrinho do mang\u00e1 moderno. No caso de <em>Sazae-san<\/em>, a s\u00e9rie acompanhava as aventuras dom\u00e9sticas de uma jovem dona de casa e permaneceu relevante por quase tr\u00eas d\u00e9cadas, entre 1946 e 1974. J\u00e1 Tezuka ajudou a mudar a linguagem da m\u00eddia ao defender que o mang\u00e1 n\u00e3o precisava viver s\u00f3 de humor. Para ele, depois da experi\u00eancia traum\u00e1tica do militarismo japon\u00eas, havia espa\u00e7o tamb\u00e9m para a trag\u00e9dia, o drama e emo\u00e7\u00f5es mais complexas dentro das hist\u00f3rias em quadrinhos.<\/p>\n<p>Outro movimento importante abordado por Horbinski \u00e9 o surgimento do <em>gekiga<\/em>, estilo mais dram\u00e1tico, violento e cinematogr\u00e1fico voltado principalmente para adolescentes. A autora destaca que foi nesse momento que o mang\u00e1 passou a ser produzido de maneira ainda mais orientada pelo mercado, o que abriu caminho para hist\u00f3rias mais intensas e nem sempre bem recebidas por pais e setores conservadores da sociedade. A rea\u00e7\u00e3o veio em forma de campanhas contra os chamados livros ruins, com epis\u00f3dios de queima de publica\u00e7\u00f5es em meados dos anos 1950. Ainda assim, a ind\u00fastria resistiu, impulsionada pela for\u00e7a de seu p\u00fablico jovem e pela explos\u00e3o da televis\u00e3o a partir dos anos 1960, que ampliou o alcance dessa cultura de maneira impressionante.<\/p>\n<p>Tezuka tamb\u00e9m foi pe\u00e7a central nessa expans\u00e3o para o audiovisual. A partir de 1963, <em>Tetsuwan Atomu<\/em>, conhecido mundialmente como <em>Astro Boy<\/em>, abriu caminho para a produ\u00e7\u00e3o de animes em larga escala e ajudou a moldar pr\u00e1ticas industriais que depois se tornariam padr\u00e3o, inclusive na venda de produtos derivados. Ao mesmo tempo, seu legado tamb\u00e9m carrega cr\u00edticas, especialmente por ter colaborado para consolidar condi\u00e7\u00f5es de trabalho duras e baixos sal\u00e1rios na anima\u00e7\u00e3o japonesa. O livro ainda aponta que, embora ele tenha participado da separa\u00e7\u00e3o cada vez mais r\u00edgida entre mang\u00e1s voltados para meninos e meninas, foram criadoras como Ikeda Riyoko que deram ao mang\u00e1 feminino um novo n\u00edvel de profundidade emocional e realismo. Sua obra <em>The Rose of Versailles<\/em>, publicada entre 1972 e 1973, teve um impacto t\u00e3o forte que, segundo relatos da \u00e9poca, alunas chegaram a chorar tanto com o desfecho da hist\u00f3ria que professores precisaram interromper aulas.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-wp-embed is-provider-nerdizmo wp-block-embed-nerdizmo\"\/>\n<p>Nos anos 1970 e 1980, o livro mostra ainda como os f\u00e3s passaram a exercer influ\u00eancia direta sobre o rumo do mang\u00e1. A produ\u00e7\u00e3o independente j\u00e1 existia, mas ganhou outra dimens\u00e3o com conven\u00e7\u00f5es, crescimento do cosplay e populariza\u00e7\u00e3o do termo <em>otaku<\/em>, usado inicialmente de forma cr\u00edtica para falar de f\u00e3s considerados obcecados demais. Com o tempo, essa identidade foi sendo apropriada pelo pr\u00f3prio p\u00fablico. Horbinski encerra sua an\u00e1lise em 1989, ano simb\u00f3lico por reunir a morte de figuras hist\u00f3ricas como Tezuka Osamu, Tagawa Suih\u014d e o imperador Hirohito, al\u00e9m do impacto social causado pelo caso do chamado \u201cassassino otaku\u201d, que reacendeu debates sobre a influ\u00eancia dos quadrinhos e da cultura pop japonesa no comportamento de jovens.<\/p>\n<p><em>Manga\u2019s First Century<\/em> parece ir al\u00e9m de uma simples hist\u00f3ria dos quadrinhos japoneses. O livro usa o mang\u00e1 como uma janela para observar as contradi\u00e7\u00f5es do Jap\u00e3o moderno, suas crises, seus medos, suas transforma\u00e7\u00f5es culturais e a maneira como artistas e leitores participaram juntos da constru\u00e7\u00e3o de um dos fen\u00f4menos mais influentes da cultura pop mundial. E justamente por isso, diante de tudo o que aconteceu depois de 1989, especialmente a expans\u00e3o global do mang\u00e1 nas \u00faltimas d\u00e9cadas, fica a sensa\u00e7\u00e3o de que essa hist\u00f3ria ainda est\u00e1 longe de acabar.<\/p>\n<p>Veja mais sobre quadrinhos aqui!<\/p>\n<p><h3 class=\"jp-relatedposts-headline\"><em>Relacionado<\/em><\/h3>\n<\/p>\n<p><!-- CONTENT END 1 --><\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O crescimento global do mang\u00e1 nos \u00faltimos anos ajudou a transformar completamente a presen\u00e7a da cultura pop japonesa no Ocidente. Se antes era comum encontrar apenas um pequeno espa\u00e7o dedicado a esses quadrinhos nas livrarias, hoje h\u00e1 uma oferta enorme de t\u00edtulos traduzidos, enquanto adapta\u00e7\u00f5es em anime ganham cada vez mais destaque nas plataformas de &hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":21921,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_shortscore_rating":"","_shortscore_game":"","_shortscore_summary":"","footnotes":""},"categories":[92],"tags":[10981,678,1694,1711,10980,1439,490,4895,720,3824,10982],"coauthors":[393],"class_list":["post-21920","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geek","tag-acompanharam","tag-como","tag-historia","tag-japao","tag-japoneses","tag-livro","tag-manga","tag-quadrinhos","tag-revela","tag-seculo","tag-transformacoes"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obewise.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21920","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obewise.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obewise.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obewise.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obewise.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21920"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obewise.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21920\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obewise.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21921"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obewise.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21920"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obewise.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21920"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obewise.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21920"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/obewise.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=21920"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}