{"id":24300,"date":"2026-10-05T10:46:20","date_gmt":"2026-10-05T10:46:20","guid":{"rendered":"https:\/\/obewise.com.br\/index.php\/2026\/10\/05\/o-mito-da-juventude-burra-o-que-os-teoricos-dizem-sobre-inteligencia-cultura-e-tecnologia\/"},"modified":"2026-10-05T10:46:20","modified_gmt":"2026-10-05T10:46:20","slug":"o-mito-da-juventude-burra-o-que-os-teoricos-dizem-sobre-inteligencia-cultura-e-tecnologia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obewise.com.br\/index.php\/2026\/10\/05\/o-mito-da-juventude-burra-o-que-os-teoricos-dizem-sobre-inteligencia-cultura-e-tecnologia\/","title":{"rendered":"O mito da juventude burra: o que os te\u00f3ricos dizem sobre intelig\u00eancia, cultura e tecnologia"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<div>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes, n\u00e3o escrevem como antes, n\u00e3o ouvem a m\u00fasica de antes, passam tempo demais nas telas e j\u00e1 n\u00e3o sabem as coisas que seus pais e av\u00f3s sabiam. Para quem olha apenas para essas diferen\u00e7as, parece que estamos diante de uma decad\u00eancia intelectual sem precedentes.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O problema \u00e9 que esse diagn\u00f3stico n\u00e3o \u00e9 exatamente novo. Sempre que uma transforma\u00e7\u00e3o cultural ou tecnol\u00f3gica altera a maneira como as pessoas aprendem, trabalham, se comunicam e consomem informa\u00e7\u00e3o, aparece algu\u00e9m disposto a anunciar que o mundo est\u00e1 ficando pior. A diferen\u00e7a \u00e9 que, desta vez, a transforma\u00e7\u00e3o aconteceu r\u00e1pido demais para que as gera\u00e7\u00f5es anteriores conseguissem estabelecer com facilidade quais seriam os novos crit\u00e9rios de conhecimento.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 justamente a\u00ed que o fil\u00f3sofo franc\u00eas Michael Serres ajuda a complicar essa hist\u00f3ria. Ao falar da gera\u00e7\u00e3o que chamou de <a href=\"https:\/\/www.gvaa.com.br\/revista\/index.php\/RBFH\/article\/view\/7962\">\u201cPolegarzinha\u201d<\/a>, em refer\u00eancia \u00e0 habilidade de usar os polegares nos dispositivos digitais, Serres n\u00e3o descrevia simplesmente jovens distra\u00eddos diante de uma tela. Sua ideia era que as tecnologias digitais modificaram a maneira como a mem\u00f3ria, a informa\u00e7\u00e3o e o racioc\u00ednio s\u00e3o organizados. Parte daquilo que antes precisava estar armazenado exclusivamente na cabe\u00e7a passou a estar dispon\u00edvel em dispositivos, redes e mecanismos de busca. Em vez de interpretar isso automaticamente como perda de intelig\u00eancia, Serres propunha pensar em uma transforma\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es em que a intelig\u00eancia funciona.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"2048\" height=\"1536\" src=\"https:\/\/nerdizmo.ig.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-155703\" srcset=\"https:\/\/nerdizmo.ig.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image.png 2048w, https:\/\/nerdizmo.ig.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-768x576.png 768w, https:\/\/nerdizmo.ig.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-1536x1152.png 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 2048px) 100vw, 2048px\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Michael Serres, proeminente fil\u00f3sofo Franc\u00eas<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso n\u00e3o significa que o celular tenha transformado magicamente uma gera\u00e7\u00e3o em um grupo de g\u00eanios. Nem que memorizar tenha deixado de ser importante. Significa algo mais simples e, ao mesmo tempo, mais dif\u00edcil de aceitar: talvez estejamos tentando avaliar uma intelig\u00eancia nova utilizando apenas as habilidades que aprendemos a considerar inteligentes.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante muito tempo, intelig\u00eancia esteve fortemente associada \u00e0 capacidade de memorizar informa\u00e7\u00f5es, dominar determinadas refer\u00eancias culturais e demonstrar conhecimento dentro de padr\u00f5es espec\u00edficos. Saber datas, nomes, f\u00f3rmulas, obras liter\u00e1rias e fatos hist\u00f3ricos tinha um peso enorme porque o acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o era limitado. Hoje, uma pessoa pode encontrar em poucos segundos aquilo que antes exigia horas de pesquisa em livros, enciclop\u00e9dias ou bibliotecas.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A mudan\u00e7a n\u00e3o est\u00e1 apenas na quantidade de informa\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel, mas na rela\u00e7\u00e3o que estabelecemos com ela.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O fil\u00f3sofo Pierre L\u00e9vy, um dos principais pensadores da cibercultura, desenvolveu o conceito de intelig\u00eancia coletiva para explicar como compet\u00eancias individuais podem ser compartilhadas e potencializadas por redes de comunica\u00e7\u00e3o. Para L\u00e9vy, as tecnologias n\u00e3o produzem intelig\u00eancia sozinhas, mas podem criar condi\u00e7\u00f5es para que conhecimentos dispersos sejam conectados, combinados e colocados em circula\u00e7\u00e3o. A internet, nesse sentido, n\u00e3o \u00e9 apenas um dep\u00f3sito gigantesco de informa\u00e7\u00f5es. Ela tamb\u00e9m \u00e9 um ambiente no qual pessoas produzem, compartilham, reinterpretam e reorganizam conhecimento.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"984\" height=\"1284\" src=\"https:\/\/nerdizmo.ig.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-155704\" srcset=\"https:\/\/nerdizmo.ig.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-1.png 984w, https:\/\/nerdizmo.ig.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-1-768x1002.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 984px) 100vw, 984px\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Pierre L\u00e9vy \u00e9 um<br \/>fil\u00f3sofo e soci\u00f3logo franc\u00easnascido na Tun\u00edsia em 1956, amplamente conhecido como um dos maiores especialistas mundiais no estudo da<br \/>cibercultura e do impacto da internet na sociedade.<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 claro que isso tamb\u00e9m produz problemas. Uma rede capaz de espalhar conhecimento em escala gigantesca \u00e9 a mesma capaz de espalhar desinforma\u00e7\u00e3o na mesma velocidade. Ter acesso a milh\u00f5es de informa\u00e7\u00f5es n\u00e3o significa saber avali\u00e1-las. A vida digital exige justamente novas compet\u00eancias: localizar conte\u00fados, comparar fontes, reconhecer manipula\u00e7\u00f5es, interpretar imagens e v\u00eddeos, compreender diferentes linguagens, aprender ferramentas e navegar por ambientes que mudam constantemente.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por isso, talvez seja mais interessante perguntar n\u00e3o se os jovens sabem menos, mas o que eles precisam saber para viver no mundo que receberam.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa pergunta muda completamente o debate.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E existe uma segunda quest\u00e3o ainda mais importante: quem decide quais conhecimentos e comportamentos s\u00e3o sinais de intelig\u00eancia?<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A discuss\u00e3o deixa de ser apenas tecnol\u00f3gica quando observamos a cultura. Ao longo da hist\u00f3ria, manifesta\u00e7\u00f5es produzidas por grupos marginalizados frequentemente foram recebidas com desconfian\u00e7a antes de serem reconhecidas como parte leg\u00edtima da sociedade. Aquilo que hoje parece tradicional ou indispens\u00e1vel para compreender a identidade brasileira muitas vezes j\u00e1 foi considerado vulgar, perigoso ou inferior.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O samba \u00e9 um exemplo conhecido. A capoeira tamb\u00e9m foi criminalizada. Manifesta\u00e7\u00f5es religiosas e culturais de matriz africana enfrentaram persegui\u00e7\u00e3o e preconceito. Esses epis\u00f3dios n\u00e3o podem ser reduzidos simplesmente a uma quest\u00e3o de gosto. Eles tamb\u00e9m envolviam disputas sobre espa\u00e7o p\u00fablico, comportamento, ra\u00e7a, classe e sobre quem teria o direito de produzir e definir cultura.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O funk contempor\u00e2neo ajuda a perceber como esse processo continua acontecendo.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Muito antes de o funk se tornar uma ind\u00fastria capaz de movimentar grandes p\u00fablicos e influenciar moda, publicidade, linguagem e comportamento, ele j\u00e1 era objeto de pesquisa acad\u00eamica. Em 1987, o antrop\u00f3logo Hermano Vianna apresentou sua disserta\u00e7\u00e3o <em>O Baile Funk Carioca: Festas e Estilos de Vida Metropolitanos<\/em>, trabalho pioneiro no estudo antropol\u00f3gico dos bailes. Em vez de tratar aqueles encontros simplesmente como divers\u00e3o ou desordem, Vianna investigou sua organiza\u00e7\u00e3o, seus estilos de vida, suas formas de sociabilidade, seus circuitos de circula\u00e7\u00e3o musical e a maneira como seus frequentadores constru\u00edam identidades. Pesquisas posteriores reconhecem justamente esse trabalho como um marco na entrada do funk carioca no campo das ci\u00eancias sociais.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"387\" height=\"516\" src=\"https:\/\/nerdizmo.ig.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-155705\" style=\"width:750px;height:auto\"\/><\/figure>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso \u00e9 importante porque muda o objeto da discuss\u00e3o. O baile deixa de ser apenas \u201cum lugar onde jovens v\u00e3o ouvir m\u00fasica alta\u201d e passa a ser observado como fen\u00f4meno social.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D\u00e9cadas depois, pesquisadores continuam desmontando a ideia de que o funk pode ser compreendido apenas por seus estere\u00f3tipos. O music\u00f3logo <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/canaldothiagson\/?hl=en\">Thiagson<\/a>, por exemplo, autor de <em>Tudo o que voc\u00ea sempre quis saber sobre Funk\u2026 mas tinha medo de perguntar<\/em>, utiliza sua forma\u00e7\u00e3o em m\u00fasica para discutir o g\u00eanero e enfrentar preconceitos que dificultam sua compreens\u00e3o. Seu trabalho mostra que existe uma estrutura musical, hist\u00f3rica e est\u00e9tica por tr\u00e1s de um g\u00eanero que muitas vezes \u00e9 julgado antes mesmo de ser analisado.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1200\" height=\"740\" src=\"https:\/\/nerdizmo.ig.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-4.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-155707\" srcset=\"https:\/\/nerdizmo.ig.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-4.png 1200w, https:\/\/nerdizmo.ig.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-4-768x474.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Thiagson , cujo nome verdadeiro \u00e9 Thiago Barbosa Alves de Souza, Professor de m\u00fasica brasileiro , compositor cl\u00e1ssico, influenciador digital e pesquisador.conhecido por possuir doutorado em musicologia pela USP (Universidade de S\u00e3o Paulo) com foco em funk.<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ou seja, at\u00e9 aquilo que parece apenas \u201cbatid\u00e3o\u201d pode ser objeto de estudo musical, hist\u00f3rico e t\u00e9cnico. Gostar ou n\u00e3o gostar continua sendo uma quest\u00e3o de prefer\u00eancia. Mas considerar uma manifesta\u00e7\u00e3o intelectualmente irrelevante simplesmente porque ela n\u00e3o se encaixa nos c\u00f3digos musicais valorizados por determinados grupos \u00e9 outra coisa.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/danilodunas\/?hl=en\">Danilo Cymrot<\/a> leva essa discuss\u00e3o para um terreno ainda mais amplo. Em <em>O funk na batida: baile, rua e parlamento<\/em>, publicado pelas Edi\u00e7\u00f5es Sesc em 2022, o pesquisador analisa o funk a partir da criminologia e acompanha suas rela\u00e7\u00f5es com a repress\u00e3o, o poder p\u00fablico, a pol\u00edtica e as disputas em torno de sua legitimidade. A pr\u00f3pria apresenta\u00e7\u00e3o da obra destaca que a criminaliza\u00e7\u00e3o do funk pode ser compreendida em rela\u00e7\u00e3o a processos hist\u00f3ricos que tamb\u00e9m atingiram manifesta\u00e7\u00f5es como o samba e a capoeira.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1800\" height=\"1201\" src=\"https:\/\/nerdizmo.ig.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-5.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-155708\" srcset=\"https:\/\/nerdizmo.ig.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-5.png 1800w, https:\/\/nerdizmo.ig.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-5-768x512.png 768w, https:\/\/nerdizmo.ig.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-5-1536x1025.png 1536w, https:\/\/nerdizmo.ig.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-5-270x180.png 270w, https:\/\/nerdizmo.ig.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-5-770x515.png 770w\" sizes=\"auto, (max-width: 1800px) 100vw, 1800px\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Danilo Cymrot, pesquisador e escritor, tamb\u00e9m \u00e9 o m\u00fasico Danilo Dunas<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A quest\u00e3o, portanto, n\u00e3o \u00e9 dizer que toda cr\u00edtica ao funk \u00e9 preconceituosa. \u00c9 perceber que existe uma hist\u00f3ria anterior ao julgamento contempor\u00e2neo. Quando uma express\u00e3o cultural nasce em territ\u00f3rios socialmente marginalizados, a maneira como ela \u00e9 recebida pode revelar tanto sobre as estruturas da sociedade quanto sobre a pr\u00f3pria manifesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 nesse ponto que o trabalho da antrop\u00f3loga e historiadora Adriana Facina se torna especialmente relevante. Em suas pesquisas sobre cultura popular e funk, Facina desloca o olhar do julgamento moral da m\u00fasica para as condi\u00e7\u00f5es sociais em que ela \u00e9 produzida, circula e \u00e9 consumida. Ao estudar o funk carioca em di\u00e1logo com a hist\u00f3ria da di\u00e1spora africana, a pesquisadora mostra como o g\u00eanero se tornou uma forma de express\u00e3o da experi\u00eancia de jovens das favelas, permitindo que esses grupos constru\u00edssem suas pr\u00f3prias narrativas sobre territ\u00f3rio, identidade, desigualdade e cotidiano, em vez de serem representados apenas pelo discurso externo que associa a periferia \u00e0 viol\u00eancia e \u00e0 criminalidade. Em trabalhos sobre os bailes e as pol\u00edticas de seguran\u00e7a p\u00fablica, ela tamb\u00e9m evidencia como a repress\u00e3o dessas manifesta\u00e7\u00f5es culturais envolve uma disputa pelo direito de ocupar a cidade e utilizar seus espa\u00e7os de sociabilidade. O baile, portanto, n\u00e3o aparece apenas como lugar de entretenimento, mas como espa\u00e7o de constru\u00e7\u00e3o de identidade, pertencimento e express\u00e3o pol\u00edtica, ainda que tamb\u00e9m carregue contradi\u00e7\u00f5es relacionadas a g\u00eanero, ra\u00e7a, classe e \u00e0 pr\u00f3pria ind\u00fastria cultural. A contribui\u00e7\u00e3o de Facina \u00e9 importante justamente porque mostra que, quando o funk \u00e9 reduzido a \u201cbarulho\u201d ou \u201cvulgaridade\u201d, desaparecem da an\u00e1lise as experi\u00eancias sociais, os conflitos e as formas de conhecimento que est\u00e3o sendo elaboradas por seus produtores e consumidores.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"972\" height=\"648\" src=\"https:\/\/nerdizmo.ig.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-6.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-155709\" srcset=\"https:\/\/nerdizmo.ig.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-6.png 972w, https:\/\/nerdizmo.ig.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-6-768x512.png 768w, https:\/\/nerdizmo.ig.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-6-270x180.png 270w\" sizes=\"auto, (max-width: 972px) 100vw, 972px\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Adriana atua como professora do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Antropologia Social (PPGAS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ),<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O roteiro se repete com impressionante frequ\u00eancia. Primeiro aparece o estranhamento. Depois, a desqualifica\u00e7\u00e3o. A manifesta\u00e7\u00e3o \u00e9 descrita como barulho, vulgaridade, falta de educa\u00e7\u00e3o ou sinal de decad\u00eancia. Com o passar do tempo, algumas dessas express\u00f5es deixam de ser vistas como amea\u00e7a e passam a fazer parte da pr\u00f3pria imagem que a sociedade constr\u00f3i de si mesma.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi assim com manifesta\u00e7\u00f5es que hoje parecem perfeitamente incorporadas \u00e0 cultura brasileira. E isso n\u00e3o significa que o funk necessariamente seguir\u00e1 exatamente o mesmo caminho. Significa apenas que a hist\u00f3ria recomenda cautela antes de concluir que aquilo que parece estranho no presente n\u00e3o possui valor cultural.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 justamente nesse ponto que a discuss\u00e3o sobre a suposta \u201cjuventude burra\u201d encontra o debate sobre a cultura contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando uma nova gera\u00e7\u00e3o cria maneiras diferentes de falar, produzir m\u00fasica, consumir entretenimento e se relacionar com informa\u00e7\u00e3o, \u00e9 comum que as gera\u00e7\u00f5es anteriores interpretem essas mudan\u00e7as utilizando os pr\u00f3prios crit\u00e9rios. O resultado \u00e9 previs\u00edvel: aquilo que n\u00e3o reconhecem como familiar pode parecer vazio, superficial ou intelectualmente inferior.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O funk e o trap s\u00e3o exemplos atuais dessa disputa. Independentemente de prefer\u00eancias musicais, esses g\u00eaneros fazem parte de uma transforma\u00e7\u00e3o cultural que colocou artistas e produtores das periferias em posi\u00e7\u00f5es de enorme influ\u00eancia sobre moda, comportamento, audiovisual, linguagem e consumo.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E existe algo particularmente interessante nessa transforma\u00e7\u00e3o: ela acontece em um ambiente digital no qual a antiga dist\u00e2ncia entre produtor e p\u00fablico diminuiu. O artista n\u00e3o precisa necessariamente esperar que uma gravadora, uma emissora de televis\u00e3o, uma grande publica\u00e7\u00e3o ou uma institui\u00e7\u00e3o cultural decida se sua produ\u00e7\u00e3o merece chegar ao p\u00fablico. Ele pode gravar, publicar, divulgar, criar uma comunidade e construir uma carreira diretamente pelas redes.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso n\u00e3o significa que as plataformas tenham eliminado as desigualdades. Elas pr\u00f3prias possuem algoritmos, interesses econ\u00f4micos e mecanismos de concentra\u00e7\u00e3o de aten\u00e7\u00e3o. Mas a circula\u00e7\u00e3o cultural se tornou diferente.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ideia de intelig\u00eancia coletiva de Pierre L\u00e9vy ajuda novamente a compreender esse fen\u00f4meno. Uma m\u00fasica pode ser criada por um produtor, remixada por outro, transformada em dan\u00e7a por milhares de usu\u00e1rios, incorporada a v\u00eddeos, memes e tend\u00eancias e finalmente alcan\u00e7ar p\u00fablicos que o artista original jamais teria imaginado. O conhecimento cultural deixa de seguir apenas uma linha vertical e passa a circular por redes.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E talvez seja justamente isso que incomode parte dos observadores mais acostumados aos antigos modelos de legitimidade.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante muito tempo, os espa\u00e7os de prest\u00edgio cultural estiveram concentrados em institui\u00e7\u00f5es, grupos sociais e refer\u00eancias espec\u00edficas. Quando uma manifesta\u00e7\u00e3o criada nas periferias consegue influenciar o pa\u00eds inteiro sem precisar passar por todos esses filtros, a pr\u00f3pria hierarquia cultural come\u00e7a a ser questionada.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso tamb\u00e9m ajuda a explicar por que o gosto musical pode se transformar em uma esp\u00e9cie de marcador social.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O jovem que n\u00e3o conhece determinado escritor pode ser chamado de ignorante. Mas um produtor que domina softwares de edi\u00e7\u00e3o, mixagem, distribui\u00e7\u00e3o digital, publicidade nas redes, cria\u00e7\u00e3o audiovisual e constru\u00e7\u00e3o de comunidade pode possuir um conjunto complexo de conhecimentos que dificilmente aparece nas avalia\u00e7\u00f5es tradicionais de intelig\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O conhecimento existe. A quest\u00e3o \u00e9 se estamos preparados para reconhec\u00ea-lo.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa discuss\u00e3o se aproxima da chamada <a href=\"https:\/\/www.pucrs.br\/revista\/ecologia-de-saberes\/\">\u201cecologia de saberes\u201d<\/a>, conceito desenvolvido pelo soci\u00f3logo Boaventura de Sousa Santos. A proposta parte da cr\u00edtica \u00e0 ideia de que existe apenas uma forma leg\u00edtima de produzir conhecimento. Em vez de colocar o conhecimento cient\u00edfico e os conhecimentos constru\u00eddos por diferentes grupos sociais necessariamente em uma rela\u00e7\u00e3o de hierarquia, a ecologia de saberes prop\u00f5e pensar no di\u00e1logo entre formas distintas de conhecimento.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"863\" height=\"728\" src=\"https:\/\/nerdizmo.ig.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-7.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-155710\" srcset=\"https:\/\/nerdizmo.ig.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-7.png 863w, https:\/\/nerdizmo.ig.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-7-768x648.png 768w, https:\/\/nerdizmo.ig.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-7-554x466.png 554w\" sizes=\"auto, (max-width: 863px) 100vw, 863px\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Boaventura de Sousa Santos \u00e9 um proeminente soci\u00f3logo portugu\u00eas, jurista e professor em\u00e9rito do Departamento de Sociologia da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra .<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso n\u00e3o significa afirmar que qualquer opini\u00e3o possui o mesmo valor de uma evid\u00eancia cient\u00edfica. Significa reconhecer que diferentes experi\u00eancias humanas produzem conhecimentos diferentes e que a universidade, a escola e a sociedade podem perder parte da realidade quando s\u00f3 conseguem reconhecer aquilo que se apresenta dentro de seus pr\u00f3prios c\u00f3digos.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A mesma l\u00f3gica aparece quando observamos as manifesta\u00e7\u00f5es religiosas. O soci\u00f3logo <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/prandireginaldo\/?hl=en\">Reginaldo Prandi,<\/a> em seus estudos sobre religi\u00e3o e sociedade brasileira, mostra que a moderniza\u00e7\u00e3o n\u00e3o elimina necessariamente a religi\u00e3o, mas transforma profundamente a maneira como ela funciona na vida social. Em vez de receber uma tradi\u00e7\u00e3o religiosa como heran\u00e7a praticamente obrigat\u00f3ria, o indiv\u00edduo moderno passa a ter diante de si um campo muito mais plural de escolhas, podendo mudar de religi\u00e3o, combinar refer\u00eancias e construir sua pr\u00f3pria trajet\u00f3ria de f\u00e9. Prandi identifica justamente esse movimento de pluraliza\u00e7\u00e3o e mobilidade religiosa como uma caracter\u00edstica da modernidade brasileira, na qual diferentes cren\u00e7as passam a disputar espa\u00e7o e os indiv\u00edduos ganham maior autonomia diante das institui\u00e7\u00f5es. Seus estudos sobre o candombl\u00e9 e a umbanda tamb\u00e9m mostram que essas religi\u00f5es n\u00e3o ficaram simplesmente \u00e0 margem da moderniza\u00e7\u00e3o: elas se expandiram e se transformaram acompanhando as mudan\u00e7as sociais, inclusive alcan\u00e7ando novos grupos, cidades e classes sociais. A religi\u00e3o, portanto, n\u00e3o desaparece porque a sociedade muda; ela muda porque a sociedade muda.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"822\" height=\"540\" src=\"https:\/\/nerdizmo.ig.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-8.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-155711\" srcset=\"https:\/\/nerdizmo.ig.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-8.png 822w, https:\/\/nerdizmo.ig.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-8-768x505.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 822px) 100vw, 822px\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Jos\u00e9 Reginaldo Prandi, soci\u00f3logo, escritor e professor brasileiro, uma das principais autoridades em sociologia da religi\u00e3o, particularmente das tradi\u00e7\u00f5es afro-brasileiras.<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso ajuda a desmontar outra expectativa recorrente: a ideia de que moderniza\u00e7\u00e3o necessariamente significa abandonar formas anteriores de conhecimento, espiritualidade ou identidade. Sociedades modernas n\u00e3o substituem automaticamente o velho pelo novo. Elas misturam, reorganizam e ressignificam elementos diferentes.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez seja isso que esteja acontecendo tamb\u00e9m com a juventude.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela n\u00e3o vive simplesmente entre o passado e o futuro. Ela combina coisas. Pode ouvir funk e estudar literatura. Jogar videogame e aprender programa\u00e7\u00e3o. Consumir v\u00eddeos curtos e passar horas pesquisando um assunto espec\u00edfico. Usar intelig\u00eancia artificial para resolver uma tarefa e, ao mesmo tempo, desenvolver conhecimentos que uma gera\u00e7\u00e3o anterior sequer precisou aprender.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso n\u00e3o torna automaticamente essa gera\u00e7\u00e3o mais inteligente. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o permite concluir que ela seja menos inteligente.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 importante, inclusive, n\u00e3o transformar esse argumento em uma defesa ing\u00eanua de tudo que os jovens fazem.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Existem cr\u00edticas leg\u00edtimas \u00e0 cultura contempor\u00e2nea. A exposi\u00e7\u00e3o constante a est\u00edmulos pode prejudicar a concentra\u00e7\u00e3o. As redes sociais favorecem a circula\u00e7\u00e3o de desinforma\u00e7\u00e3o. A press\u00e3o por visibilidade pode produzir ansiedade e comportamento de manada. A ind\u00fastria cultural continua explorando desigualdades e vulnerabilidades. Existem problemas relacionados \u00e0 viol\u00eancia, \u00e0 sexualiza\u00e7\u00e3o precoce, ao consumo e \u00e0 pr\u00f3pria qualidade de determinadas produ\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nada disso precisa ser ignorado para reconhecer que uma gera\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser reduzida aos seus problemas.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Da mesma forma, n\u00e3o \u00e9 preciso transformar o funk em uma m\u00fasica acima de qualquer cr\u00edtica para reconhecer sua import\u00e2ncia cultural. H\u00e1 m\u00fasicas excelentes e ruins, letras sofisticadas e banais, artistas talentosos e produ\u00e7\u00f5es descart\u00e1veis. O mesmo vale para o rock, o pop, a m\u00fasica cl\u00e1ssica, a literatura, o cinema ou qualquer outra manifesta\u00e7\u00e3o art\u00edstica.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ponto \u00e9 separar duas coisas que frequentemente s\u00e3o misturadas: <strong>prefer\u00eancia est\u00e9tica e capacidade intelectual<\/strong>.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o gostar de funk n\u00e3o torna ningu\u00e9m preconceituoso. Gostar de funk n\u00e3o torna ningu\u00e9m intelectualmente sofisticado. Saber apreciar Beethoven n\u00e3o \u00e9 prova de intelig\u00eancia, assim como saber cantar uma m\u00fasica de MC Hariel n\u00e3o \u00e9 prova de ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O problema come\u00e7a quando transformamos gosto em r\u00e9gua moral.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez o fen\u00f4meno dos chamados \u201cFunkeiros Cults\u201d seja interessante justamente por expor essa contradi\u00e7\u00e3o. Jovens que transitam entre o funk, a cultura de internet e refer\u00eancias filos\u00f3ficas mostram, ainda que de maneira informal e muitas vezes provocativa, que os compartimentos culturais que os adultos imaginam como incompat\u00edveis podem coexistir perfeitamente na cabe\u00e7a de uma mesma pessoa.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nietzsche e funk podem ocupar o mesmo universo cultural. Foucault e trap tamb\u00e9m. Literatura, videogame, filosofia, religi\u00e3o, meme e m\u00fasica perif\u00e9rica n\u00e3o precisam disputar obrigatoriamente um \u00fanico lugar na mente de algu\u00e9m.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A intelig\u00eancia humana nunca foi t\u00e3o organizada quanto nossas categorias escolares fazem parecer.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E talvez essa seja uma das maiores dificuldades para compreender a gera\u00e7\u00e3o atual. Ela n\u00e3o est\u00e1 necessariamente abandonando a cultura. Em muitos casos, est\u00e1 misturando culturas que antes eram mantidas separadas.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O jovem que cresce na internet recebe refer\u00eancias de dezenas de lugares ao mesmo tempo. A m\u00fasica que ouve pode vir da periferia de S\u00e3o Paulo. O meme pode ter origem nos Estados Unidos. A s\u00e9rie pode ser coreana. O jogo pode ter sido produzido no Jap\u00e3o. O fil\u00f3sofo citado em um v\u00eddeo pode ser alem\u00e3o. A religi\u00e3o praticada pela fam\u00edlia pode ter ra\u00edzes africanas. Tudo isso pode coexistir em uma mesma timeline.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cultura deixou de caber facilmente nas gavetas que as gera\u00e7\u00f5es anteriores constru\u00edram.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E quando as gavetas deixam de funcionar, uma rea\u00e7\u00e3o comum \u00e9 concluir que o problema est\u00e1 nas pessoas.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez n\u00e3o esteja.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez estejamos diante de uma mudan\u00e7a na pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o social de conhecimento.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A frase \u201cessa juventude est\u00e1 cada vez mais burra\u201d parece explicar muita coisa, mas talvez explique muito pouco. Ela transforma uma transforma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica complexa em uma defici\u00eancia geracional. Coloca no mesmo pacote diferen\u00e7as de linguagem, h\u00e1bitos tecnol\u00f3gicos, prefer\u00eancias culturais, formas de aprendizagem e dificuldades reais de aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Michel Serres oferece uma maneira diferente de olhar para isso: a intelig\u00eancia pode mudar de configura\u00e7\u00e3o quando mudam as ferramentas com as quais pensamos. Pierre L\u00e9vy acrescenta que o conhecimento tamb\u00e9m pode se tornar mais distribu\u00eddo, conectando compet\u00eancias individuais em redes. Hermano Vianna mostra, desde os anos 1980, que uma manifesta\u00e7\u00e3o cultural perif\u00e9rica pode ser compreendida como fen\u00f4meno social complexo. Pesquisadores como Thiagson demonstram que o funk pode ser analisado musicalmente para al\u00e9m do preconceito. Cymrot evidencia que a hist\u00f3ria da criminaliza\u00e7\u00e3o do g\u00eanero n\u00e3o pode ser separada das rela\u00e7\u00f5es entre cultura, poder e sociedade. E a perspectiva de uma ecologia de saberes lembra que aquilo que n\u00e3o cabe nos modelos tradicionais de conhecimento n\u00e3o deixa automaticamente de ser conhecimento.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nenhum desses autores permite concluir que a juventude atual seja simplesmente \u201cmais inteligente\u201d que as anteriores. E essa talvez seja justamente a conclus\u00e3o mais importante.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o precisamos trocar um preconceito por outro.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A gera\u00e7\u00e3o atual n\u00e3o precisa ser transformada em uma gera\u00e7\u00e3o de g\u00eanios digitais para que possamos reconhecer suas capacidades. Assim como as gera\u00e7\u00f5es anteriores n\u00e3o precisam ser tratadas como ultrapassadas para que possamos reconhecer as mudan\u00e7as provocadas pela tecnologia.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A quest\u00e3o \u00e9 mais interessante do que isso.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez o que esteja mudando n\u00e3o seja a intelig\u00eancia humana, mas a paisagem na qual ela se manifesta.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-wp-embed is-provider-nerdizmo wp-block-embed-nerdizmo\"\/>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O jovem que passa horas navegando entre diferentes plataformas pode estar desenvolvendo compet\u00eancias que a escola tradicional ainda n\u00e3o sabe avaliar. O produtor independente que constr\u00f3i uma carreira pelas redes est\u00e1 operando em uma l\u00f3gica econ\u00f4mica diferente daquela conhecida por seus pais. O artista perif\u00e9rico que transforma uma linguagem local em fen\u00f4meno nacional est\u00e1 participando de uma disputa cultural que n\u00e3o pode ser explicada apenas pela velha ideia de \u201cbom gosto\u201d.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A r\u00e9gua mudou.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E talvez o verdadeiro erro n\u00e3o esteja em uma juventude incapaz de acompanhar o mundo, mas em adultos tentando medir um mundo novo com instrumentos antigos.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Veja mais sociedade aqui!<\/p>\n<p><!-- CONTENT END 1 --><\/p><\/div>\n<p><script async src=\"\/\/www.instagram.com\/embed.js\"><\/script><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antes, n\u00e3o escrevem como antes, n\u00e3o ouvem a m\u00fasica de antes, passam tempo demais nas telas e j\u00e1 n\u00e3o sabem as coisas que seus pais e av\u00f3s sabiam. 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