Quando a série clássica do Batman estreou na TV em 12 de janeiro de 1966, com Adam West e Burt Ward vivendo a Dupla Dinâmica, ela rapidamente se tornou um fenômeno cultural. Com o passar dos anos, porém, o programa passou a ser visto por muitos fãs como um dos momentos mais controversos da história do Cavaleiro das Trevas. Para uma parcela do público, a abordagem exageradamente colorida e cômica quase teria condenado o personagem ao ridículo permanente, não fosse a guinada mais sombria promovida por Denny O’Neil no fim dos anos 1960, que resgatou o Batman urbano e vigilante criado por Bill Finger e Bob Kane.

Essa leitura, no entanto, ignora um detalhe fundamental: a realidade é bem mais complexa. Embora O’Neil tenha sido decisivo para redefinir o tom do personagem, foi justamente a série dos anos 60 que impediu o Batman de cair na irrelevância e o transformou, pela primeira vez, em um ícone global. Sem o impacto daquela produção televisiva, talvez o herói nem tivesse sobrevivido tempo suficiente para ser reinventado.
Hoje é difícil imaginar, mas durante as três primeiras décadas de existência dos quadrinhos, o Batman vivia à sombra do Superman. O Homem de Aço dominava o imaginário popular com programas de rádio, tiras de jornal, seriados de cinema e uma série de TV extremamente popular nos anos 1950. Em meados dos anos 60, qualquer pessoa reconhecia o Superman instantaneamente. Já o Batman era conhecido principalmente por quem lia gibis. Foi a série da ABC que mudou esse cenário de forma definitiva, levando o personagem a um público muito mais amplo.
A diferença de abordagem entre os dois heróis na televisão também chama atenção. Enquanto o Superman era tratado com seriedade e agradava adultos sem recorrer ao humor escrachado, o Batman ganhou uma versão assumidamente camp. Isso se deve, em grande parte, à visão do produtor executivo William Dozier, que não tinha qualquer ligação afetiva com os quadrinhos. Ao folhear edições recentes do Batman, ele concluiu que o material era involuntariamente cômico e impossível de ser adaptado de maneira séria.

Dozier não estava totalmente errado. Por mais de uma década, os quadrinhos do Batman haviam se tornado cada vez mais infantis e absurdos. A origem desse problema remonta à publicação de Seduction of the Innocent, livro do psiquiatra Frederic Wertham, que acusava os quadrinhos de corromper a juventude americana. Batman e Robin foram alvos diretos, apontados como uma suposta fantasia homoafetiva que influenciaria negativamente crianças e adolescentes. O pânico moral causado pela obra derrubou as vendas e quase destruiu a indústria.

A resposta foi a criação do Comics Code Authority, um sistema de autocensura que transformou os quadrinhos em produtos excessivamente inofensivos. No caso do Batman, isso significou o abandono do clima noir e urbano em favor de aventuras sci-fi com alienígenas, viagens interdimensionais e cientistas malucos. Vilões clássicos desapareceram, e até o Coringa foi suavizado ao ponto de se tornar um simples palhaço travesso.
Curiosamente, foi a série de TV que resgatou esses vilões esquecidos. Logo na primeira temporada, o programa trouxe de volta figuras como Coringa, Pinguim, Charada e Mulher-Gato, devolvendo-lhes protagonismo tanto na televisão quanto nos quadrinhos. A partir dali, eles nunca mais saíram de cena. Alguns, inclusive, passaram por mudanças permanentes graças à popularidade conquistada na TV.

A Mulher-Gato é um dos exemplos mais emblemáticos. Banida dos quadrinhos por mais de uma década devido às regras do Comics Code, ela retornou impulsionada pelo sucesso das interpretações de Julie Newmar, Lee Meriwether e Eartha Kitt. O visual icônico do macacão colado substituiu o traje antigo e influenciou diretamente as versões posteriores da personagem nos quadrinhos.

O Charada também teve sua relevância redefinida. Após poucas aparições nos anos 1940, ele ficou desaparecido por 16 anos até ser resgatado pouco antes da série estrear. Seu retorno serviu de base para o primeiro episódio do programa, e a performance intensa de Frank Gorshin o consolidou como um vilão de primeira linha. Até mesmo o figurino alternativo de terno verde, criado por preferência do ator, acabou migrando para os quadrinhos.

Outro personagem que deve sua sobrevivência ao Batman ’66 é o Senhor Frio. Introduzido inicialmente como um vilão descartável chamado Mr. Zero, ele ganhou identidade e longevidade graças à série. Décadas depois, seria reinventado com profundidade dramática em Batman: The Animated Series, algo que dificilmente teria acontecido sem aquela primeira aposta televisiva.

Mas nenhuma criação ligada à série teve impacto tão duradouro quanto a Batgirl, Barbara Gordon. Embora tenha surgido primeiro nos quadrinhos, a personagem foi claramente pensada para a televisão. Filha do Comissário Gordon e bibliotecária durante o dia, ela foi integrada à terceira temporada da série e rapidamente conquistou o público. Mesmo depois do fim do programa, Batgirl se tornou peça fundamental do universo DC.

No fim das contas, a série dos anos 60 não ridicularizou um Batman sério, mas refletiu exatamente o estado em que o personagem se encontrava naquele momento. Assim como uma boa paródia não destrói sua obra de origem, o Batman ’66 não anulou o herói, apenas expôs seus excessos. Foi justamente o sucesso e o desgaste dessa fase que permitiram a reação criativa que viria depois.

Se o Batman é hoje um dos personagens mais complexos e populares da cultura pop, isso se deve a uma sequência improvável de eventos. Sem a explosão colorida e exagerada da série estrelada por Adam West, talvez não houvesse espaço para o retorno do Cavaleiro das Trevas sombrio que os fãs conhecem. Mesmo o Batman mais sério e brutal carrega, querendo ou não, uma dívida com aquela versão leve, irônica e inesquecível dos anos 60.
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