Quando imaginamos o segredo para uma vida longa, é comum pensarmos nas dietas do Mediterrâneo ou no estilo de vida calmo das “zonas azuis”, mas a ciência aponta que a resposta para a imortalidade biológica pode estar muito mais perto de casa, literalmente no sangue dos brasileiros. O Brasil vem se destacando no cenário científico global não apenas pelo número impressionante de supercentenários, que são aqueles indivíduos que ultrapassaram a barreira dos 110 anos, mas pela qualidade de vida que esses idosos apresentam. O que torna o cenário nacional tão único é a nossa incomparável diversidade genética, fruto de séculos de uma mistura populacional que pode ter criada, acidentalmente, uma espécie de armadura biológica em nosso DNA.

carreira mais longa na mesma empresa, após completar 84 anos na ReneauxView aos 100 anos de idade.
Pesquisadores do Centro de Pesquisa sobre o Genoma Humano e Células-Tronco da USP, liderados pela renomada geneticista Dra. Mayana Zatz, mergulharam nesse universo fascinante ao acompanhar 160 supercentenários. O estudo revelou que esses brasileiros não estão apenas vivendo mais, mas vivendo com uma resistência invejável, sendo que alguns deles conseguiram superar a COVID-19 mesmo antes da existência de vacinas, sobrevivendo a condições que vitimaram pessoas muito mais jovens. A explicação para essa resiliência reside na história demográfica do país, que trabalhou como um grande laboratório natural ao mistura povos indígenas com colonizadores portugueses, milhões de africanos escravizados e, posteriormente, imigrantes italianos, alemães e a maior população japonesa fora do Japão.
Essa tapeçaria complexa de origens foi comprovada em um genoma altamente miscigenado, criando padrões únicos que influenciam diretamente a nossa resiliência biológica. Estudos anteriores com brasileiros idosos já foram revelados a existência de dois milhões de novas variantes genéticas inéditas para a ciência, provando que o Brasil é um recurso inexplorado e valioso para entender o futuro da medicina. O mais intrigante dessas descobertas é como elas desafiam o que sabemos sobre doenças hereditárias graves, indicando que o contexto genético pode anular sentenças médicas que antes considerávamos absolutas.
Um exemplo prático e surpreendente relatado pela Dra. Mayana Zatz investigou a identificação de uma mutação no gene BRCA1, mundialmente conhecida por aumentar significativamente o risco de câncer de mama, em três mulheres voluntárias do estudo. O detalhe impressionante é que essas mulheres, já na casa dos noventa anos, nunca desenvolveram a doença. Isso sugere que, dentro do genoma miscigenado brasileiro, podem existir mecanismos de proteção ainda desconhecidos que neutralizem genes perigosos, o que mudaria completamente a forma como fazer aconselhamento genético em jovens hoje em dia. A conclusão é clara e coloca o Brasil no centro das atenções, pois para desvendar os mistérios do envelhecimento saudável e da medicina de precisão, a comunidade internacional precisa parar de olhar apenas para populações fluidas e começar a estudar a mistura rica e caótica que compõe o DNA brasileiro.
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