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Espaço é “melado” como mel? Novo estudo sugere que o vácuo pode ter viscosidade e isso mudaria a energia escura

O espaço parece vazio. Mas, para a cosmologia, esse “vazio” nunca foi simples. Ele carrega energia, influencia a expansão do Universo e ainda guarda um dos maiores mistérios da física moderna: a energia escura.

Agora, um novo trabalho está chamando atenção por uma ideia bem fora do padrão. Ele propõe que o espaço pode se comportar como um fluido viscoso, algo como um mel cósmico, que oferece resistência quando o Universo se expande. A hipótese ainda não passou por revisão por pares, mas está em revisão para ser publicada no arXiv e já está alimentando discussões.

Por que isso apareceu agora

O modelo mais usado hoje para descrever a evolução do Universo é o ΛCDM. Nele, a energia escura entra como uma constante cosmológica, o famoso “Λ”, que age como uma pressão negativa e acelera a expansão do cosmos. A ideia é que essa força seja estável no tempo.

Só que observações recentes começaram a sugerir uma história mais complicada. O DESI, um dos grandes projetos atuais de mapeamento do Universo, divulgou resultados indicando que a energia escura pode estar mudando com o tempo, ficando “menos intensa” do que o esperado em certas interpretações quando combinada com outros dados, como supernovas e o fundo cósmico de micro-ondas.

Esse tipo de “tensão” é exatamente o que faz teorias alternativas pipocarem.

A ideia do novo estudo: viscosidade e “fônons espaciais”

O autor do estudo, Muhammad Ghulam Khuwajah Khan, propõe tratar o espaço como algo com propriedades de material. No modelo, o espaço seria como uma “membrana elástica” com tensão e, sobre ela, existiria um tipo de vibração longitudinal que ele chama de spatial phonons, ou fônons espaciais.

Na física do estado sólido, fônons são vibrações coletivas em um material, basicamente a “onda” de como átomos vibram em conjunto. Khan pega essa intuição e leva para o próprio tecido do espaço. A consequência é uma resistência à expansão, descrita como viscosidade de volume. Isso criaria um tipo de “arrasto” que pode alterar, de forma sutil, como a energia escura se manifesta ao longo do tempo.

O artigo afirma que, com um ajuste fenomenológico, esse efeito consegue acompanhar bem um comportamento de energia escura do tipo “evolutivo” que tem sido usado para descrever o que o DESI vem sugerindo.

O que isso explicaria, na prática

A promessa do modelo é simples: manter a base do ΛCDM como referência, mas adicionar uma “peça” que ajuda a encaixar melhor as observações.

Em vez de dizer que a energia escura mudou do nada, o modelo sugere que o espaço teria uma propriedade física extra que faz a expansão parecer diferente em épocas diferentes. É como se o Universo ainda tivesse um “empurrão”, mas também tivesse um freio bem suave, ligado à estrutura do próprio vácuo.

O alerta que não dá para ignorar

Essa hipótese ainda está longe de virar consenso.

Primeiro porque o paper é preprint, ou seja, ainda não foi revisado formalmente por outros cientistas.
Segundo porque sinais de “energia escura evolutiva” ainda dependem de combinações de conjuntos de dados e escolhas de parametrização. Até dentro do DESI, a mensagem pública é de cautela: é cedo para bater o martelo.

Como essa ideia pode ser testada

O caminho é o de sempre na cosmologia: mais dados e medições mais precisas.

Além do próprio DESI continuar acumulando observações, missões como o telescópio espacial Euclid, da ESA, foram desenhadas justamente para mapear a estrutura em grande escala e investigar a natureza da energia escura e da matéria escura com mais detalhe. Se existe um “arrasto” do espaço, ele teria que deixar assinaturas estatísticas em como galáxias se distribuem e em como a expansão evolui.

No fim, a ideia do “espaço viscoso” pode virar uma pista real. Ou pode acabar como uma teoria criativa que não sobrevive quando os dados apertam.

Mas uma coisa ela já prova: quando o Universo dá sinais de que o modelo padrão não está fechando perfeito, a ciência volta para a prancheta e qualquer hipótese ousada ganha alguns minutos no palco.

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Fagner Lopes

CEO Presidente e fundador da Obewise Entertainment Network, escritor, biomédico e amante de jogos eletronicos, mais precisamente DOTA 2. Redator do site e artista na Obewise Radio Network.

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