A discussão sobre o impacto da Inteligência Artificial no mercado de trabalho costuma girar em torno de dois pólos diferentes, onde de um lado temos os otimistas que preveem um aumento de produtividade e criação de novas funções, e do outro os pessimistas que aguardam uma substituição em massa da mão de obra humana. Enquanto economistas e especialistas em tecnologia debatem qual cenário prevalecerá, um novo estudo publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) revela que uma simples percepção pública sobre o tema pode ser mais perigosa do que a realidade em si. Uma pesquisa indica que quando as pessoas acreditam que a IA vai roubar seus investimentos, a confiança nas instituições democráticas despenca financeiramente.

Pesquisadores analisaram dados massivos de mais de 37 mil entrevistados em 38 países europeus e descobriram um padrão preocupante de pessimismo tecnológico. A grande maioria do público tende a enxergar a inteligência artificial fundamentalmente como uma força de substituição laboral, e não como uma ferramenta criadora de oportunidades. O estudo demonstra que essa visão não é inócua, pois, ao controlar variáveis sociodemográficas e políticas, ficou evidente que aqueles que percebem a IA como uma ameaça aos seus postos de trabalho apresentam níveis significativamente menores de satisfação com a democracia. A lógica por trás dessas especificações é que a legitimidade das instituições democráticas muitas vezes relacionadas na capacidade do Estado de provar segurança econômica e estabilidade, pilares que parecem ruir diante da automação desenfreada.
Para ir além da simples demonstração e entender se o medo da tecnologia realmente causa esse desencanto político, os autores conduziram experimentos controlados com cidadãos do Reino Unido e dos Estados Unidos. Os participantes foram expostos a diferentes narrativas sobre o futuro, sendo que um grupo leu textos sobre como a IA eliminaria vagas e outro sobre como ela criaria novos mercados. O resultado foi contundente ao mostrar que a exposição ao cenário de substituições de trabalho fez com que os participantes relatassem uma erosão imediata na confiança democrática. Mais alarmante ainda foi a constatação de que esse medo gera apatia, pois as pessoas que se sentiram ameaçadas pela tecnologia revelaram menor vontade de participar politicamente ou de se envolver na regulação do futuro da IA.

Essa descoberta traz um paradoxo inquietante para o futuro da governança tecnológica, constatando que o medo da automação pode afastar justamente as pessoas que deveriam estar engajadas em moldar as regras do jogo. Ao sentirem que o sistema democrático é incapaz de sustentar-las da obsolescência profissional, os cidadãos tendem a se retirar do debate público, o que ironicamente deixa o desenvolvimento da inteligência artificial correr solto sem o devido escrutínio popular. O estudo serve como um alerta crucial para legisladores e líderes do setor de tecnologia, indicando que a narrativa pública sobre a IA não é apenas uma questão de marketing ou economia, mas um fator vital para a manutenção da política de saúde e social das nações desenvolvidas.
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