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Memoriais do Holocausto pedem ação urgente contra imagens falsas criadas por IA

Por décadas, o maior medo de quem preserva a memória do Holocausto era o esquecimento. Agora, o problema ganhou um rival bem mais estranho: a invenção. Memoriais e centros de documentação na Europa estão pressionando plataformas como Facebook, Instagram, TikTok e X a agir com mais força contra um novo tipo de desinformação, as imagens e vídeos gerados por inteligência artificial que imitam fotos de arquivo e acabam sendo compartilhados como se fossem reais.

O alerta ficou ainda mais forte em janeiro de 2026, quando instituições ligadas a antigos campos de concentração e museus de memória divulgaram cartas abertas pedindo medidas práticas, e não apenas moderação “depois que viraliza”. A principal preocupação é simples: quando uma imagem falsa parece histórica, ela vira “prova” para quem não checa, confunde quem quer aprender e ainda abre espaço para distorções, revisionismo e monetização em cima de tragédias reais.

O que esses grupos chamam de “AI slop” são montagens fabricadas para parecer documentação do período: supostas cenas de campos, libertações e vítimas que nunca existiram em registros oficiais. Algumas postagens já chegaram ao grande público antes de serem desmentidas.

Um dos casos mais citados foi o de uma imagem viral que mostraria uma menina em um triciclo, identificada como uma suposta vítima de Auschwitz. O próprio Museu de Auschwitz-Birkenau publicou alerta dizendo que não há evidência de que aquela pessoa existiu e que a imagem não faz parte de acervos confiáveis.

Outro exemplo mencionado em reportagens internacionais foi a foto falsa de um homem em situação extrema em Flossenbürg, apresentada como registro histórico, mas criada por IA. O ponto, para os memoriais, é que mesmo quando o desmentido aparece, ele costuma chegar tarde, depois que o conteúdo já rodou o algoritmo e “grudou” na cabeça de muita gente.

A pressão aumentou após uma carta aberta datada de 13 de janeiro de 2026, assinada por instituições de memória na Alemanha e região. O texto pede cinco ações bem diretas: combate proativo (não só por denúncia), opção de reportar como desinformação, exclusão de monetização para quem espalha esse material, rotulagem obrigatória de conteúdo gerado por IA e cooperação com especialistas e arquivos para melhorar detecção.

A cobrança também ganhou eco político na Alemanha. Uma reportagem da Reuters descreveu o tema como um alerta oficial, com autoridades defendendo marcação e remoção de conteúdo que deturpa fatos históricos, além de críticas ao uso de imagens falsas para chamar atenção ou ganhar dinheiro.

Existe um fator de urgência que aparece em quase toda fala de especialistas: o tempo. À medida que o número de sobreviventes vivos diminui, imagens, documentos e testemunhos viram ainda mais centrais para educação e memória. Quando a internet começa a misturar evidência com “foto realista de IA”, a confiança no registro histórico vira alvo fácil.

Esse debate não é novo para organismos internacionais. A UNESCO já vinha alertando sobre o risco de a IA gerar distorções e desinformação relacionadas ao Holocausto, defendendo trabalho conjunto com historiadores, educadores e comunidades afetadas, além de reforço em letramento digital para o público.

A discussão não é “proibir IA”. O recado dos memoriais é mais básico: em temas historicamente sensíveis, onde documentos importam, a lógica das plataformas precisa ser outra. Menos recompensa para conteúdo emocional e fabricado, mais transparência, rotulagem e resposta rápida.

Se as redes não ajustarem as regras, o risco é um cenário bem tóxico: imagens falsas “competindo” com histórias reais, educadores tendo que apagar incêndio o tempo todo e negacionistas usando a confusão como munição.

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Fagner Lopes

CEO Presidente e fundador da Obewise Entertainment Network, escritor, biomédico e amante de jogos eletronicos, mais precisamente DOTA 2. Redator do site e artista na Obewise Radio Network.

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