Astrônomos seguem tentando resolver um quebra cabeça que ficou ainda maior com o James Webb Space Telescope: como o Universo tão jovem já conseguia abrigar galáxias muito brilhantes e buracos negros gigantes, poucos centenas de milhões de anos após o Big Bang. Uma das pistas mais estranhas dessa fase são os chamados Little Red Dots, pequenos pontos vermelhos e compactos vistos quando o cosmos ainda tinha menos de 1 bilhão de anos.
Esses objetos chamaram atenção porque parecem “brilhar demais” para o tamanho que têm. Em várias interpretações iniciais, eles ficavam presos em um dilema: ou seriam galáxias minúsculas produzindo estrelas em uma eficiência quase impossível, ou seriam buracos negros supermassivos absurdamente pesados para o porte de suas galáxias. E ainda havia um detalhe que não encaixava: a ausência de sinais fortes em raios X e rádio, algo esperado em buracos negros ativos.
Agora, um estudo publicado na Nature propõe uma saída bem elegante. A equipe liderada por Vadim Rusakov, ligado à University of Manchester, sugere que muitos desses Little Red Dots são, sim, buracos negros jovens, mas envoltos por um “casulo” denso de gás ionizado que muda o que a gente enxerga.
O truque está nas linhas do espectro
Para estimar a massa de um buraco negro distante, astrônomos analisam o espectro de luz e, em especial, a largura de certas linhas de emissão. Por muito tempo, a leitura padrão era: linhas mais “largas” indicam gás se movendo muito rápido, o que aponta para um buraco negro muito massivo.
O novo trabalho diz que, nesses objetos, a largura das linhas pode estar sendo inflada por espalhamento de elétrons, e não apenas por movimento rápido do gás. Se isso estiver certo, as massas calculadas antes estavam superestimadas. O estudo aponta que os buracos negros podem ser cerca de 100 vezes menos massivos do que algumas estimativas anteriores sugeriam, ficando na faixa de aproximadamente 100 mil a 10 milhões de massas solares em vários casos analisados.
Um “casulo” que alimenta e esconde
A parte mais interessante é a imagem do “casulo”. A hipótese é que esses buracos negros estejam em uma fase inicial de crescimento, cercados por uma camada compacta e densa de gás ionizado. Esse material serviria como combustível para uma acreção muito intensa, perto do limite de Eddington, e ao mesmo tempo ajudaria a “abafar” parte das emissões em raios X e rádio que normalmente denunciariam um buraco negro ativo.
Em outras palavras, eles não seriam monstros prontos e desproporcionais. Seriam “bebês” em um estágio que a gente quase não observa no Universo atual, justamente porque é rápido e porque o casulo mascara os sinais mais óbvios.
Isso encerra o mistério? Ainda não, mas muda o jogo
Os Little Red Dots continuam sendo um tema quente, e existem outras ideias circulando. Algumas apontam para sementes pesadas formadas por colapso direto de nuvens de gás primordial. Outras abordagens sugerem cenários ainda mais exóticos, como estruturas apelidadas de “black hole stars”.
O que a hipótese do casulo faz, porém, é reduzir bastante a tensão do problema: se as massas eram menores do que se pensava, fica mais plausível explicar como esses objetos cresceram tão cedo. E também abre uma pergunta bem antiga, com uma nova cara: o que vem primeiro, o crescimento do buraco negro central ou a formação de estrelas e da própria galáxia ao redor?
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