Pouca gente liga para letras quando o assunto é o show do intervalo do Super Bowl. O que realmente fica na memória são as imagens, a energia, o impacto visual capaz de atravessar décadas. É por isso que lembramos da sombra gigante de Prince, do surgimento quase mágico de Michael Jackson, do anúncio inesperado da gravidez de Rihanna ou até de polêmicas e memes improváveis. O halftime show sempre foi sobre espetáculo, e não sobre audição refinada. Nesse contexto, Bad Bunny não só entendeu o jogo como elevou o nível a um patamar raríssimo.
Antes mesmo de ele pisar no gramado do Super Bowl LX, havia quem tentasse transformar sua escolha em controvérsia, questionando o fato de o astro porto-riquenho cantar majoritariamente em espanhol. A discussão, além de artificial, soa deslocada em um país cada vez mais bilíngue e em um evento global por definição. Mais do que isso, ignora o óbvio: Bad Bunny é um dos artistas mais populares do planeta, com presença constante nas paradas, no cinema, na TV e nas maiores premiações da música. Sua simples presença ali já era, por si só, um statement.
Depois de uma primeira metade de jogo marcada por baixo nível técnico e comerciais pouco inspirados, o Super Bowl parecia precisar desesperadamente de uma injeção de vida. Foi exatamente isso que aconteceu. O que Bad Bunny entregou não foi apenas um medley de hits, mas uma experiência completa, cuidadosamente concebida e executada, talvez a produção de halftime show mais ambiciosa e bem-resolvida que o evento já viu.

Em vez de optar pelo formato mais previsível de palco, banda e coreografia padrão, o artista transformou o campo em um grande mosaico narrativo. A apresentação celebrou Porto Rico e, de forma mais ampla, as Américas, passando pelo trabalho cotidiano, pela família, pelos afetos e pelas festas. Tudo fluía como uma história contínua, sem cortes bruscos entre músicas, reforçando a ideia de ciclo, de vida em movimento. Mesmo quem não captou todas as referências culturais conseguiu entender o essencial: aquilo era alegria em estado bruto.
O cenário se transformava diante dos olhos do público, indo de plantações de cana a bairros urbanos, de barbearias a salas de estar onde uma família se reunia para assistir a um discurso recente de Bad Bunny no Grammy. A integração entre tecnologia, câmera e performance foi impressionante, com planos que acompanhavam o cantor de perto, colocando o espectador dentro da cena, e não como alguém observando à distância. A direção conseguiu algo raro em um estádio: intimidade sem perder a noção de grandiosidade.
Musicalmente, havia de tudo um pouco. Orquestra de cordas, metais, batidas latinas e participações especiais que ajudaram a aproximar públicos diversos. Lady Gaga surgiu em um dos momentos mais comentados da noite, Ricky Martin foi recebido como ícone absoluto, e rostos conhecidos como Pedro Pascal, Cardi B e Jessica Alba apareceram como convidados de uma festa que parecia não ter fronteiras. Era um lembrete claro de que aquele show não excluía ninguém; ao contrário, convidava todo mundo a entrar.
A coreografia também fugiu do óbvio. Não se limitava a dançarinos profissionais em formação perfeita, mas incluía casais dançando lentamente, idosos se jogando na música sem cerimônia e jovens vibrando com energia contagiante. Tudo era coreografado, sim, mas com uma naturalidade que reforçava o tema central da apresentação: humanidade.
Em muitos momentos, Bad Bunny parecia menos um cantor em destaque e mais um guia, conduzindo o público por seu universo cultural, apresentando sua música e sua visão de mundo. O resultado foi um show imersivo, sem respiros artificiais ou planos abertos que lembrassem que aquilo acontecia em um estádio de futebol. Durante cerca de quinze minutos, o Super Bowl deixou de ser apenas esporte e virou celebração.
Nem todo mundo reconheceu todas as músicas, e isso pouco importou. A proposta nunca foi criar uma coletânea de sucessos fáceis, mas um grande painel contínuo, vivo e pulsante. Nada ali parecia feito pelo caminho mais simples, e talvez seja exatamente isso que torne essa apresentação tão especial. Em um evento historicamente conservador em suas escolhas, Bad Bunny entregou algo ousado, necessário e inesquecível.
Se o show do intervalo do Super Bowl serve para marcar época, o de 2026 cumpriu essa missão com sobras.
Leia mais!




