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girando a realidade em pixel art quântico

O desafio de escrever sobre Cassette Boy começa desde o primeiro parágrafo, pois à primeira vista ele parece “apenas” mais um RPG em pixel art, desses que vivem brotando toda semana nas lojas digitais e consoles. No entanto, bastam poucos minutos para perceber que há algo profundamente inquietante por trás dos sprites fofinhos e da estética retrô da Wonderland Kazakiri, nesse jogo publicado pela Pocketpair Publishing.

Em um mundo em que tudo que sai do seu campo de visão literalmente, Cassette Boy pega uma pergunta clássica de Einstein sobre a lua e a mecânica quântica, e a transforma em um jogo sobre percepção, presença e, de um jeito bem direto, sobre como nós escolhemos olhar para as coisas que importam. É aquele tipo de experiência que começa como curiosidade e, quando você vê, está repensando o que significa existir nesse mundo de um jogo.

Um mundo Schrödinger em pixel art

A história se apoia em uma premissa tão simples quanto poderosa em que aA lua se foi. Ela escorregou enquanto você desviava o olhar. Você desperta em um mundo mergulhado em escuridão, guiado apenas por um orbe luminoso que não é exatamente um tutorial, mas um lembrete constante de que sua percepção é a única âncora da realidade. Esse orbe sussurra uma verdade desconfortável sobre tudo o que você não vê não existir.

Cassette Boy

A lua desapareceu porque você deixou de olhar para ela, e sem a lua o mundo está literalmente ruindo, desfazendo-se ao redor dos seus passos. A narrativa é construída em cima dessa lógica quase poética da ausência e da presença como duas faces da mesma moeda, quase um Mundo de Schrödinger, se é que podemos pensar dessa forma, em que cada tela é um recorte do que você escolhe tornar real naquele instante.

Em termos de enredo, Cassette Boy não aposta em longos diálogos expositivos ou em cutscenes cheias de reviravoltas hollywoodianas. Ele prefere sugerir, insinuar e deixar que você preencha os vazios, o que conversa muito bem com o tema central de coisas que só existem quando vistas. Os encontros com NPCs são breves, às vezes enigmáticos, e o próprio fato de que eles simplesmente deixam de existir quando saem da tela reforça uma melancolia silenciosa.

Cassette Boy

Afinal, você nunca sabe se vai reencontrar alguém ou se aquela presença foi um fragmento de realidade que se desfez para sempre. Poético, né? É quase como folhear um diário em páginas arrancadas, em que cada anotação sobrevivente carrega o peso daquilo que se perdeu. A lua, dentro desse contexto, acaba se tornando um símbolo daquilo que a gente só valoriza quando já deixou escapar.

O verdadeiro brilho de Cassette Boy está em sua jogabilidade, com o chamado Sistema de Schrödinger, se tornando o coração de todas as decisões que você toma, em que tudo o que sai do seu campo visual é apagado da realidade. Isso vale para paredes, inimigos, plataformas, portas, interruptores e até aquele NPC que acabou de te dar uma pista importante.

Cassette Boy

A cada passo, você é obrigado a lembrar que o mundo não é um cenário fixo, e sim um recorte em constante colapso e reconstrução. Parece complexo, mas é fácil de entender na prática, por exemplo, se uma parede bloqueia o seu caminho, basta girar a tela para empurrar essa parede para fora da tela, fazendo com que ela deixe de existir.

Retrô, surreal e inquietante

No entanto, Cassette Boy não vive só de enigmas contemplativos, ele também é um RPG com combate, monstros e chefes que aproveitam a lógica do mundo para pressionar o jogador. As batalhas misturam uso de armas, posicionamento e, claro, manipulação de perspectiva. Às vezes, a melhor maneira de lidar com um inimigo enorme não é enfrentá-lo de frente, e sim girar o mundo para que uma parte do corpo dele saia da tela, apagando parte da ameaça.

Cassette Boy

O jogo consegue trazer momentos de tensão verdadeiros, em que você precisa equilibrar o ritmo dos ataques com a leitura do cenário, sempre consciente de que um giro mal calculado pode tanto te salvar quanto apagar o chão sob seus pés, fazendo com que essa integração entre puzzles e combate cria uma curva de aprendizado interessante.

Visualmente, Cassette Boy abraça um visual retrô simples, mas é justamente nesse minimalismo que o jogo encontra espaço para ser ousado. Os cenários pixelados trazem aquele clima nostálgico de 16 bits, com personagens simples e animações enxutas, mas a forma como o mundo gira em 3D cria uma sensação estranha e quase surreal.

Cassette Boy

O contraste entre a estética fofa e o conceito de um universo que se desfaz quando sai de vista gera um desconforto interessante, como se você estivesse jogando um cartucho perdido de um console antigo que foi programado por alguém obcecado por física quântica. As paletas de cores variam conforme você se aproxima da lua utilizando tons mais frios e sombrios nas áreas em colapso e cores mais vibrantes nos raros refúgios de estabilidade, onde o mundo parece insistir em continuar existindo.

A trilha sonora acompanha toda pegada filosófica e reflexiva do jogo com bastante eficiência, em que suas composições misturam melancolia e curiosidade, com melodias discretas que parecem sussurrar ao fundo, como o orbe que te guia. Os efeitos sonoros completam essa ambientação com detalhes importantes. Em um mundo em que o invisível é sinônimo de incerto, ouvir o que não está mais ali é tão significativo quanto ver, reservando ao design de som um segundo canal de percepção, que te ajuda a ler o cenário para além do que os olhos mostram.

No fim das contas, Cassette Boy é um daqueles jogos que causam impacto não por seu tamanho, mas pela coragem do conceito. A linha que liga a mecânica de rotação, o Sistema de Schrödinger, a narrativa da lua perdida e a estética retrô é bem construída e palpável. Se você gosta de puzzles que mexem com a sua cabeça, de RPGs que ousam sair da fórmula batida e de mundos que fazem você pensar sobre o ato de olhar, Cassette Boy merece ocupar um lugar de destaque na sua lista. Num mercado com tantos jogos que disputam sua atenção pelas explosões e excesso de estímulos, este título busca conquistar você justamente pelo oposto ao lembrar que aquilo que você não vê, deixa de existir.

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Nota final: 5/5


























Avaliação: 5 de 5.

Acesse o site oficial do jogo.

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Fagner Lopes

CEO Presidente e fundador da Obewise Entertainment Network, escritor, biomédico e amante de jogos eletronicos, mais precisamente DOTA 2. Redator do site e artista na Obewise Radio Network.

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