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O Vigilante do Centro Histórico: violência na noite porto-alegrense

O começo lembra muito uma já conhecida história de origem de um certo super-herói. Mas a expectativa do acostumado leitor é quebrada ao mostrar que o vigilante já existe na trama que se desenrola. O ponto de partida também não é um cinema em Gotham City, e sim o famoso e belo Theatro São Pedro, na cidade de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul.

A partir daí a trama vai ser levada pelo ponto de vista de Arthur, um jornalista que vai investigar o vigilante mascarado, que vai sendo noticiado ao combater neonazistas na noite porto-alegrense.

Capa de O Vigilante do Centro Histórico – Volume 1

O Vigilante do Centro Histórico – Volume 1 (Dom Mordaz, 2024) tem um forte estilo neo-noir, fazendo uso da vida noturna no Centro Histórico (e Cidade Baixa) de Porto Alegre para mostrar a ascensão de grupos neonazistas, agindo livremente em uma cidade quase sem policiamento.  

Referências

Como costumeiro nas obras de Djeison, há inúmeras referências. A começar pelas referências diretas ao urbanismo de Porto Alegre, tanto no Centro Histórico quanto na Cidade Baixa: Theatro São Pedro, Basílica Nossa Senhora das Dores, Rua dos Andradas (também conhecida como Rua da Praia), Rua Leão XIII. A UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) também é mencionada. Além de uma Rua José Patrício (seria José do Patrocínio?). E a Estátua do Laçador.

A peça teatral que aparece no início faz referência aos Crimes da Rua do Arvoredo. Esses crimes ocorreram entre 1863 e 1864. Os três acusados atraiam vítimas para matá-las e, provavelmente, se desfaziam de partes dos corpos produzindo linguiças de carne humana pra serem vendidas em um açougue da cidade.

Há também referências diretas ao roteirista Djeison Hoerle: Café Delgado e outros etarismos (uma de suas primeiras obras), bem como a cidade de Campo Bom (e a Fábrica Catléia), cidade do autor.

Já Braian Malfatti, o desenhista, revela que teve como referência Batman: Gárgula de Gotham, de Rafael Grampá. Por sua vez, o primeiro bandido a aparecer lembra o Coringa de Greg Capullo.

Por fim, um quadro em um bar onde aparece escrito “Quem vigia o Vigilante????” faz referência direta a uma das maiores HQs de todos os tempos: Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons.

Página interna de O Vigilante do Centro Histórico – Volume 1.

HQs que se passam em Porto Alegre

Outras HQs recentes que se passam em Porto Alegre:

Conversas em Porto Alegre, de Pablito Aguiar (Arquipélago Editorial, 2024).

Viaduto, de Ana Luiza Koehler (Veneta, 2023).

Beco do Rosário, de Ana Luiza Koehler (Veneta, 2020).

Análise dos elementos que constituem a obra

Roteiro: O roteiro é dinâmico e intenso. Alternando momentos de tensão com momentos de ação, e ainda momentos mais “lentos”, de reflexão do personagem principal frente a situação.

Desenho: A arte é orgânica, sombria e reflete a crueza da ambientação neo-noir com as claras referências da arquitetura urbana do Centro Histórico de Porto Alegre. Destaque especial para a genial arte da capa, com o perfil do vigilante sobreposto ao mapa do Centro Histórico em vermelho!

Páginas internas de O Vigilante do Centro Histórico – Volume 1.

Autores

Djeison Hoerlle, roteiro. É designer, escritor e fundador do selo independente Dom Mordaz. Em suas obras explora metalinguagem, fantasia e humor ácido.

Braian Malfatti, desenho, letras e projeto gráfico. É quadrinista, ilustrador, designer gráfico e fundador do selo independente Dom Mordaz.

Outras obras dos autores

Djeison Hoerlle: Jardim das Ideias (2021), Perda (2021), O Epitáfio de Bartolomeu (2023), Café Delgado e outros etarismos (2024), Dissabores (2024), O Colecionador (2025), Peregrinos de Palha & Pena (2025), Nada Floresceu em 99 (2026).

Braian Malfatti: Lendas (Tabula Magazine Apresenta: Espada e Feitiçaria, 2022), A luz no meio da noite (2023), Septagram (2023), YokaiSushi (Revista Pé de Cabra, 2024), State of Kane 3 (2024), O Manuscrito (Casa das Histórias, 2024), 40 minutos de Nova York (Casa das Histórias, 2024), Orphanmaker (2025), Pied Paper (2025), O Colecionador (2025), Céu Rosa-Poeira (2025), Em três dias trago a pessoa amada (2025), Éramos dois pela manhã (2026).

Também publicou quadrinhos e ilustrações nas revistas Almanaque Skriptzine: Horror Cósmico, Revista Diário Macabro e Revista Pé de Cabra. Além disso, é letrista do quadrinho digital Pinballer, e colabora com tirinhas na página de quadrinhos digitais Soap Box Comics.

Dom Mordaz

O Dom Mordaz é um selo de quadrinhos independente criado em 2024 por Djeison Hoerlle e Braian Malfatti. O selo atualmente conta com 6 obras publicadas, mais O Colecionador, distribuído pela Editora Hipotética.

Reflexões finais

“Ou tu é um jornalista investigativo, ou tu é um mero comunicador.” …a frase pensada pelo personagem Arthur reflete sua personalidade, visão de mundo, e acaba refletindo a trama também. Uma trama preocupada com problema atuais: fake News, intolerância, preconceito e violência.

Os neonazistas retratados agredindo um casal homoafetivo e uma mulher, além de serem um problema atual, não se restringem mais apenas a capitais hoje em dia, sendo encontrados também no interior. Fica claro o fato de se sentirem livres para agirem na noite da capital pela quase total ausência de policiamento. Uma sensação bem real para quem anda no centro histórico.

Adicionalmente aparece a mídia tendenciosa, que pode até não mentir, mas através da escolha do que mostrar e como mostrar, é capaz de manipular a opinião pública.

E, por fim, temos a figura do vigilante. Uma “categoria” de personagem comum de ser encontrado desde o início do século XX em obras pulp, e posteriormente nas HQs de super-heróis. Um indivíduo que resolve fazer justiça com as próprias mãos. Surge sempre em um cenário onde o governo é omisso, a polícia é ineficiente, e a violência assola a vida urbana.

O Vigilante do Centro Histórico mostra o contraste de uma capital que pode ser bela durante o dia, mas perigosa durante a noite. É uma HQ com fôlego e energia para sacudir o leitor e fazer ele ouvir: “Fica alerta! Muita coisa não vai indo bem!”. Usa o Centro Histórico como palco para atores sociais que moldam a vida noturna na capital.  

Conheceremos o encerramento total da trama no Volume 2, que deve sair ainda neste ano.

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Fagner Lopes

CEO Presidente e fundador da Obewise Entertainment Network, escritor, biomédico e amante de jogos eletronicos, mais precisamente DOTA 2. Redator do site e artista na Obewise Radio Network.

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