A Microsoft deu um passo importante rumo ao futuro do armazenamento digital de longo prazo. Pesquisadores do Project Silica publicaram um novo estudo na revista Nature mostrando que agora é possível gravar dados em vidro borossilicato comum, o mesmo tipo encontrado em utensílios de cozinha, como formas de Pyrex e portas de forno, mantendo as informações legíveis por pelo menos 10 mil anos.
A mudança resolve um dos maiores obstáculos do projeto. Até então, a tecnologia dependia de vidro de sílica extremamente puro, caro e difícil de produzir em escala. Com o uso de borossilicato, o armazenamento em vidro fica mais acessível e próximo de aplicações reais em datacenters e arquivos de longo prazo.

De filme clássico a arquivos eternos
O Project Silica não é exatamente novo. Em 2019, a Microsoft chamou atenção ao armazenar uma cópia completa do filme Superman, de 1978, em um pequeno pedaço de vidro do tamanho de um porta-copos. Na época, a demonstração provou que a ideia funcionava, mas também deixou claro que o custo do material inviabilizava o uso prático.
Desde então, a equipe vem ampliando a capacidade e a eficiência do sistema. Testes mais recentes mostram que a tecnologia evoluiu de dezenas de gigabytes para terabytes por peça, mantendo o foco em durabilidade extrema.
Como funciona o armazenamento em vidro
Em vez de gravar dados magneticamente, como discos rígidos e fitas, o Project Silica usa lasers ultrarrápidos, chamados de lasers de femtossegundo. Eles criam pequenas alterações permanentes dentro do vidro. Essas marcas são conhecidas como voxels, uma espécie de pixel tridimensional.
Cada voxel altera a forma como a luz atravessa o material. Juntos, eles formam camadas e mais camadas de informação dentro de uma placa de vidro com apenas 2 milímetros de espessura. O resultado é um meio físico praticamente imune a água, calor, poeira e campos magnéticos, fatores que costumam destruir mídias tradicionais.

Mais simples, mais rápido e mais barato
O novo método trouxe avanços importantes. Agora, cada voxel pode ser gravado com um único pulso de laser, em vez de vários, o que acelera o processo e reduz a complexidade do equipamento. Também é possível escrever dados com múltiplos feixes ao mesmo tempo, aumentando a taxa de gravação.
A leitura dos dados também ficou mais simples. Antes, eram necessárias várias câmeras para decodificar as informações no vidro. Hoje, um único sistema óptico combinado com algoritmos de aprendizado de máquina consegue reconstruir os dados mesmo quando há interferência entre marcas próximas.
Terabytes em um pedaço de vidro
Segundo os pesquisadores, um quadrado de vidro de 12 centímetros de largura e 2 milímetros de espessura já consegue armazenar cerca de 2 terabytes de dados. Em configurações mais densas, o número pode chegar a 4,8 terabytes, o equivalente a milhões de documentos ou milhares de horas de vídeo em alta definição.
Para testar a durabilidade, a equipe submeteu o vidro a experimentos de envelhecimento acelerado, aquecendo o material a temperaturas extremas. Os dados permaneceram estáveis mesmo a cerca de 290 °C, o que indica uma vida útil de mais de 10 mil anos em condições normais.
A Microsoft não pretende substituir SSDs ou discos rígidos do dia a dia. O foco do Project Silica é arquivamento de longo prazo, para dados que quase não precisam ser acessados, mas não podem ser perdidos.
Isso inclui registros científicos, dados médicos, documentos legais, acervos culturais, arquivos históricos e grandes conjuntos de dados usados no treinamento de inteligência artificial. A ideia é reduzir a necessidade de copiar arquivos repetidamente para novas mídias, um processo caro e energeticamente ineficiente.

Uma cápsula do tempo digital
Entre os experimentos mais curiosos, o projeto já colaborou com iniciativas para armazenar músicas e imagens em ambientes extremos e até com estudantes que criaram uma espécie de “Golden Record 2.0”, reunindo sons, idiomas e imagens da Terra para possível descoberta futura, até mesmo por civilizações extraterrestres.
Ainda longe de chegar ao consumidor final, o Project Silica mostra como o problema do esquecimento digital pode ter uma solução inesperada. No futuro, parte da memória da humanidade pode estar guardada em algo tão simples quanto um pedaço de vidro parecido com o da sua cozinha.
Veja mais sobre tecnologia!




