O cinema documental palestino esteve no centro das atenções durante a CPH:Conference, programação da indústria do Festival Internacional de Cinema Documentário de Copenhague, a CPH:DOX. Um dos encontros mais comentados do evento reuniu cineastas palestinos e profissionais do setor para discutir como o audiovisual tem servido não apenas como expressão artística, mas também como registro histórico, denúncia política e ferramenta de resistência cultural.
Com auditório cheio, o painel dedicado ao documentário palestino contemporâneo mostrou o interesse crescente por produções que abordam a realidade vivida pelo povo palestino a partir de perspectivas íntimas, humanas e autorais. A proposta do debate foi ampliar a compreensão sobre como diferentes olhares sobre a Palestina histórica e sua população podem gerar empatia, reflexão e impacto tanto entre palestinos quanto junto ao público internacional.
A conversa reuniu nomes de trajetórias diversas, mas atravessadas por temas em comum, como ocupação, memória, violência, identidade e resistência. Entre os participantes estavam Muallem Ashtar, artista e diretor nascido em Jerusalém, Dalia Al Kury, que trabalha com narrativas híbridas, Kinda Kurdi, produtora e documentarista baseada no Reino Unido, e Tanya Marar, cineasta de origem jordaniana, palestina e búlgara, também radicada no Reino Unido. A mediação ficou por conta de Mohamed Jabaly, cineasta e artista palestino de Gaza.
Durante a sessão, Tanya Marar apresentou seu projeto provisoriamente intitulado Rage & Resist, produzido por Ike Rofe. Ao iniciar sua fala, destacou a importância simbólica de ver filmes e realizadores palestinos ocupando espaço em um ambiente internacional como aquele. Seu documentário acompanha integrantes do grupo Palestine Action, sediado no Reino Unido e conhecido por ações diretas contra fabricantes de armas israelenses. Segundo ela, o longa acompanha há cerca de dois anos e meio os fundadores do grupo e outros personagens envolvidos na causa, buscando retratar o impulso político e emocional que move esse tipo de militância.

Tanya Marar no set de filmagem de House of the Dragon, prelúdio de Game of Thrones.
Dalia Al Kury levou ao debate o projeto Ensaios para a Justiça, produzido por Nefise Özkal Lorentzen e Ola Hunnes. A diretora explicou que o filme parte de uma encenação em que uma pessoa confronta, simbolicamente, um suposto criminoso de guerra israelense interpretado por um ator, em um hotel na Jordânia. A proposta é investigar o destino da raiva acumulada diante da ausência de justiça e da violência contínua. Para ela, a obra tenta responder até onde essa revolta pode levar e como enfrentar o fascismo sem reproduzir a mesma lógica que se combate.
Ao comentar a experiência palestina, Al Kury afirmou que há um esforço constante para não reduzir os palestinos ao papel de vítimas, embora a condição de vitimização esteja presente de forma incontornável. Sua fala sintetizou um dos sentimentos mais fortes do painel, o de que essas narrativas buscam escapar de simplificações e construir um discurso mais complexo sobre dor, dignidade e resistência.
Kinda Kurdi apresentou O Último Prefeito de Jerusalém, seu primeiro longa documental. Produzido por Janay Boulos, o filme acompanha a trajetória de Rawhi Al Khatib, último prefeito palestino de Jerusalém, e mistura animação com imagens de arquivo e outros registros para contar uma história marcada por sobrevivência, amor e exílio. A diretora destacou que a obra revisita, entre outros momentos, a deportação do político, acusado de representar ameaça à segurança nacional. Ao ser questionada sobre os maiores desafios para os realizadores palestinos, Kurdi defendeu união e articulação para garantir que essas histórias continuem sendo contadas e cheguem a mais pessoas.
Já Muallem Ashtar falou sobre Condenados a Sonhar, seu primeiro longa documental, produzido por Jiries Copti. O filme acompanha a rotina do Teatro Ashtar, em Ramallah, administrado por seus pais e descrito como um dos raros espaços de criatividade e liberdade destinados à juventude palestina. A proposta do documentário é mostrar como a cultura pode funcionar como uma forma concreta de resistência em um contexto em que identidades são apagadas e narrativas, silenciadas. Para o diretor, resistir também passa pela arte, pela preservação da memória e pela insistência em continuar criando.
Ao longo do encontro, ficou evidente que os documentaristas palestinos não estão apenas filmando histórias, mas tentando preservar uma experiência coletiva diante de um cenário de opressão e apagamento. As falas dos convidados revelaram como o cinema tem sido usado para transformar luto, fúria e trauma em linguagem, debate e testemunho.
No encerramento, poucos dias depois da cerimônia do Oscar, Dalia Al Kury resumiu o sentimento que pairava no auditório com uma frase forte e carregada de ironia amarga. Segundo ela, os palestinos deveriam ganhar um Oscar apenas por fingirem que tudo segue normal. A declaração arrancou reação imediata da plateia e sintetizou o tom do painel, que misturou emoção, indignação e a urgência de contar histórias que ainda lutam por espaço no cenário global.
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