A franquia BlazBlue sempre foi um pilar de resistência para os puristas dos jogos de luta em 2D, celebrada não só pela sua execução técnica, mas por uma narrativa densa e fragmentada que exige paciência e revisitação.
Em BlazBlue Entropy Effect X, a desenvolvedora 91Act, em parceria com a Arc System Works, toma uma decisão arriscada ao trocar o ringue fixo por um universo de correções constantes, migrando o DNA de fighting para um roguelite de ação em 2D. O resultado não é apenas mais um spin‑off para capitalizar a marca, mas um exercício de transposição inteligente, que traduz a complexidade mecânica da série para a estrutura de progressão repetitiva e altamente viciante típica do gênero.
Um futuro à beira do colapso

Ao contrário dos arcos cinematográficos centrados em Ragna the Bloodedge, Entropy Effect se coloca em um futuro distópico em que a realidade física ruiu e a humanidade se refugia em um sistema de simulação conhecido como ACE (Advanced Consciousness Expansion). Jogamos com um robô‑ACER que entra em Mind Training para explorar dados de avatares digitais baseados nos heróis clássicos da franquia. A narrativa é propositalmente fragmentada, espalhada em logs, diálogos no hub e eventos de progressão, o que mantém o mistério de um mundo à beira do colapso, mas, em troca, sacrifica a profundidade dramática das visual novels originais em favor da agilidade das partidas.
Dentro desse cenário de colapso digital, a premissa aproxima o jogo de experiências tipo Dead Cells e Hades, pois o jogador não salva um mundo, mas reescreve, bit a bit, um legado de dados e habilidades que permitem penetrar cada vez mais fundo em um labirinto de estágios procedurais. Essa camada de ficção científica serve como escusa temática para o sistema de herança, que transforma cada fracasso em um investimento narrativo e mecânico, e não apenas em um fim repentino.
O sistema de herança como coração do design

O que realmente separa BlazBlue Entropy Effect X de outros sidescrollers de ação é o sistema de herança, que estrutura o meta desse jogo de forma magistral. Em cada run de Mind Training, escolhemos um Prototype (personagem jogável) e atravessamos quatro estágios até um estágio final chamado Omega Space, onde enfrentamos Susano’o. Ao concluir ou morrer numa jornada, o personagem vira um Evotype salvo, que pode doar até duas habilidades passivas (Tactics) e um Legacy Skill para outro Prototype escolhido em uma nova partida.
Esse mecanismo cria uma camada estratégica em que o jogador não apenas passa de estágio, mas constrói um legado de builds que facilitam o progresso em fases e chefes mais avançados. Você pode, por exemplo, jogar um personagem focado em gelo para cultivar um Tactics de congelamento que se torna essencial para um próximo lutador orientado a dano crítico, ou escalar um Noel mais focado em ataques de longo alcance e depois transferir seu talento de dano à distância para um personagem mais próximo. A cada morte, o jogo reforça a ideia de que o tempo investido nunca foi perdido: o fracasso é uma etapa de preparação para o sucessor, o que amortece muito da frustração intrínseca ao gênero roguelite.

O elenco de Prototypes não é mero conjunto de skins com atributos diferentes. Cada personagem redefine a forma como você lida com biomas, inimigos e chefes. Hakumen, por exemplo, opera como um counter, com ênfase em defesa, parries e punições de alto impacto, transformando-o em um lutador de paciência que pune erros de agressão excessiva. Mai Natsume, por outro lado, privilegia mobilidade e ataques de longo alcance, utilizando projéteis e padrões de controle de área que permitem dominar a tela e manter distância de inimigos explosivos.
Ainda integrando o time, Hibiki Kohaku se baseia em clones e ataques rápidos para saturar o campo de batalha, enquanto Es utiliza sua espada colossal para criar zonas de controle e áreas de alto risco ao redor de si. Essa diversidade transforma o simples ato de trocar de personagem em uma mudança de idioma tático, pois cada Prototype traz novas janelas de ação, limites de pulo, consumo de recursos (MP e SP) e padrões de movimentação.

Para quem conhece BlazBlue, jogar com Ragna the Bloodedge ainda passa a sensação de um lutador de curto alcance com alta capacidade de recuperação de vida, enquanto Noel Vermillion exige um ritmo de movimentação constante e uma cadência de tiros precisa, remetendo aos estilos de combate clássicos da série. Lembrando também que Entropy Effect X expande esse elenco com novos Prototypes, como Naoto Kurogane, trazendo variantes de jogo e mecânicas adicionais que ampliam o leque de combate e caminhos de build.
Da linguagem de luta para o roguelite ágil

No campo da jogabilidade, BlazBlue Entropy Effect X enfrenta um desafio hercúleo por precisar manter a sensação de um jogo de luta reduzindo a complexidade de inputs típica de um arcade stick. A solução da 91Act está nos Potenciais, que substituem comandos clássicos por um sistema de upgrades baseado em combinações de direcional e botão, mantendo o fluxo rítmico que caracteriza a marca BlazBlue. Ao longo das fases, você coleta Potenciais que modificam não apenas o poder de ataque, mas a natureza dos golpes em que um simples corte pode ganhar extensão de chamas, uma esquiva pode deixar um clone de eletricidade no seu rastro, e uma habilidade de bloqueio pode evoluir para um escudo rúnico ou um contragolpe automatizado.
A profundidade mecânica se consolida quando esses Potenciais se interligam aos oito elementos presentes no jogo, como Fogo, Gelo, Eletricidade, Luz, Umbra e Toxina, gerando sinergias que permitem builds altamente personalizadas. É possível construir um personagem focado em estados alterados (congelamento, queimadura, paralisia) e explosões em cadeia, ou um tanque de escudos rúnicos, regeneração e sobrevivência agressiva. Essa estrutura de customização orgânica impede que o jogo se transforme em uma simples esmagação de botões, exigindo leitura rápida do cenário, adaptação aos padrões de inimigos e repensagem de build a cada novo Legs e novo conjunto de Tactics.

Visualmente, BlazBlue Entropy Effect X se sustenta em um pixel art que mescla o neon cyberpunk de um mundo de simulação digital com a desolação de um mundo real em colapso, criando cenários de cais iluminados, ruína industrial e laboratórios futuristas cheios de efeitos de partículas. A direção de arte entrega um clima sci‑fi coeso, em que cada um dos laboratórios de Mind Training oferece uma identidade visual distinta, mantendo o ar de experimento digital ao longo de toda a experiência.
Porém, essa fidelidade visual tem um custo: em momentos de alta intensidade, o emaranhado de partículas, projéteis e efeitos de luz pode tornar a tela quase um borrão, dificultando a leitura dos padrões de ataque de chefes e inimigos mais complexos. A trilha sonora, por outro lado, é um dos pontos altos do jogo, com guitarras pesadas, sintetizadores e temas que dialogam diretamente com o legado sonoro de BlazBlue, mantendo o nível de adrenalina mesmo em runs intermináveis de derrotas. O som se torna, em muitos momentos, um guia rítmico para o ritmo dos combos, ajudando a compensar parcialmente a dificuldade de leitura visual.

BlazBlue Entropy Effect X funciona como um ponteiro entre dois mundos: de um lado, a seriedade técnica e a narrativa enredada dos jogos de luta de 2D; de outro, a repetição inteligente e o prazer de processo que definem o roguelite moderno. A 91Act consegue traduzir a linguagem de combos, cancelamentos, espaçamento e prioridade de golpes em um formato mais acessível, sem renunciar à profundidade, o que o torna um objeto de estudo tanto para fãs de BlazBlue quanto para quem busca um sidescroller de ação bem estruturado. A sensação é de que Entropy Effect consegue se consolidar como um dos roguelites de ação 2D mais interessantes desse ano, tanto para os puristas quanto para quem está apenas curioso sobre o que acontece quando o ringue de batalha vira um campo de dados digitais prestes a desmoronar.
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Nota final: 4/5
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