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Rússia e Ucrânia: como o império russo construiu uma narrativa para negar a identidade ucraniana

]A relação entre Rússia e Ucrânia não começou a se deteriorar apenas nos últimos anos. Segundo uma análise publicada na History Today, as raízes desse conflito são muito mais antigas e estão ligadas à própria formação do imaginário imperial russo, que há séculos trata a Ucrânia não como uma nação autônoma, mas como um território que deve ser absorvido, controlado e reinterpretado de acordo com os interesses de Moscou.

O texto resgata um episódio simbólico ocorrido em 1787, quando Catarina, a Grande, fez uma longa viagem pelos territórios recém-incorporados ao império, incluindo a Crimeia e áreas das estepes ucranianas. A jornada, cuidadosamente organizada por Grigory Potemkin, foi montada como uma grande vitrine de poder. O objetivo não era apenas mostrar as conquistas territoriais da Rússia, mas também criar uma imagem exótica e domesticada dessas regiões recém-submetidas. É desse contexto que nasce a famosa ideia das “aldeias de Potemkin”, associada à encenação de uma prosperidade artificial para impressionar a imperatriz, ainda que a história em si provavelmente seja mais lenda do que fato comprovado. Mesmo assim, ela ajuda a ilustrar uma ansiedade persistente da Rússia diante de suas bordas imperiais e dos povos que dominava.

Ilustração da Ucrânia e do Império Russo © Ben Jones/Heart Agency.

Ao longo do século XVIII, a expansão russa sobre a Crimeia e sobre territórios ucranianos foi acompanhada por deportações, repressão e destruição de formas locais de autonomia, como a tradição cossaca. Ao mesmo tempo, o império buscava justificar essa ocupação com uma narrativa civilizatória, apresentando essas áreas como espaços atrasados, exóticos ou desordeiros, que precisariam da tutela russa para alcançar estabilidade. Essa lógica não desapareceu com o tempo. Pelo contrário, foi reciclada em diferentes momentos da história até chegar ao presente.

É justamente por isso que a autora destaca como o governo de Vladimir Putin retomou símbolos e conceitos diretamente ligados à era imperial. Em 2014, com a anexação da Crimeia e a intervenção no Donbas, o Kremlin reviveu a expressão “Novorossia”, ou Nova Rússia, criada no período de Catarina para nomear as terras ucranianas recém-incorporadas. Já em 2021, Putin publicou um ensaio em que negava, na prática, a existência de uma identidade ucraniana separada, defendendo a ideia de que a soberania da Ucrânia só seria possível em parceria com a Rússia. Na visão imperial, a Ucrânia não aparece como sujeito da própria história, mas como uma extensão natural do projeto russo.

Diante disso, a resistência ucraniana também se construiu no campo da memória, da literatura e da cultura. Um dos nomes centrais desse processo foi Taras Shevchenko, considerado o grande poeta nacional da Ucrânia. Nascido servo no início do século XIX, ele transformou a escrita em instrumento de denúncia contra a dominação russa e de recuperação do passado cossaco e da experiência histórica ucraniana. Em seus poemas, Shevchenko criticava tanto o império quanto as elites locais que abandonavam sua própria terra para buscar prestígio em São Petersburgo. Sua obra ajudou a preservar uma consciência nacional em meio à censura czarista e mais tarde virou símbolo político em diferentes momentos, inclusive nos protestos do Maidan, em 2013 e 2014.

Outro nome importante nesse debate é Nikolai Gogol, ou Mykola Hohol, figura frequentemente disputada por russos e ucranianos. Embora tenha escrito em russo e construído carreira em São Petersburgo, sua obra foi profundamente marcada pelo universo cultural ucraniano. Em vários de seus textos, o humor e a sátira revelam a ignorância do centro imperial em relação à Ucrânia. Mesmo sem assumir um discurso abertamente anti-imperial, Gogol expôs de forma ambígua e afiada a distância entre a autopercepção grandiosa do império e a realidade dos povos subordinados.

Essa tensão ficou ainda mais clara em releituras posteriores, como no filme soviético A Carta Perdida, lançado em 1972, que transformou o império em uma espécie de grande encenação frágil. Na obra, Catarina e Potemkin aparecem quase como figuras irreais, pinturas num cenário prestes a desmoronar. A mensagem era poderosa demais para a censura soviética, que rapidamente tratou de proibir o filme. Mesmo em um regime que se dizia anti-imperialista, a Ucrânia continuava sendo vista sob lentes muito parecidas com as do velho império russo.

No fundo, o que esse panorama histórico mostra é que a guerra entre Rússia e Ucrânia não pode ser entendida apenas como uma disputa geopolítica recente. Ela também é resultado de uma longa tradição de negação identitária, em que a Ucrânia foi frequentemente retratada pela Rússia como uma periferia rebelde, um território a ser corrigido ou um povo incapaz de existir por conta própria. A permanência dessa visão ajuda a explicar por que o conflito atual é tão profundo e por que a defesa da identidade nacional continua sendo um elemento central da resistência ucraniana.

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Fagner Lopes

CEO Presidente e fundador da Obewise Entertainment Network, escritor, biomédico e amante de jogos eletronicos, mais precisamente DOTA 2. Redator do site e artista na Obewise Radio Network.

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