O interior do Brasil, com toda a sua rica diversidade cultural, gerou um folclore próprio. Fruto do sincretismo entre os três grandes grupos populacionais: nativos americanos, europeus e africanos. Grupos menores tendem a não ser lembrados pela maioria da população. Cesar Bravo criou um cenário rico ao unir a cultura dos povos ciganos à mitologia cristã, isso tudo em um Brasil ainda em formação, para contar o terror por trás de seu personagem principal.

A DarkBox Collection Ultra Carnem (DarkSide Books, 2025) reúne Ultra Carnem (DarkSide Books, 2016) e Ultra Carnem II (DarkSide Books, 2025) para contar toda a história de Wladimir Lester, o artista cigano que fez um pacto com o Diabo. Cesar Bravo criou um imaginário próprio, com personagens que se misturam à história de formação do interior do Brasil. Uma história moldada pelo mal, que pode ser tanto uma herança quanto uma escolha.

Ultra Carnem
Em Ultra Carnem, a trama acompanha Wladimir Lester, um menino cigano marcado pelo destino, filho de um casal amaldiçoado, com o dom de criar arte com uma tinta viva, pulsante, feita de sofrimento e oferendas. Suas obras encantam de forma praticamente hipnótica e acabam por corromper a vida de todos que entram em contato com elas.

Ultra Carnem é ambientado em cidades do interior brasileiro, e mostra outros personagens tendo suas vidas moldadas pelo contato com as obras de Wladimir Lester. A primeira parte foca no próprio Wladimir Lester. A segunda parte mostra Nôa D’Nor, um pintor obcecado pela obra de Wladimir. A terceira parte é com Marcos Cantão, um técnico de informática frustrado com sua vida. E a quarta parte é com Lucrécia Trindade, uma garçonete que acaba tendo sua vida mudada drasticamente.
O livro também aproveita certos personagens para fazer um debate sobre religião, credulidade e a influência da ciência e da internet nesses aspectos no comportamento contemporâneo.
Ultra Carnem II
Em Ultra Carnem II, a história de Wladimir Lester é detalhada. Desde o seu primeiro contato com o sobrenatural, seus pais consumidos em rituais profanos, até os eventos que ocorrem no primeiro livro. O cenário começa mostrando o Brasil do século XIX, retratando fé, violência, rituais e perseguições. É realçada a relação de Wladimir com sua família e sua relação anormal com a passagem do tempo, amaldiçoado a não envelhecer.
E, para além de uma troca de favores, a relação com o inferno também acaba se mostrando como uma herança. Nutrido por uma tinta sobrenatural, um destilado da dor de seus pais, que transforma sua arte em instrumento do demônio, Wladimir carrega dentro de si um poder que fascina e ameaça sua própria comunidade. Ao lado da irmã Iolanda e da amiga Sarah, marcada pelo mesmo pacto de sangue, ele atravessa o país em deslocamentos forçados, entre perseguições, e um preconceito fortemente arraigado na população circundante.
Esse preconceito dos não-ciganos é mostrado de forma nua e crua, em paralelo com a riqueza com que são mostradas as tradições ciganas em seu dia a dia. Bravo faz uso de uma nomenclatura que traz detalhamento para esses indivíduos. Como, por exemplo, as divindades Duvel e Beng, representando a dualidade fundamental entre o bem e o mal.

O background histórico na obra mostra a relação ambígua entre os povos ciganos e os negros escravizados no século XIX. Bem como a relação com os demais grupos populacionais, que era quase sempre de preconceito, desprezo e repulsa. A questão da posse de terras também é abordada. Os ciganos, sempre nômades, mas não que não poderiam comprar terras mesmo querendo, pois ninguém vendia. Por “ninguém vendia” leia-se descendentes de europeus que tomaram as terras dos nativos americanos à força.
É evidentemente interessante a forma como o inferno é retratado em Ultra Carnem. Dada a forma como o inferno é descrito originalmente na Bíblia, e todas as diferentes interpretações nas derivações religiosas, incluindo a representação literária na Divina Comédia, de Dante Alighieri, Ultra Carnem habilmente acaba por tornar todas as intepretações igualmente válidas ao dizer que o inferno se reconfigura, ele muda cada vez que alguém pisa nele.
Autor

Cesar Bravo (1977) nasceu em Monte Alto, São Paulo. É farmacêutico de formação, e antes de iniciar na escrita já teve diversos empregos, ocupando cargos na indústria da música, na construção civil e no varejo. Bravo publicou suas primeiras obras de forma independente, e em pouco tempo ganhou reconhecimento dos leitores e da imprensa especializada. É autor e coautor de contos, romances, enredos, roteiros e blogs.
Sua escrita, recheada de suspense, explora o bem e o mal em suas formas mais intensas. Suas principais influências são Stephen King, Clive Barker, H. P. Lovecraft e Edgar Allan Poe.
Prêmio: Prêmio FNAC Novos Talentos da Literatura (2013); Finalista do Prêmio Jabuti na categoria Romance de Entretenimento (2021).
Outros livros
– Calafrios da Noite (2013).
– Caverna de Ossos (2013).
– Além da Carne – Contos Insanos (2014).
– Navio Negreiro (2014).
– Ouça o Que Eu Digo (2015).
– VHS: Verdadeiras Histórias de Sangue (2019).
– DVD: Devoção Verdadeira a D. (2020).
– 1618 (2022).
– Amplificador (2023).
– Três Rios (2024).
Reflexões finais
Em Ultra Carnem o leitor é apresentado a Wladimir Lester, um personagem que através de sua arte “demoníaca” vai moldar a vida de inúmeras pessoas. Vários personagens secundários são mostrados detalhadamente, e sua sedução pelo lado do mal fica muito evidente. Mas Wladimir foge ao convencional, sua psiquê é complexa e não-linear. Apesar de seu claro objetivo de se tornar um artista mundialmente conhecido, a percepção da desgraça que sua vida se transforma é de um estoicismo sólido.
A escrita de Cesar Bravo é instigante, traz um ótimo equilíbrio entre descrição de personagens, ambientação e cenas. Os personagens principais mostram profundidade e uma naturalidade que mantém o leitor preso na leitura. A fluidez e o bom ritmo da escrita se somam a isso, inclusive na alternância de momentos de maior tranquilidade com momentos de violência e terror extremos. Os personagens acabam sendo totalmente despidos, mostrados em toda a sua fragilidade humana perante a vida.
Para além da trama em si, fica evidente que o autor usa alguns momentos para fazer alguns debates que dialogam com a realidade contemporânea. Como o debate sobre a territorialidade. E a influência da ciência e da internet na diminuição da credulidade das pessoas. Nesse aspecto, é fascinante ver, por exemplo, a personagem Lucrécia Trindade acaba funcionando como uma voz anti-religião, apesar de estar diretamente ligada ao sobrenatural.
Por fim, em uma análise mais profunda, há dois elementos subjacentes à obra: tempo e memória. Esses dois elementos, tal qual duas forças cósmicas entrelaçadas rumo à entropia, são, ao fim, inexoráveis. Um certo ponto de vista se sobressai próximo ao fim: “O tempo enche tudo de ausência e esquecimento.”. Penso que o leitor pode aproveitar para ver a questão também de um outro ponto: o tempo serve como um filtro para memórias importantes, estas perduram por mais tempo. É como imagino que será a memória de ter lido Ultra Carnem: perdurando e ressurgindo ao pensarmos em boa literatura.
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