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Morre Scott Adams, criador de Dilbert, a tirinha que satirizou a vida corporativa por mais de 30 anos

Scott Adams, criador da icônica tira Dilbert, morreu aos 68 anos. O cartunista ficou mundialmente conhecido por transformar a rotina sufocante dos escritórios em humor ácido e reconhecível para milhões de leitores ao redor do planeta. A morte foi confirmada nesta terça-feira por sua primeira ex-esposa, Shelly Miles, durante o programa Real Coffee With Scott Adams. Em maio, o próprio Adams havia revelado que enfrentava um câncer de próstata em estágio avançado, com metástase nos ossos, e chegou a dizer que não esperava viver além do verão no hemisfério norte.

Publicada pela primeira vez em 1989, Dilbert nasceu diretamente da experiência de Adams como engenheiro de aplicações na Pacific Bell, em San Ramon, na Califórnia. Preso a reuniões intermináveis e à burocracia corporativa, ele passava o tempo rabiscando ideias em um bloco de notas, tentando dar algum sentido ao tédio do expediente. Daí surgiu o personagem-título: um engenheiro competente, tímido, brilhante com computadores e completamente deslocado socialmente.

O sucesso foi rápido e avassalador. No auge da popularidade, Dilbert era publicada em mais de dois mil jornais, em 65 países, traduzida para 25 idiomas e com uma audiência estimada em mais de 150 milhões de leitores. A tira acertou em cheio ao exagerar, mas nunca distorcer demais, as engrenagens absurdas do mundo corporativo, conquistando especialmente o público de colarinho branco.

Em entrevista ao The New York Times em 1995, Adams explicou por que a tira causava tanta identificação. Segundo ele, muitos leitores acreditavam viver situações tão absurdas que pareciam únicas e impossíveis de explicar. Dilbert acabou se tornando a voz de milhões de pessoas que se sentiam presas em “caixas de papelão dentro de prédios”, sem ninguém que expressasse esse desconforto coletivo.

O universo da tira era povoado por personagens igualmente memoráveis. Alice, uma profissional altamente qualificada, vivia em conflito com o machismo estrutural do ambiente corporativo. Wally, o engenheiro veterano, dedicava sua carreira a evitar qualquer tipo de trabalho real. Asok, o estagiário indiano, começava sempre otimista, apenas para ter o entusiasmo esmagado pela lógica da empresa. Acima de todos estava o Chefe de Cabelo Pontudo, um gestor completamente alheio à realidade, cuja autoridade só servia para piorar qualquer situação. Fora do escritório, Dogbert e Catbert completavam o retrato cínico e cruel das relações de poder, especialmente no setor de recursos humanos.

Grande parte do humor vinha de situações absurdamente familiares: reuniões para planejar reuniões, termos corporativos vazios, decisões sem sentido e chefes incapazes de entender o básico da tecnologia que comandavam. Era um espelho desconfortável, mas extremamente engraçado, do cotidiano profissional de muita gente.

O êxito de Dilbert também se refletiu fora dos jornais. Adams publicou dezenas de coletâneas, começando por Always Postpone Meetings With Time-Wasting Morons, em 1992, e seguiu com títulos que ironizavam a gestão moderna e a ignorância institucionalizada. A marca se espalhou por camisetas, canecas, calendários, bonecos e até um videogame. Entre 1999 e 2000, a tira ganhou uma série animada exibida pela UPN, desenvolvida em parceria com Larry Charles, roteirista de Seinfeld, e com um elenco de vozes estrelado.

Apesar do legado duradouro, a trajetória de Adams também foi marcada por controvérsias nos últimos anos. Comentários considerados racistas levaram ao cancelamento de Dilbert por diversos jornais em 2023, encerrando uma das mais longas e influentes carreiras dos quadrinhos de jornal.

Ainda assim, é difícil negar o impacto cultural de Dilbert. Por mais de três décadas, Scott Adams conseguiu transformar o desespero silencioso do escritório em riso coletivo, deixando um retrato mordaz de uma era dominada por cubículos, organogramas confusos e reuniões que poderiam ter sido um e-mail.

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Fagner Lopes

CEO Presidente e fundador da Obewise Entertainment Network, escritor, biomédico e amante de jogos eletronicos, mais precisamente DOTA 2. Redator do site e artista na Obewise Radio Network.

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