Geek

Marty Supreme | Crítica: um maravilhoso caos com Timothée Chalamet

Depois do painel na CCXP25, finalmente os cinemas brasileiros receberão Marty Supreme, um filme que promete acabar com a paciência dos espectadores tanto quanto seu protagonista detona tudo à sua volta em busca de glória. Dirigido por Josh Safdie, o longa-metragem é uma explosão de ambição, comédia absurda e uma transformação visual tão radical de Timothée Chalamet que muitos se perguntarão se aquele rosto desafiador e marcado pela vida é realmente o galã de Hollywood que conhecemos.

O filme, que custou 70 milhões de dólares à produtora A24, o maior orçamento da história do estúdio, superando até Guerra Civil, chega carregado de indicações e prêmios. Timothée Chalamet já conquistou o Critics’ Choice Awards de Melhor Ator, e agora busca uma terceira indicação ao Oscar, em sua primeira chance real de levar para casa a tão cobiçada estatueta dourada.

Marty Supreme não é propriamente uma biografia, apesar de explorar a vida do mesatenista americano Marty Reisman, um dos maiores jogadores de tênis de mesa da história. Safdie e o roteirista Ronald Bronstein optaram por uma abordagem ficcional, transformando Reisman em Marty Mauser, personagem amplificado e dramatizado para os propósitos cinematográficos, numa história que se passa na década de 1950, especificamente em Nova York, e traz um anti-herói que fará praticamente qualquer coisa como, por exemplo, roubar, enganar, seduzir, para alcançar o topo do mundo do tênis de mesa, um esporte que a maioria das pessoas considera ridículo.

Marty Supreme

O ator Timothée Chalamet mergulhou profundamente no papel, e isso é evidente desde o primeiro minuto, para trazer vida a Marty Mauser. Chalamet se submeteu a uma transformação impressionante, com prostéticos de acne escarificado, uma monocelha arrojada, lentes de contato que prejudicam a visão, roupas desgastadas e um bigode fino e irregular, características bem distantes de sua aparência habitual. A equipe de figurino e maquiagem se esforçou para criar um personagem que grita sobre uma vida dura nas ruas da Lower East Side, numa tentativa de deixá-lo irreconhecível, principalmente por criar uma dualidade interessante em seu papel. Marty é um rapaz pequenino, de aparência frágil, mas sua confiança e sua língua afiada o transformam em alguém praticamente hipnotizante.

A narrativa é cronológica e não deixa muito espaço para ambiguidade, indo na contramão dos filmes anteriores de Josh Safdie. Marty Mauser trabalha como vendedor de sapatos na loja de seu tio Murray no Lower East Side, mas seus verdadeiros objetivos residem no tênis de mesa. Ele sonha em ganhar o Campeonato Britânico, derrotar o campeão defensor Béla Kletzki e conquistar a atenção mundial para um esporte negligenciado. Desesperado para financiar uma viagem para o torneio em Londres, Marty toma uma decisão questionável ao roubar o cofre da loja do tio, ameaçando um colega de trabalho com um revólver. A partir daí, tudo desanda em uma sequência frenética de eventos que o levam para o Ritz Hotel em Londres, onde ele seduz Kay Stone, uma ex-atriz interpretada por Gwyneth Paltrow, e conhece o rico magnata Milton Rockwell, papel que marca a estreia cinematográfica de Kevin O’Leary, conhecida figura de Shark Tank.

Marty Supreme

O filme é essencialmente sobre obsessão e a perseguição do sonho americano em sua forma mais tóxica. Marty não apenas quer vencer, ele também quer que o mundo reconheça sua superioridade, e seu individualismo escancara o narcisismo absoluto. Cada decisão que toma causa danos colaterais em todos à sua volta, e o filme, com grande inteligência, não oferece redenção fácil. Este é um ponto fundamental que Safdie mantém ao longo de mais de duas horas, fazendo com que a ambiguidade moral permeie cada cena, e Chalamet entrega uma performance que brinca conscientemente com essa complexidade.

No elenco coadjuvante impecável, Gwyneth Paltrow traz uma elegância contida a Kay Stone, uma mulher presa em um casamento sem paixão com um homem rico. Kevin O’Leary surpreende positivamente como Milton Rockwell, o magnata das canetas que vira uma porta para a ambição desenfreada de Marty. Odessa A’zion complementa o elenco, assim como Tyler, the Creator, que interpreta Wally e traz momentos hilários.

Marty Supreme

Darius Khondji, diretor de fotografia, trouxe um aspecto retrô que mergulha o espectador na década de 1950, contando com uma produção de design detalhista, desde os ternos precisamente cortados que Marty usa até a reconstrução meticulosa da Nova York de antigamente. No entanto, o que realmente elevou a qualidade dessa obra cinematográfica foi a trilha sonora, criada por Daniel Lopatin. Sua composição trouxe sintetizadores dos anos 80, criando uma dissonância propositalmente deliciosa com a ambientação de 1950, criando uma dualidade visual e sonora que define a energia desse filme como algo caótico, elétrico e impossível conseguir parar de olhar.

Marty Supreme entrega um ritmo frenético, com cenas que se chocam uma nas outras com uma energia que deixa o espectador ofegante e ansioso. Não há momento para respirar, apenas a iminência constante de que tudo pode desabar a qualquer momento. A estrutura narrativa, embora mantendo uma progressão clara, consegue brincar com viradas inesperadas e que desestabilizam qualquer expectativa. Inclusive para o seu final.

Marty Supreme

O humor do filme merece menção especial, pois Safdie não temeu em abraçar a comédia absurda com piadas sobre judaísmo e Segunda Guerra Mundial, em situações que farão o espectador rir enquanto questiona moralmente se deveria estar rindo. Afinal, Marty Supreme não é um filme para todos. Sua tonalidade afiada, sua ambiguidade moral, seus momentos com choque de valores e seu ritmo aceleradíssimo podem frustrar espectadores que buscam entretenimento mais confortável.

Marty Supreme estreia nos cinemas brasileiros amanhã, 22 de janeiro. Se você for aventureiro, se gostar de filmes que causam incômodo e reflexão simultânea, e se admirar o cinema que ousa ser diferente, está na hora de enfrentar o caos que é conhecer a jornada de Marty Mauser.

Veja mais sobre cinema!

Fagner Lopes

CEO Presidente e fundador da Obewise Entertainment Network, escritor, biomédico e amante de jogos eletronicos, mais precisamente DOTA 2. Redator do site e artista na Obewise Radio Network.

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Adblock detectado

Por favor, considere apoiar-nos, desativando o seu bloqueador de anúncios