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A fúria dos berserkers: o transe de guerra viking que pode ter sido ritual, química e sobrevivência

Nos relatos medievais da Escandinávia, existia um tipo de guerreiro que parecia operar fora das regras comuns do corpo humano. Eles avançavam em meio ao caos, gritavam como animais, mordiam escudos e continuavam lutando mesmo feridos. Em algumas histórias, pareciam imunes ao medo e à dor. Esse arquétipo ficou conhecido como os berserkers.

Para quem registrou essas narrativas séculos depois, a explicação passava por religião e transe. Um dos textos mais citados é a Ynglinga saga, atribuída a Snorri Sturluson. Ali, os guerreiros associados a Odin são descritos como homens que entravam em um acesso de fúria, agiam como cães ou lobos e atacavam com força descomunal. Esse estado recebeu um nome específico na tradição, berserkergang, algo como “o acesso berserker”.

O detalhe que sempre incomodou historiadores é que essa fúria não termina quando a batalha acaba. Várias sagas falam de uma ressaca pesada. Depois do pico de agressividade, o corpo “desliga”. O guerreiro fica fraco, prostrado, como se tivesse gasto tudo que tinha. Esse padrão, auge curto e colapso depois, é parte do que fez estudiosos passarem a olhar o fenômeno com mais cuidado, além do folclore.

A partir daí surgiram hipóteses que tentam aproximar mito e biologia. Uma delas envolve substâncias. Durante muito tempo, o cogumelo Amanita muscaria foi apontado como possível gatilho do transe, ideia popularizada desde o século XVIII. Só que pesquisas modernas observam que os efeitos típicos do cogumelo nem sempre combinam com desempenho de combate, e a teoria perdeu força em parte da literatura científica.

Nos últimos anos, uma alternativa ganhou espaço por “encaixar melhor” nos sintomas descritos nas fontes. O etnobotânico Karsten Fatur argumenta que a henbane, a planta Hyoscyamus niger, seria um candidato mais plausível, por causar delírio, agitação, agressividade e confusão, além de alterar a percepção de dor. Ele também ressalta que não existe prova definitiva, mas que o conjunto de efeitos e pistas arqueológicas faz dessa hipótese uma das mais viáveis hoje.

E existem pistas. Achados associados ao período viking, como sementes de henbane encontradas perto de Fyrkat, na Dinamarca, são frequentemente citados como evidência de que a planta era conhecida e podia ser usada de forma ritual ou prática. Isso não prova “chá de berserker”, mas mostra que o recurso existia no mundo real, e não só na imaginação de escritores.

Só que reduzir berserkergang a uma substância é simplificar demais. Há uma linha forte de interpretação que aponta para condicionamento. Privação de sono, cantos repetitivos, rituais de grupo, pressão social, culto e expectativa de performance. Em outras palavras, uma tecnologia psicológica. O corpo aprende a entrar em modo de guerra quando recebe os gatilhos certos, principalmente em uma cultura em que reputação, medo e intimidação valiam tanto quanto lâmina.

Com o tempo, aquilo que era útil também virou problema. Na medida em que reinos se consolidaram e a cristianização avançou, guerreiros imprevisíveis começaram a parecer menos “elite” e mais risco doméstico. Textos e estudos sobre leis medievais citam medidas para conter esse tipo de comportamento, incluindo proibições e punições associadas a berserkergang na virada do século XI.

No fim, a imagem do berserker sobreviveu porque toca em um ponto desconfortável. A ideia de que a mente humana pode ser empurrada para um estado em que dor, medo e identidade ficam em segundo plano. Seja por fé, por treino, por química ou por tudo junto. Não é só uma história de vikings. É um lembrete de que, em certas condições, o cérebro não quer vencer com estratégia. Ele só quer sobreviver.

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Fagner Lopes

CEO Presidente e fundador da Obewise Entertainment Network, escritor, biomédico e amante de jogos eletronicos, mais precisamente DOTA 2. Redator do site e artista na Obewise Radio Network.

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