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Legado de Trump pode marcar a primeira queda populacional da história dos EUA

Durante o segundo mandato de Donald Trump, falar em crescimento populacional virou quase uma obsessão. Entre declarações grandiosas, ideias improvisadas para estimular a natalidade e uma postura cada vez mais dura em relação à imigração, o discurso oficial sempre apontou para um país maior e mais forte. A ironia é que os dados mais recentes mostram exatamente o contrário: os Estados Unidos estão perigosamente perto de ver sua população encolher pela primeira vez na história.

Cena de confronto entre manifestantes e agentes do ICE em Chicago — Foto: REUTERS/Jim Vondruska

Os números surpreenderam até especialistas acostumados a analisar tendências demográficas. Jeffrey Passel, um dos principais demógrafos do Pew Research Center, resumiu bem o clima ao comentar os dados ao Bloomberg: ele afirmou que jamais esperou ver algo assim e que não há precedentes claros na história recente do país.

As estimativas divulgadas pelo US Census Bureau para 2025 indicam um crescimento populacional de apenas 0,5% em relação ao ano anterior, o equivalente a cerca de 1,8 milhão de pessoas. Embora pareça um número alto à primeira vista, trata-se do menor aumento desde o período crítico da pandemia, em 2020 e 2021. O contraste é ainda maior quando comparado ao intervalo entre 2023 e 2024, quando a população cresceu 3,2 milhões de pessoas, o ritmo mais acelerado desde 2006.

O principal fator por trás dessa desaceleração é a queda abrupta da imigração líquida. Em apenas um ano, esse número despencou de 2,7 milhões para 1,3 milhão, uma redução descrita pelo próprio Census Bureau como histórica. Ao mesmo tempo, o chamado crescimento natural, que é a diferença entre nascimentos e mortes, mal se mantém positivo. Com cerca de 519 mil pessoas, ele é menos da metade do que era há dez anos e apenas um quarto do registrado no início dos anos 2000.

Segundo projeções do Congressional Budget Office, esse crescimento natural deve se tornar negativo por volta de 2030. A partir daí, os Estados Unidos dependeriam exclusivamente da imigração para continuar crescendo, o que torna a queda recente ainda mais preocupante.

Até pouco tempo atrás, o cenário era bem mais otimista. Em 2023, o próprio Census Bureau projetava que a população continuaria aumentando, ainda que em ritmo lento, até pelo menos 2081. Hoje, as contas já não fecham da mesma forma. O CBO estima que a população começará a cair em 2056, mas um estudo divulgado em janeiro pela Brookings Institution sugere que isso pode acontecer bem antes.

De acordo com a análise da Brookings, os EUA podem ter registrado em 2025 a primeira migração líquida negativa em décadas, com um saldo que varia entre menos 295 mil e menos 10 mil pessoas. Como o país ainda teve mais nascimentos do que mortes, isso resultou em um crescimento quase nulo. O problema aparece na projeção para 2026, quando a imigração líquida pode variar de um saldo positivo modesto até uma perda de quase um milhão de pessoas. Sem um improvável boom de nascimentos, esse cenário abriria caminho para a primeira queda populacional desde 1918, ano marcado pela pandemia de gripe espanhola e pela mobilização de milhões de soldados na Primeira Guerra Mundial.

As divergências entre as projeções da Brookings e do CBO estão nas premissas usadas. O órgão governamental trabalha com menos deportações e supõe que a emigração voluntária diminui com o aumento da fiscalização. Já os pesquisadores da Brookings acreditam no efeito oposto. Uma análise recente do New York Times reforça essa visão ao mostrar que, apesar do discurso duro e das ações ostensivas do ICE, cerca de 230 mil pessoas foram deportadas em 2025, um número alto, mas bem abaixo de algumas previsões mais alarmistas. Isso sugere que o fator decisivo pode não ser apenas a expulsão de imigrantes, mas o fato de menos pessoas quererem viver nos Estados Unidos atualmente.

Diante de um planeta já sobrecarregado, a ideia de uma população menor pode até soar positiva para alguns. O problema é que, na prática, os impactos econômicos tendem a ser pesados. Segundo Tara Watson, diretora do Brookings Center for Economic Security & Opportunity, o crescimento populacional ajuda a expandir o PIB e a força de trabalho, além de dar mais dinamismo à economia como um todo.

O estudo da Brookings estima que a redução na imigração pode cortar mais de 0,3% do PIB americano, o que representa dezenas de bilhões de dólares por ano. Menos imigrantes significa menos consumidores, menos trabalhadores e menos atividade econômica. O efeito dominó é claro: empresas são pegas de surpresa, ajustam seus custos, demitem funcionários e acabam contribuindo para uma desaceleração ainda maior.

A isso se soma o desafio de uma população mais envelhecida, com menos pessoas em idade ativa para ocupar vagas de trabalho e mais idosos demandando cuidados e serviços. O resultado é um cenário pouco animador.

Ainda assim, especialistas ressaltam que tudo depende de o que vem pela frente. Se essa queda for apenas um soluço temporário e uma futura mudança política tornar o país mais atraente para imigrantes, os efeitos de longo prazo podem ser limitados. Por outro lado, se os EUA entrarem em um período prolongado de baixa imigração, os impactos econômicos podem ser profundos e duradouros.

No fim das contas, não existe nada de mágico em uma população estável ou em crescimento zero. Mas, como destaca Watson, esse tipo de estagnação dificilmente ajuda a economia a alcançar todo o seu potencial.

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Fagner Lopes

CEO Presidente e fundador da Obewise Entertainment Network, escritor, biomédico e amante de jogos eletronicos, mais precisamente DOTA 2. Redator do site e artista na Obewise Radio Network.

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