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Nada Floresceu em 99: a primavera chega ao fim para um grupo de amigos

Muitas crianças, protegidas das agruras da vida, vão ter um amadurecimento saudável, acompanhando seu envelhecimento. Mas algumas vezes, a vida impõe situações que vão se tornar pontos de ruptura no desenvolvimento. Assim foi com a vida de Rafael, que relembra o que aconteceu na primavera de 1999 em Nada Floresceu em 99 (Dom Mordaz, 2026).

Rafael, o protagonista, lembra do momento de sua infância em que seu colega, Gustavo, desapareceu. Junto com Tales e Marina, ele parte em busca do “suspeito de ter raptado” Gustavo: o folclórico Velho do Saco. Nada Floresceu em 99 é uma HQ de formação, que retrata o momento em que um grupo de amigos é obrigado a amadurecer rapidamente frente a crua realidade. Uma HQ que aborda memória, culpa, amadurecimento e as marcas desse percurso. Abandono, preconceito e a violência silenciosa do mundo adulto marcam o trajeto dos três amigos, fazendo do que parecia uma aventura, uma travessia sem retorno.

Nostalgia

A trama se passa em Campo Bom, cidade do interior do Rio Grande do Sul. Alterando habilmente entre presente e passado, muitos leitores adultos provavelmente vão poder se identificar com a nostalgia trazida pelo protagonista Rafael ao rememorar os fatos ocorridos na sua infância, durante a primavera de 1999. A nostalgia ao lembrar de uma vivência mais “orgânica” entre amigos, com a possibilidade que cidades do interior naquela época ainda ofereciam de permitir que crianças saíssem para brincar sem que os pais precisassem estar constantemente vigiando, preocupados com a segurança. Isso fica claro na obra ao sentirmos a força e a naturalidade da amizade entre Rafael, Tales e Marina.

Infância, imaginação e folclore

A infância é uma fase da vida onde a imaginação ainda compete de igual com os fatos da realidade na mente da maioria das crianças. E é nesse embate mental que o folclore pode encontrar terreno fértil.

O velho do saco é uma figura folclórica comum tanto no Brasil quando em outras regiões do mundo. Era utilizada pelos adultos para amedrontar crianças desobedientes. Digo que era, pois é improvável que as crianças atuais, nativos digitais, acreditem em lendas como o velho do saco, bicho papão, mula sem cabeça, etc… Dados que são expostas a uma enormidade de informação desde muito cedo. Além disso, é perceptível que a atual geração de pais não faz mais uso de artifícios folclóricos para a educação de seus filhos, tanto porque não funcionariam de qualquer forma, como também por um maior respeito pela inteligência das crianças como indivíduos em formação na sociedade.

Referências

A referência mais marcante encontrada em Nada Floresceu em 1999 é o paralelo com o filme Conta Comigo (Stand by me, 1986). Esse é contado pelo personagem principal, que se torna escritor, baseado em conto do Stephen King, entrando aí em mais um paralelo com o roteirista Djeison Hoerlle.

As bicicletas usadas pelos personagens também são usadas para uma referência que ficou conhecida popularmente como “Akira Slide”, uma cena presente no anime Akira (Katushiro Otomo, 1988) e replicada dezenas de vezes desde então.

Há também referências a Chapolin e Turma da Mônica. Além de referências a Dom Mordaz e à cidade de Campo Bom.

Análise dos elementos que constituem a obra

Roteiro: O roteiro é dinâmico, com um ritmo ágil, alternando entre tempos distintos com fluidez. Há um equilíbrio perfeito entre drama, comédia e aventura. Os três personagens principais são muito bem desenvolvidos e esbanjam carisma.

Arte: A bela arte, com traços limpos e precisos, transmite vivacidade, juventude e aventura. É possível sentir intensidade nos diferentes tipos cenas e gêneros presentes na HQ.

Autores

Djeison Hoerlle, concepção e roteiro. É designer, escritor e fundador do selo independente Dom Mordaz. Em suas obras explora metalinguagem, fantasia e humor ácido.

Eduardo Ribas, arte e projeto gráfico. É ilustrador, designer e escritor de quadrinhos. Foi finalista do prêmio HQ Mix com as obras D.I.V.A.S. Brasileiras e Uma Nuvem no Seu Oliveira.

Outras obras dos autores

Djeison Hoerlle: Jardim das Ideias (2021), Perda (2021), O Epitáfio de Bartolomeu (2023), Café Delgado e outros etarismos (2024), Dissabores (2024), O Vigilante do Centro Histórico (2024), O Colecionador (2025), Peregrinos de Palha & Pena (2025).

Eduardo Ribas: O Jogo mais difícil do mundo (2017), Três Reis (2018-2019), Desconexo (2018), Outro lugar (2018), Até depois, Amor (2019), Bem na fita (2019), Segunda-feira eu paro (2019), Pagar pra quê, se tem de graça na internet? (2020), D.I.V.A.S Brasileiras (2020), Uma nuvem no seu Oliveira (2022), E o mar me trouxe até aqui (2022), Um ponto no infinito (2023), Storia (2022 -), O Homem Eterno (2025), Memo Reboot (2025).

Dom Mordaz

O Dom Mordaz é um selo de quadrinhos independente criado em 2024 por Djeison Hoerlle e Braian Malfatti. Nada Floresceu em 99 é o sétimo lançamento. A HQ está em campanha no Catarse até o dia 10 de fevereiro: www.catarse.me/nf99.

Reflexões finais

A perda da inocência deveria ocorrer idealmente de forma gradual, mas eventualmente isso ocorre de forma abrupta, devido a um evento traumático. E é essa ruptura abrupta que deixa cicatrizes emocionais que podem moldar a existência. Rafael, o protagonista, rememora e revisita esse momento traumático em sua vida para tentar entender a si próprio. As cicatrizes emocionais surgidas naquele momento aparecem na vida adulta de Rafael através da dificuldade de relacionamento com sua namorada.

É muito provável que o leitor adulto seja levado junto com Rafael em uma viagem de volta ao passado. Eu, Rafael, de forma similar ao outro Rafael, tive minha infância entre os anos 80 e 90 também no interior do Rio Grande do Sul. As relações com os colegas e amigos se davam de forma “orgânica” tal qual aparece na HQ. De certa forma um imperativo de uma era pré-internet. A percepção de tempo contrastantemente distinta do adulto atual, os dias pareciam durar muito mais do que 24 horas. E o simples ato de andar pela cidade poderia levar à uma aventura, o que para uma criança é uma mistura do imaginário, percepção de tempo dilatada, e disposição de descoberta.

Nada Floresceu em 99 é uma obra bela, nostálgica e necessária em tempos tão acelerados. Ao leitor desta matéria: desacelere por um momento e acompanhe Rafael em sua aventura. 

Crianças, crescendo no seu devido tempo, podem florescer em indivíduos adultos plenos. Mas eventos traumáticos podem interromper ou acelerar esse crescimento. E assim a HQ nos mostra que Nada Floresceu em 99, pois a primavera havia chegado ao fim para aqueles amigos.

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Fagner Lopes

CEO Presidente e fundador da Obewise Entertainment Network, escritor, biomédico e amante de jogos eletronicos, mais precisamente DOTA 2. Redator do site e artista na Obewise Radio Network.

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