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Encefalite Letárgica: a doença misteriosa que matou 500 Mil pessoas e depois simplesmente sumiu

Há cerca de um século, enquanto o mundo ainda tentava sobreviver à devastadora pandemia de gripe espanhola que matou dezenas de milhões de pessoas, uma outra ameaça silenciosa começava a se espalhar pela Europa. Era uma enfermidade estranha, perturbadora e até hoje não totalmente compreendida. Seu nome era encefalite letárgica, mas ela ficaria conhecida como a “doença do sono”.

Os primeiros registros surgiram no inverno de 1916. O médico Constantin von Economo, da Clínica Psiquiátrico-Neurológica da Universidade de Viena, foi quem descreveu oficialmente a condição depois que pacientes começaram a chegar com sintomas neurológicos incomuns. Muitos foram inicialmente diagnosticados com meningite, esclerose múltipla ou delírio, mas nada parecia se encaixar perfeitamente. Havia algo diferente. Entre os sinais mais marcantes estava uma sonolência extrema que não correspondia a nenhuma doença conhecida na época.

A fase inicial costumava lembrar uma gripe comum, com mal-estar, febre baixa, dor de garganta, calafrios, dor de cabeça, tontura e vômitos. O problema era o que vinha depois. Em diversos casos, os sintomas neurológicos surgiam de forma abrupta e devastadora. Há relatos de pacientes que desenvolveram paralisia repentina e, em questão de dias, evoluíram para a morte. A progressão podia ser assustadoramente rápida.

Os médicos passaram a identificar diferentes formas da doença. Uma das mais marcantes era a chamada forma sonolenta-oftalmoplégica, caracterizada por uma necessidade quase irresistível de dormir. Os pacientes podiam permanecer adormecidos por períodos prolongados, mas curiosamente eram despertados com facilidade e, muitas vezes, tinham consciência do que acontecia ao seu redor durante esse estado de quase sono. Mesmo assim, essa variante apresentava uma taxa de mortalidade superior a 50 por cento. Paradoxalmente, aqueles que sobreviviam a essa forma específica tendiam a ter menos sequelas graves do que em outros tipos da enfermidade.

Com o avanço da epidemia, os quadros se tornaram ainda mais angustiantes. O neurologista Oliver Sacks, que décadas depois tratou sobreviventes no hospital Beth Abraham, em Nova York, descreveu pacientes conscientes, mas completamente apáticos. Eles permaneciam sentados, imóveis e em silêncio, sem energia, iniciativa ou expressão emocional. Pareciam perceber o mundo ao redor, mas sem reagir a ele. Sacks comparou essa condição a um estado fantasmagórico, como se estivessem presentes apenas fisicamente.

Assim como ocorreu com outras pandemias, a encefalite letárgica também apresentou variações ao longo do tempo. Entre 1919 e 1920, regiões como Itália e Suécia registraram uma forma diferente, marcada por movimentos involuntários intensos, insônia severa e dores neurálgicas que nem mesmo a morfina conseguia aliviar. Espasmos rápidos podiam afetar o diafragma, o abdômen, o rosto ou membros, às vezes de maneira assimétrica, atingindo apenas um lado do corpo. Rigidez muscular e longos períodos de imobilidade também eram comuns.

Sobreviver à fase aguda não significava estar livre do problema. Anos depois da infecção inicial, muitos pacientes desenvolviam complicações crônicas. O parkinsonismo pós-encefalítico foi uma das consequências mais frequentes. Estima-se que, nas décadas seguintes à epidemia, até metade dos casos de parkinsonismo estivesse ligada à encefalite letárgica. Distúrbios do sono persistentes, alterações nos movimentos oculares, problemas na fala, dificuldades respiratórias e transtornos psiquiátricos também faziam parte do quadro tardio.

Ao todo, calcula-se que mais de 500 mil pessoas tenham morrido em decorrência da doença. Ainda assim, sua origem permanece envolta em mistério. Desde o início, muitos suspeitaram de uma ligação com o vírus da gripe espanhola, já que as duas doenças surgiram e desapareceram em períodos semelhantes. No entanto, análises posteriores em cidades dos Estados Unidos não encontraram uma correlação direta entre os surtos de influenza e os casos de encefalite letárgica.

Alguns pesquisadores continuam considerando a possibilidade de uma conexão indireta, sugerindo que a doença poderia ter sido resultado de danos neurológicos desencadeados pela gripe, manifestando-se apenas após certo tempo. Estudos mais recentes que analisaram amostras raras de tecido cerebral indicaram que um enterovírus, grupo que inclui o poliovírus, pode ter sido o verdadeiro responsável. Mesmo assim, não há consenso científico definitivo.

E então, de forma quase tão enigmática quanto sua origem, a encefalite letárgica praticamente desapareceu. Por volta de 1927, os casos diminuíram drasticamente até se tornarem raros. O mundo se viu livre da doença, mas sem entender completamente o que a causou ou por que ela sumiu.

Esse é justamente o ponto mais inquietante. Sem conhecer a origem exata da encefalite letárgica, é impossível descartar totalmente a possibilidade de que algo semelhante volte a surgir no futuro, especialmente em meio a novas pandemias virais. Para a ciência moderna, um eventual reaparecimento poderia oferecer a chance de finalmente desvendar o enigma com as ferramentas atuais. Mas, para a humanidade, seria mais um lembrete de que ainda existem capítulos obscuros na história das doenças que continuam sem explicação.

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Fagner Lopes

CEO Presidente e fundador da Obewise Entertainment Network, escritor, biomédico e amante de jogos eletronicos, mais precisamente DOTA 2. Redator do site e artista na Obewise Radio Network.

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