Ao folhear as páginas certas você encontra os componentes necessários. Olha para todos ao redor, e então fala em voz alta: “Eu lanço bola de fogo!”. O dano causado é grande demais para os inimigos suportarem. Você e seu grupo vencem o combate. Todos na mesa comemoram. … O que acaba de ser descrito é algo bem comum em uma sessão do jogo Dungeons & Dragons. Dungeons & Dragons, abreviadamente referido simplesmente como D&D, é o RPG primordial, e comemorou 50 anos em 2024.
Em comemoração a essa data foi lançado Dados & Dragões: A História Épica de Dungeons & Dragons (DarkSide Books, 2025). O livro foi escrito por vários autores, e cada capítulo aborda um tema distinto dentro da história de D&D. Vamos ver brevemente o que aborda cada capítulo.




O que é RPG?
Antes de seguirmos adiante, uma breve explicação para aqueles leitores iniciantes no tema. RPG é uma sigla em inglês que significa Role-Playing Game, traduzindo para o português: jogo de interpretação de papéis. E isso é o principal para jogar RPG: imaginação! Livros, fichas de personagens, lápis, dados e imaginação, muita imaginação!


Para os mais experientes, vale a pena dar atenção a seção do livro que aborda o RPG com o conceito de Desvio Comportamental Simulado.
Temas de cada capítulo em Dados & Dragões
Capítulo 1: Busca responder se existe uma era de ouro de D&D.
Capítulo 2: Mostra um relato de uma trajetória acadêmica focada em jogos de fantasia.
Capítulo 3: Aborda exploração e experiência (E&E), os dois elementos diferenciais e mais influentes no design de D&D.
Capítulo 4: Analisa a evolução da mecânica de combate em D&D.
Capítulo 5: Fala sobre o neurologista John Eric Holmes e sua relação com D&D e como ele criou o Dungeons & Dragons – Kit Introdutório.
Capítulo 6: Fala da Open Game License (OGL).
Capítulo 7: Foca nos mods de D&D.
Capítulo 8: Conta a história de um grupo de amigos, já na casa dos 50 anos, que, durante a pandemia, voltaram a ter contato com D&D e uns com os outros após décadas.
Capítulo 9: Aborda o Efeito Mercer e a performance em D&D.
Capítulo 10: Analisa as religiões de D&D.
Capítulo 11: Aborda a influência de D&D na literatura.
Capítulo 12: Analisa a aprendizagem com D&D.
Capítulo 13: Aborda a influência de D&D na performance artística.
Capítulo 14: Relata a formação de uma família Queer através do D&D.
Capítulo 15: Analisa tendências históricas de significação de raça em D&D.
Capítulo 16: Aborda o colonialismo em D&D.
Capítulo 17: Aborda regras, raças e anseios juvenis em D&D.
Capítulo 18: Desloca o mundo de D&D para Singapura.
Capítulo 19: Analisa comunidades flexíveis e desvio simulado em D&D.
Capítulo 20: Imagina D&D aos 150 anos e além.
Estrutura do livro
Dados & Dragões é uma coletânea de ensaios, e dada essa estrutura em que cada capítulo é escrito por autores diferentes, a escrita varia muito de um para outro. A maioria deles é muito bem escrita, com fluidez e linguajar instigante. Alguns poucos chegam a ser chatos. Com uma escrita excessivamente acadêmica, “engessada”.
O livro é extremamente detalhado ao contar a história prévia ao surgimento de D&D. Mostra como ele emergiu a partir dos jogos de guerra. Incluindo muitos detalhes interessantes, como o fato de que H. G. Wells, um dos mais importantes autores de ficção-científica, criou um boardgame de guerra. Essa origem nos jogos de guerra vai estar arraigada na estrutura básica de D&D até hoje em dia, refletindo uma visão colonialista eurocêntrica.
Mostra como D&D possui 4 classes principais que dão identidade ao jogo: combatente, mago, clérigo e ladrão. Sendo que ladrão foi lançado depois dos outros 3.
Além dos aspectos mais técnicos, o livro dá bastante espaço para abordar a relação das pessoas com o jogo. Como o caso de um grupo de amigos que ficou décadas sem jogar e voltaram a jogar na pandemia. Alguns deles não se viam há décadas.
O livro aborda então como os novos jogadores estão se conectando ao D&D, e muitos deles jogam por videochamada. Não só isso, mas muitos desses novos jogadores começam a jogar por influência de canais no YouTube como o Critical Role.
E essa conexão dos jogadores com D&D também pode se dar de maneira distinta dependendo da sociedade em que o indivíduo está inserido, como pode ser visto no capítulo que fala de Singapura.
O livro ainda mostra influência de D&D na gamificação do século XXI. E também em contrapartida a influência dos videogames na 4ª e 5ª edições. É muito interessante o debate que se dá nesse momento, onde os autores salientam que a gamificação, pautada em recompensara rápidas, fez com que os jogadores adotassem uma postura de buscar ser extraordinário ao invés de valorizar o coletivo.
É abordada também a influência de D&D na literatura. Salientando que muitos autores transcrevem sessões de RPG e as transformam em livros.
É mostrado também como D&D pode ser usado para suporte terapêutico e educação.
O livro apresenta também algumas tabelas que permitem verificar comparativamente dados entre as diferentes edições de D&D.
Por fim, Dados & Dragões é ricamente ilustrado. As ilustrações são próprias e dão o tom de fantasia medieval que D&D transmite.

Cenários de campanha e suplementos
Além dos livros básicos de D&D, existem também suplementos com os cenários de campanha. Atualmente existem muitos cenários de campanha que podem ser utilizados em D&D, mas alguns deles podem ser considerados os principais:
– Greyhawk: O primeiro suplemento oficial de D&D. Com foco em espada e feitiçaria, conhecido pela geopolítica complexa de Flanaess.
– Forgotten Realms: O cenário principal da 5ª Edição, focado no continente de Faerûn, conhecido por sua alta magia, intrigas políticas e deuses ativos.
– Ravenloft: Cenário de horror gótico, onde os jogadores ficam presos nos domínios de Lordes das Trevas, com destaque para o vampiro Strahd von Zarovich.
– Planescape: Explora os planos existenciais, tendo a cidade de Sigil como centro, focado em filosofia, multiverso e criaturas extraplanares.
– Dragonlance: Focado em fantasia épica de alto risco, famoso pela Guerra das Lanças, dragões e um forte componente narrativo.
– Eberron: Introduz um estilo de “magia industrializada”, com trens relâmpago, robôs sencientes (Warforged) e noir, focado em aventuras mais pulp.
– Dark Sun: O mundo moribundo de Atha, cenário árido e brutal, onde a água é escassa, a magia destrói o ambiente e não existem deuses, com foco em sobrevivência.
– Mystara: Clássico cenário focado em exploração e aventuras em níveis altos, incluindo a “Terra Oca”.
– Spelljammer: Fantasia espacial que mistura a exploração de mundos com navegação entre as esferas cristalinas em navios mágicos.
D&D Beyond
D&D Beyond é o conjunto de ferramentas digitais oficial da 5ª Edição de D&D, permitindo criar fichas de personagem, rolar dados virtuais, consultar regras e gerenciar campanhas de forma fácil. Funciona como uma biblioteca digital, facilitando o jogo para iniciantes e veteranos, com suporte online e aplicativo móvel.
Dungeon Masters Guild
O Dungeon Masters Guild, ou DMsGuild, é um programa de conteúdo da comunidade administrado em parceria entre Roll20 e Wizards of the Coast para o D&D.
Conteúdo da Comunidade são produtos criados por fãs especificamente para serem usados em conjunto com, ou para expandir, as regras oficiais do jogo.
Material derivado de D&D
A abrangência de D&D é tão vasta que seria quase impossível mencionar tudo em um único livro. Então o livro quase não aborda toda a quantidade de produtos licenciados derivados de D&D, como filmes, desenhos animados, videogames, Spellfire, action figures, etc.
Entrevista com o tradutor Daniel Bonesso
Rafael Bisso-Machado: Oi Daniel! Tudo tranquilo? Obrigado por se dispor a conversar um pouco sobre o teu trabalho no Dados & Dragões.
Daniel Bonesso: Disponha, meu caro. É uma honra poder falar um pouco contigo sobre meu trabalho e agradeço bastante pela oportunidade de poder compartilhar um pouco contigo e teus leitores.
RBM: Então, para começar, poderia dizer como tu obteve esse trabalho como tradutor do Dados & Dragões? Vi que tu tens também outras obras traduzidas para a DarkSide Books.
DB: Exatamente, eu já trabalhei em 18 projetos distintos com a DarkSide e minha formação é de tradutor/intérprete! Quanto a esse convite específico, a gerente editorial da DarkSide viu uma apresentação minha durante uma exposição sobre Steampunk em que fui curador por ser um braço da minha dissertação. Durante essa apresentação, questionaram-me sobre a minha relação com RPG, pois eu citava nos painéis. Quando ela me ouviu falando sobre meu amor por RPG, especialmente D&D, veio direto falar comigo para assumir esse projeto, pois precisava de alguém que já tivesse contato com o meio
RBM: Essa seria justamente a minha próxima pergunta… Qual é a tua relação pessoal com D&D (e com RPG em geral)?
DB: Digamos que eu tenha mais tempo de vida jogando RPG do que não jogando, rsrs. Comecei aos 15 anos de idade por causa do primeiro Nerdcast RPG de Ghanor por volta de 2010. E como sempre tive mais contato com leitura entre o pessoal, acabei ocupando a posição de mestre. E isso me influenciou bastante ao ponto de me motivar a escrever minhas próprias histórias. D&D foi o primeiro sistema que joguei, era a versão 3.5 ainda. Mas acabei aderindo mais ao Call of Cthulhu por causa da minha predileção para o gênero de terror. E quando as quests da vida dão uma trégua, sempre volto a me reunir com os companheiros de aventuras para jogarmos um pouco.
RBM: O livro foi escrito em um formato que pende mais para o acadêmico, com a estrutura diferindo bastante de capítulo para capítulo. Alguns com linguajar mais fluido para o público leigo e outro com o linguajar mais característico da academia. Isso trouxe dificuldades para o teu trabalho como tradutor?
DB: Bastante, ainda por transitarem por campos dos estudos sociais, teoria dos jogos, teoria queer etc. Eu também consultei uma psicóloga especializada em estudos afro para não cometer nenhuma gafe. E alguns foram um verdadeiro sufoco, principalmente os últimos que abordavam culturas e vivências bem distintas das minhas. Mas como também sou acadêmico e a escrita de ensaios faz parte da rotina, houve também uma certa facilidade em trabalhar o campo semântico desse “gênero” (gênero mesmo no sentido de romance, conto, texto técnico etc.). Mas não há como negar que foi sim mais difícil. Tanto que pedi uma pequena prorrogação no prazo a fim de dar conta de todo o material.
RBM: Com relação a tradução do título da obra, que no original em inglês é “Fifty Years of Dungeons & Dragons”… Por que houve essa mudança/adaptação no título?
DB: Cara, ótima pergunta e MT bem observado. A bem da verdade é que o meio editorial, nessa parte, opera muito similar ao meio cinematográfico. Então a escolha de tradução para título é uma decisão de marketing. Como tradutor, eu sempre ofereço uma sugestão de título. Mas serão os “cabeças” que escolherão. Então não tenho uma resposta oficial do motivo exato, mas sei que uma das razões é para iniciar com a letra D em ambas as palavras e fazer um paralelo com a sigla D&D.
RBM: Para encerrar, tu gostarias de deixar algumas palavras para os leitores de Dados & Dragões?
DB: Apesar de ser um livro que convida novos jogadores à leitura, acredito que, assim como eu, grande parte dos interessados por Dados & Dragões serão jogadores experientes de RPG e amantes do universo Dungeons & Dragons. Seja lá qual for o seu caso, espero de coração que você, leitor, possa desfrutar de um belo passeio por esse universo fantástico a partir de textos tão únicos e especiais. Caso queira entrar em contato ou deixar um feedback, pode me encontrar no IG danielbonesso.autor.
RBM: Daniel, muito obrigado pelo teu tempo e por nos permitir entender melhor o teu trabalho e como foi o trabalho de tradução de Dados & Dragões!
DB: Disponha! Foi um prazer e agradeço muito a oportunidade de poder abrir um pouco do meu trabalho. O ofício de tradução é muito solitário, então eu acho incrível termos a chance de contato com os leitores e interessados para o meio. Obrigado mesmo.
Uma aventura em paralelo
Além da tradução, Daniel Bonesso também escreveu um texto curto para cada capítulo do livro, simulando a trajetória de um jogador de RPG como se fosse uma aventura de D&D.
Autores originais de D&D

Gary Gygax (1938-2008) cocriou D&D com Dave Arneson. Em 1971 ele desenvolveu Chainmail, um jogo de miniaturas de guerra baseado em combates medievais. Em 1973, fundou a empresa TSR (originalmente Tactical Studies Rules). Em 1976, fundou The Dragon, uma revista dedicada a D&D.

Dave Arneson (1947-2009) cocriou D&D com Gary Gygax. Em 1971 ele criou Blackmoor, baseando o cenário em elementos de fantasia medieval.
Organizadores de Dados & Dragões
Premeet Sidhu é professora de Inglês e História e doutoranda na Universidade de Sydney. Sua pesquisa analisa o ressurgimento contemporâneo e as vertentes educacionais do RPG de mesa Dungeons & Dragons.
Marcus Carter é professor associado em Culturas Digitais na Universidade de Sydney. Organizou Internet Spaceships Are Serious Business: An EVE Online Reader e é autor de Treacherous Play (MIT Press).
José P. Zagal é professor do programa de Artes e Engenharia do Entretenimento da Universidade de Utah. É autor de Ludoliteracy, coautor de Role-Playing Game Studies e editor de The Videogame Ethics Reader e Game Design Snacks. Foi reconhecido como Distinguished Scholar pela DiGRA e como Fellow da Higher-Education Videogame Alliance (HEVGA), por suas contribuições à pesquisa em jogos.
Demais autores
Amanda Cote, Mateusz Felczak, Gary Alan Fine, Antero Garcia, David Harris, Adrian Hermann, Zach Howard, Michael Iantorno, Daniel Heath Justice, C Liersch, Josiah Lulham, Esther MacCallum-Stewart, Jay Malouf-Grice, Sam Mannell, Dimitra Nikolaidou, Jon Peterson, Victor Raymond, Tony A. Rowe, Emily Saidel, Evan Torner, Aaron Trammell, Jonathan Walton, Stephen Webley, Kellynn Wee.
Tradutor (e autor)

Daniel Bonesso é tradutor/intérprete, escritor, e pesquisador da literatura fantástica. Autor do livro Contos para Contar com Medo (Independente), teve textos publicados em antologias como Acampamento Macabro (Alarde) e O Lado Oculto do Castelo (Rocket). Como tradutor já trabalhou em 18 projetos distintos com a DarkSide Books.
Minha história com D&D
Vários capítulos de Dados & Dragões relatam as experiências de seus autores ao jogar D&D, e eu não poderia deixar de falar na minha própria experiência. Como fica evidente em Dados & Dragões, D&D faz parte da história de muitas pessoas.
O meu primeiro contato foi com Advanced Dungeons & Dragons 2ª Edição Revisada, nos anos 90, publicado no Brasil pela Editora Abril. A história de publicação de D&D no Brasil merece um livro próprio. Pois há uma rica história específica de como isso se deu em nosso país. Como a importância das lojas especializadas dessa época: a Forbidden Planet, em São Paulo, e a Planeta Proibido, em Porto Alegre. No momento em que a 3ª edição foi lançada, no ano 2000, adquiri os 3 livros básicos e foi a primeira vez em que mestrei para meus amigos.

E aqui cabe lembrar que o primeiro contato de minha geração com D&D se deu uma década antes, nos anos 80, de forma indireta, através do desenho animado chamado aqui no Brasil de Caverna do Dragão, transmitido pela Rede Globo.
Reflexões finais
D&D se tornou tão abrangente em seus 50 anos de história, que não caberia em uma única matéria falar sobre tudo referente à D&D. Assim, como o próprio livro analisado aqui também não abordou (e nem teria como) tudo o que se refere à D&D ao longo de sua história. Em 1974, quando Gary Gygax e Dave Arneson criaram D&D, eles não apenas inventaram o RPG, eles acabaram criando um ícone cultural.
Dados & Dragões faz um ótimo trabalho sobre os 50 anos de história de D&D ao ir além de simplesmente relatar os eventos históricos: as várias edições, revisões de regras, editoras, autores, etc. Debate francamente temas como raça, preconceito e colonialismo, arraigadas na estrutura de base e que entram em contraste com a sociedade do século XXI. E, sendo o ícone cultural que é, os autores mostram o impacto de D&D na literatura, na dramaturgia e seu uso terapêutico e educacional. Mas o que por fim acaba por unir todos esses temas, e é mostrado lindamente no livro, é o impacto emocional que D&D deixa na vida daqueles que algum dia o jogaram.
Para aqueles que já são jogadores de D&D, ou já jogaram em algum momento de suas vidas, Dados & Dragões vai trazer à tona muitas lembranças. Fins de semana em volta de uma mesa com os amigos, transformados em aventureiros pelo poder da imaginação. Os mundos onde nos aventuramos podem ter sido imaginados, mas a emoção foi genuína. Tudo compartilhado: alegria, frustração, lágrimas, gargalhadas!
Encerro essa matéria com duas citações. A primeira de Bernard Suits (1972): “jogos são a escolha deliberada de resolver desafios desnecessários”. … E que bom que decidimos fazer essa escolha, pois como comentou B. Dave Walters (2025): “As aventuras ao lado dos amigos se transformam em lembranças que literalmente duram uma vida inteira.”
Longa vida a Dungeons & Dragons! Rola o d20!!
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