Em 26 de dezembro de 2002, um anúncio chocou o planeta: uma bebê chamada Eve teria nascido como o primeiro clone humano da história. A revelação foi feita no dia seguinte, durante uma coletiva de imprensa internacional conduzida por Brigitte Boisselier, diretora científica da empresa Clonaid. Segundo ela, a criança havia sido gerada por meio da clonagem de células da pele de sua própria mãe, utilizando um processo semelhante ao que havia dado origem à ovelha Dolly, mas adaptado para células humanas.

Boisselier afirmou que o nascimento era fruto de anos de trabalho científico e que Eve não estaria sozinha. Outros quatro bebês clonados estariam em gestação em diferentes partes do mundo. A técnica, segundo ela, poderia ajudar casais inférteis, permitir que casais homoafetivos tivessem filhos geneticamente relacionados e até oferecer uma forma de “reviver” crianças falecidas a partir de células preservadas.
Apesar do impacto global da notícia, uma pergunta permanece até hoje: se o primeiro clone humano realmente nasceu, por que nunca mais ouvimos falar dele?
A resposta passa pelas origens extremamente incomuns da Clonaid. A empresa não possuía endereço formal nem registro corporativo tradicional, mas prometia realizar um dos feitos científicos mais complexos da história. O financiamento veio, segundo Boisselier, de Raël, líder espiritual do movimento religioso Movimento Raeliano Internacional.

Raël, cujo nome verdadeiro é Claude Vorilhon, fundou o movimento em 1974 após afirmar ter sido contatado por extraterrestres conhecidos como Elohim. De acordo com seus ensinamentos, a vida na Terra teria sido criada por esses seres por meio da clonagem, e a humanidade poderia alcançar a vida eterna replicando esse processo. O movimento combina crenças em ciência, extraterrestres e imortalidade biotecnológica, ao mesmo tempo em que defende valores progressistas como igualdade de gênero, liberdade sexual e pacifismo.
Dentro dessa visão espiritual, a clonagem não é apenas ciência: é um caminho para a eternidade. Financiar pesquisas nesse campo era, portanto, um passo essencial rumo a uma nova era para a humanidade.
No entanto, a comunidade científica recebeu o anúncio com profundo ceticismo. Especialistas apontaram que a tecnologia necessária para clonagem reprodutiva humana ainda estava longe de ser viável. Além disso, a taxa de sucesso alegada pela Clonaid parecia biologicamente improvável quando comparada aos resultados da fertilização in vitro convencional.
O maior problema, porém, foi a ausência completa de provas. Nenhuma evidência genética foi apresentada, nenhum exame independente foi permitido e nenhum dos supostos bebês clonados jamais foi exibido ao público ou à comunidade científica. Mesmo o jornalista científico encarregado de verificar os testes afirmou nunca ter recebido amostras para análise.
Com o passar dos anos, a história começou a ser tratada como uma elaborada farsa. Alguns membros do próprio movimento raeliano passaram a considerar que o anúncio poderia ter sido uma estratégia para chamar atenção pública para o debate sobre clonagem humana.
O efeito, contudo, foi o oposto do esperado. O caso despertou medo e indignação internacional, estimulando propostas legislativas para proibir a clonagem humana e reforçando a resistência pública à pesquisa na área. Para cientistas interessados nos potenciais terapêuticos da clonagem, o episódio acabou prejudicando seriamente o debate científico.
Mais de duas décadas depois, nenhum clone humano foi comprovadamente criado, e Eve permanece como uma figura quase mítica na história da biotecnologia. Seja fraude, experimento secreto ou apenas uma jogada de marketing espiritual, o episódio continua fascinando por misturar ciência de ponta, crenças extraterrestres e o eterno desejo humano de vencer a morte.
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