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Olhares: a estreia de Junji Ito em obra infantil

Os medos e percepções do ambiente durante a infância podem tomar várias formas. Um deles é a sensação de se sentir observado. Em Olhares (DarkSide Books, 2025), Soshichi Tonari e Junji Ito partem da pareidolia e passam para o terror (mesmo que em nível infantil) ao mostrar o personagem principal sendo constantemente observado.

Capa de Olhares.

Olhares (publicado originalmente no Japão em 2024 com o nome de Kocchi wo Miteru, “Estou te olhando”, em tradução literal) é a obra de estreia de Junji Ito na literatura infantil. Adapta uma história do próprio Tonari, vencedora do Concurso de Livros Ilustrados de Histórias de Fantasmas em 2018, promovido pela editora Iwasaki Shoten. Lançado no Brasil pela DarkSide Books, integra o selo infantil Caveirinha. A obra adentra a psique infantil e explora o medo da solidão e o peso de ser diferente.

O protagonista é um menino que enxerga rostos em todos os lugares. Sendo ele o único a ter essa percepção, ele decide romper com o silêncio e compartilhar seu segredo. A partir daí tudo muda. Os rostos, antes inexpressivos, adquirem olhos vívidos e observadores. Olhares que seguem o menino protagonista em todos os lugares.

Páginas internas de Olhares.

Pareidolia

A pareidolia é o fenômeno de enxergar rostos em objetos inanimados. Surgiu através da evolução biológica como um mecanismo de defesa e sociabilização de humanos e outras espécies de mamíferos.

Tomada dinamarquesa.

Os estímulos visuais que chegam ao cérebro geram construções perceptuais e, a partir destas, são formadas as imagens. Nosso cérebro tem “aversão” a lacunas sensoriais, o que acaba forçando a associação a um objeto já conhecido. Sua importância está na capacidade de resolver estímulos abstratos, a fim de formar uma percepção coerente do mundo físico.

A pareidolia tem importância evolutiva por funcionar como um mecanismo de defesa antecipatório, permitindo identificar rapidamente rostos ou potenciais predadores a partir de poucos pontos. Esse ganho em velocidade trouxe consigo um “drawback” de falsos positivos, fazendo com que o cérebro detecte rostos onde não existem de fato.

Algumas lagartas de lepidópteros (borboletas e mariposas), utilizam mimetismo para se disfarçar de cobras, enganando predadores. Quando ameaçadas, elas retraem a cabeça real e expandem a parte posterior do corpo, exibindo falsos olhos (ocelos) e desenhos, criando uma pareidolia que espanta aves e pequenos mamíferos

Eumorpha labruscae.

Análise dos elementos que constituem a obra

Roteiro: O roteiro leva com muita clareza a conexão entre a pareidolia e o medo de sentir-se observado pela ótica infantil.

Ilustração: A arte mostra muita clareza, tornando ainda mais perturbadora a percepção de rostos e olhares em todos os objetos mostrados. Com um colorido vibrante e intenso.

Páginas internas de Olhares.

Autores

Soshichi Tonari, roteiro. Nasceu em 1991. Cresceu em Tokyo, Japão. Venceu o Grande Prêmio no Concurso Literário Kaidan Ehon [Livro Ilustrado de Contos Sobrenaturais] com Olhares.

Junji Ito, ilustração. Nasceu em 1963 na província de Gifu, Japão. Enquanto trabalhava como técnico de prótese dentária, enviou seu mangá para concorrer ao Prêmio Umezu, promovido pela Gekkan Halloween (Asahi Sonorama). Em 1986, Tomie recebeu a menção honrosa. A obra marcou sua estreia. É reconhecido como um dos maiores artistas contemporâneos dos mangás de terror. Olhares é o seu primeiro trabalho em livro infantil.

Prêmios:

– 2019 – Prêmio Eisner, na categoria Melhor Adaptação em Quadrinhos por Frankestein.

– 2021 – Prêmio Eisner na categoria Melhor Edição estadunidense de Material Estrangeiro Asiático por Planeta Demoníaco Remina.

– 2021 – Prêmio Eisner na categoria Melhor Roteirista/Artista por Vênus Invisível – Coleção de Histórias Curtas: O melhor de Junji Ito.

– 2022 – Prêmio Eisner na categoria Melhor Edição estadunidense de Material Internacional – Ásia por Mortos de Amor.

– 2023 – Prêmio Inkpot durante a San Diego Comic-Com pelo conjunto da obra em vida.

Outras obras de Junji Ito pela DarkSide Books

Box dos Horrores Junji Ito: Fragmentos do Horror e Contos de Horror da Mimi (2025).

Contos de Horror da Mimi (2022).

Fragmentos do Horror (2017).

Reflexões finais

Olhares é uma obra de terror voltada para o público infantil. Diferentemente do ocidente, onde habitualmente escritores de literatura infantil tentam sempre “proteger” os pequenos leitores de alguma forma, em Olhares isso não ocorre. Mas Masao Higashi (editor original da obra), salienta muito bem a importância de uma obra como Olhares para as crianças: “As crianças que conhecem histórias sobrenaturais desde cedo desenvolvem a imaginação, a resiliência para enfrentar desafios e uma compreensão profunda e natural dos valores humanos essenciais.”.

A obra acaba também por abordar uma outra camada da psique infantil pois explora o medo da solidão e o peso de ser diferente. Dois temores que podem aterrorizar a existência de uma criança na vida real.

Em Olhares, Junji Ito, ao limitar seu costumeiro “horror corporal” a simplesmente olhares, mostra que pode atingir uma outra faixa etária com a mesma eficiência de sempre. Qual será a próxima obra do mangaká mestre do horror? Estaremos de olho!

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Fagner Lopes

CEO Presidente e fundador da Obewise Entertainment Network, escritor, biomédico e amante de jogos eletronicos, mais precisamente DOTA 2. Redator do site e artista na Obewise Radio Network.

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