Um experimento de 1973 publicado na revista Science colocou a psiquiatria no centro de um dos maiores debates de sua história. Conduzido pelo psicólogo David Rosenhan, o experimento ficou conhecido como On Being Sane in Insane Places e levantou uma pergunta simples, mas explosiva: afinal, os profissionais conseguiam distinguir pessoas sãs de pacientes com transtornos mentais?
A resposta apresentada pelo estudo chocou o mundo.
Pessoas saudáveis internadas como pacientes
Rosenhan e outros sete voluntários, todos sem histórico de doença mental, se apresentaram a hospitais psiquiátricos alegando ouvir vozes. Era o único sintoma relatado. Após a internação, eles passaram a agir normalmente e afirmaram que os sons haviam cessado.
Ainda assim, nenhum foi identificado como saudável pela equipe médica. Todos receberam diagnósticos de transtornos graves, em especial esquizofrenia, e permaneceram internados por uma média de 19 dias. Atitudes comuns, como escrever anotações, foram registradas nos prontuários como sintomas patológicos.
O peso dos rótulos clínicos
O estudo mostrou como o rótulo diagnóstico influenciava a interpretação de qualquer comportamento. Uma vez classificada como doente, a pessoa passava a ser vista apenas sob essa lente, mesmo quando agia de forma totalmente comum.
Em um segundo momento, um hospital desafiou Rosenhan a repetir o experimento. Avisada de que “falsos pacientes” seriam enviados, a equipe identificou dezenas de supostos impostores. O detalhe é que Rosenhan não havia enviado ninguém.

Impacto e mudanças na psiquiatria
O experimento teve efeitos profundos. Ele acelerou debates sobre diagnósticos psiquiátricos, contribuiu para a revisão de manuais clínicos e fortaleceu o movimento de desinstitucionalização, que buscava reduzir internações prolongadas e priorizar cuidados comunitários.
Por décadas, o estudo foi citado como prova das falhas estruturais da psiquiatria moderna.
As críticas e a revisão histórica
Anos depois, a jornalista Susannah Cahalan revisitou o experimento em uma investigação detalhada. Ela encontrou inconsistências nos registros, dificuldades para confirmar a identidade de todos os participantes e possíveis exageros nos dados originais. Suas conclusões levantaram dúvidas sobre a integridade metodológica do estudo, sem negar totalmente seu impacto histórico.
Um legado que ainda provoca debate
Mesmo com as críticas, o experimento de Rosenhan segue sendo um marco. Ele ajudou a expor os riscos de diagnósticos apressados e mostrou como sistemas de saúde mental podem falhar ao enxergar pessoas apenas como rótulos.
Mais de 50 anos depois, o estudo ainda serve como alerta. Não apenas sobre a psiquiatria do passado, mas sobre a importância de olhar o paciente além do diagnóstico.
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