Pesquisadores da Universidade da Califórnia em Santa Barbara desenvolveram um líquido transparente que engarrafa a luz do sol e a armazena por meses para ser liberada depois na forma de calor. A descoberta foi publicada na revista Science e chama atenção por dispensar completamente baterias e eletricidade no processo.
O material funciona como um sistema solar térmico molecular. Em vez de converter luz em energia elétrica, ele transforma a radiação solar diretamente em energia química. O segredo está em uma molécula chamada pirimidona, inspirada em estruturas presentes no DNA. Quando exposta à luz solar, especialmente aos raios ultravioleta, essa molécula muda de forma e entra em um estado de alta energia, armazenando essa energia em suas ligações químicas.

O mais impressionante é a estabilidade. A molécula consegue permanecer nesse estado carregado por cerca de 481 dias em temperatura ambiente sem perder a energia acumulada. É como uma mola comprimida que pode ficar travada por mais de um ano esperando o momento certo para liberar a força.
Quando o calor é necessário, basta um pequeno estímulo, como aquecimento leve ou o uso de um catalisador. A molécula então retorna ao seu estado original e libera toda a energia armazenada na forma de calor. Esse processo pode ser repetido muitas vezes, sem degradação significativa do material, algo que diferencia essa tecnologia das baterias tradicionais.
Em termos de densidade energética, o líquido também surpreende. Ele consegue armazenar cerca de 1,65 megajoules por quilo, quase o dobro do que uma bateria de íons de lítio comum. Como não há conversão para eletricidade, as perdas de energia são menores. Em testes práticos, os pesquisadores conseguiram até ferver água usando apenas o calor liberado pelo líquido.
O projeto foi liderado pela professora Grace Han, com participação do pesquisador de doutorado Han Nguyen e apoio de modelagem computacional feita pelo químico Ken Houk, da UCLA. Um dos avanços mais importantes foi conseguir manter o material em estado líquido em temperatura ambiente, eliminando a necessidade de solventes que normalmente reduzem a eficiência em sistemas semelhantes.

As aplicações potenciais são amplas. O líquido poderia circular por coletores solares no telhado durante o dia e ser armazenado em tanques para uso posterior. Depois, bastaria passá-lo por um reator simples para gerar calor para banho, aquecimento de ambientes ou até cozimento de alimentos em locais fora da rede elétrica. Como o calor pode ser guardado por meses, seria possível capturar energia no verão e utilizá-la no inverno.
Embora ainda esteja em fase experimental, a tecnologia representa um passo importante para soluções de armazenamento térmico de longo prazo. Em um mundo que busca alternativas mais limpas e eficientes, “engarrafar” a luz do sol pode deixar de ser apenas uma metáfora.
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