Uma nova pesquisa levantou a possibilidade de que a história da evolução humana seja ainda mais complexa do que se imaginava. Segundo os autores do estudo, os ancestrais do Homo sapiens podem ter se cruzado, em momentos diferentes, com duas espécies superarcaicas distintas, linhagens muito antigas de hominídeos que se separaram da nossa árvore evolutiva há mais de um milhão de anos. A descoberta reforça a ideia de que os humanos modernos não surgiram de um processo simples e linear, mas de uma longa mistura entre populações diferentes ao longo da pré-história.
Os cientistas chamam esses antigos parentes de superarcaicos porque eles teriam se separado da linhagem humana antes mesmo da divisão entre humanos modernos, neandertais e denisovanos. Estudos genéticos anteriores já indicavam que houve cruzamentos entre uma população superarcaica e os ancestrais africanos de todos os Homo sapiens. Também já existiam evidências de que grupos superarcaicos teriam se relacionado com os ancestrais eurasiáticos de neandertais e denisovanos, além de interações posteriores com os próprios denisovanos. O que ainda não estava claro era se tudo isso envolvia uma única população antiga ou mais de uma.

Para investigar essa questão, os pesquisadores analisaram a distribuição de variantes genéticas compartilhadas entre humanos modernos, neandertais e denisovanos. A partir desse mapeamento, eles concluíram que provavelmente houve participação de duas populações superarcaicas diferentes nesses encontros ao longo da evolução. Embora o estudo ainda não consiga apontar exatamente quando esses cruzamentos aconteceram, os resultados sugerem que o grupo que se misturou aos ancestrais de neandertais e denisovanos era ainda mais antigo do que aquele que contribuiu para a ancestralidade dos humanos modernos na África.
O dado que mais chama atenção é o tamanho dessa herança genética. Pelos cálculos da equipe, cerca de 19,6% do genoma humano moderno pode ter vindo de um desses hominídeos superarcaicos africanos. O número é muito acima da contribuição neandertal, que gira em torno de cerca de 2% no DNA de muitas populações atuais. Para os autores, isso indica que não se tratou de uma troca genética pontual ou pequena, mas de uma mistura muito mais profunda entre grupos humanos antigos.
O professor Alan Rogers, da Universidade de Utah e um dos autores do trabalho, explica que uma divisão desse tamanho lembra mais a fusão entre duas populações do que um simples fluxo gênico isolado. Na visão dele, os humanos modernos seriam uma espécie de mosaico biológico, formados pela combinação de duas ancestralidades importantes, e não apenas por uma linhagem dominante que recebeu pequenas contribuições externas ao longo do tempo.
A identidade desses misteriosos parceiros superarcaicos, no entanto, continua sendo um enigma. Uma das hipóteses levantadas pelos pesquisadores envolve o Homo erectus, espécie que deixou a África e se espalhou pela Eurásia há cerca de dois milhões de anos. Mais tarde, quando os ancestrais de neandertais e denisovanos migraram para fora da África, há aproximadamente 700 mil anos, eles poderiam ter encontrado descendentes desses grupos mais antigos e se cruzado com eles. Já no caso da população superarcaica que teria contribuído para o DNA dos ancestrais dos humanos modernos, as pistas são bem mais escassas. Sabe-se apenas que ela se separou da nossa linhagem há cerca de 1,3 milhão de anos e que o cruzamento ocorreu antes da divisão entre africanos e europeus modernos. Fora isso, os próprios pesquisadores admitem que ainda não há um candidato claro.
Mesmo sem respostas definitivas, o estudo reforça uma visão cada vez mais aceita pela paleoantropologia: a de que a evolução humana foi marcada por encontros, misturas e trocas genéticas entre vários grupos diferentes, e não por uma linha reta rumo ao Homo sapiens. Em vez de uma origem simples, nosso passado parece ter sido moldado por uma rede complexa de parentes distantes, alguns dos quais talvez ainda nem tenham sido identificados pela ciência.
Vale lembrar que o trabalho foi divulgado como pré-publicação no bioRxiv e ainda não passou pela revisão por pares. Ainda assim, a pesquisa já chama atenção por sugerir que uma parte considerável do que somos hoje pode ter vindo de ancestrais muito mais antigos e misteriosos do que se pensava até agora.
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