A revelação de que a Pixar engavetou um projeto com uma proposta parecida com a de KPop Demon Hunters acabou chamando atenção justamente porque mostra como o estúdio pode ter deixado passar uma ideia com grande potencial comercial e criativo. O longa em questão se chamava Be Fri e vinha sendo desenvolvido pela diretora Kristen Lester, conhecida pelo curta Purl, lançado em 2019. A produção acompanhava a história de duas garotas cuja amizade começava a se desgastar no momento em que elas descobriam que seu anime favorito, inspirado no estilo de obras como Sailor Moon, era real. A partir daí, as personagens embarcavam em uma aventura espacial cheia de fantasia, ação e emoção.
Segundo informações publicadas pelo The Hollywood Reporter, o projeto ficou em desenvolvimento por cerca de três anos e envolveu uma equipe de aproximadamente 50 pessoas. A proposta também teria elementos musicais e uma energia vibrante, o que fez muita gente apontar semelhanças claras com KPop Demon Hunters, filme da Netflix que acabou se transformando em um enorme fenômeno e ainda conquistou o Oscar de Melhor Animação neste ano. Para quem acompanhou a descrição de Be Fri, a comparação parece mesmo inevitável, já que ambos apostam em protagonistas femininas, ação sobrenatural e uma estética inspirada em referências pop orientais.

De acordo com fontes ouvidas pela publicação, o projeto passou por várias rodadas de observações e pedidos de mudanças vindos de executivos da Disney e da Pixar. Em determinado momento, a equipe criativa teria solicitado mais seis semanas para praticamente reconstruir o filme, tentando atender às exigências do estúdio. Mesmo assim, a produção foi encerrada. Um dos relatos mais duros sobre o caso diz que havia uma preocupação de que meninos pequenos não se identificassem o suficiente com a história, o que teria pesado contra a continuidade do longa. Na prática, a impressão que ficou para parte da equipe foi a de que o estúdio não queria apostar em um filme centrado em uma energia mais claramente feminina.
A situação chama ainda mais atenção porque a própria Disney e a Pixar já lançaram obras protagonizadas por meninas ou mulheres que dialogam com elementos fantásticos e emocionais, como Valente, Turning Red, Divertida Mente e Divertida Mente 2. Por isso, a justificativa atribuída aos bastidores soa contraditória para muitos observadores. Ao mesmo tempo, o contexto em que Be Fri foi cancelado ajuda a entender por que os executivos podem ter adotado uma postura mais cautelosa. O engavetamento aconteceu pouco depois do desempenho decepcionante de Lightyear, filme que também foi alvo de ataques políticos e culturais por conta de uma cena de beijo entre pessoas do mesmo sexo. Esse ambiente teria deixado a Disney ainda mais conservadora nas decisões envolvendo novos projetos.
O que torna a história ainda mais amarga é que, enquanto outros filmes conseguiram tempo extra para reformulações, como foi o caso de Elio, Be Fri não recebeu a mesma chance. Segundo o relato, a produção foi simplesmente encerrada, a ponto de funcionários da Pixar terem feito uma espécie de despedida simbólica para o projeto. Agora, com o sucesso de KPop Demon Hunters, a sensação que fica é a de que o estúdio talvez tenha abandonado um filme que poderia ter encontrado público, relevância cultural e até retorno financeiro.
Mesmo com a empolgação em torno de continuações como Toy Story 5, Os Incríveis 3 e Coco 2, é difícil não lamentar a perda de uma proposta que parecia trazer algo diferente dentro do catálogo da Pixar. Ainda mais agora, quando o mercado já mostrou que existe espaço de sobra para histórias animadas com protagonistas femininas, pegada musical, ação sobrenatural e forte identidade visual. No fim das contas, Be Fri pode ter virado mais um daqueles casos em que Hollywood só percebe o tamanho da oportunidade depois que outra empresa chega primeiro e prova que a ideia funcionava muito bem.
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