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Por dentro do helicóptero que filmou a icônica cena de abertura de O Iluminado

Stanley Kubrick nunca foi apenas um diretor; ele era um mestre em transformar imagens em emoções. O início de O Iluminado, com Jack Torrance dirigindo seu Volkswagen amarelo por estradas estreitas cercadas por florestas rumo ao Overlook Hotel, é a prova disso. As vastas tomadas aéreas, somadas à trilha inquietante de Wendy Carlos e Rachel Elkind, criam uma sensação de ansiedade que prende o espectador desde os primeiros segundos, estabelecendo o tom de horror psicológico que permeia todo o filme.

Para capturar essas imagens, Kubrick recorreu à MacGillivray Freeman Films, um estúdio americano independente conhecido por documentários e trabalhos em IMAX, especialmente na época em que o formato era mais usado para exibir a grandiosidade da natureza do que para blockbusters de verão. A responsabilidade de operar a câmera ficou com Jeff Blyth.

Blyth lembra que, após a morte de Jim Freeman em um acidente de helicóptero, a equipe do estúdio ficou afastada por seis meses até aceitar novos projetos. Quando Kubrick entrou em contato pedindo filmagens em Glacier National Park, ele deu instruções simples: encontrar a equipe local com o Volkswagen amarelo e apenas capturar belas imagens aéreas. A complexidade, porém, estava nos detalhes.

O helicóptero usado para as filmagens era equipado com um rig especial de Nelson Tyler, chamado belly mount, permitindo que Blyth instalasse duas câmeras de 35 mm sob o veículo. Movimentos horizontais exigiam reposicionar toda a aeronave, enquanto Blyth orientava o piloto para captar cada enquadramento. A filmagem era feita em rolos de 400 pés, com cerca de três minutos de filme por câmera, sem visualização direta, tudo dependia de um pequeno monitor em preto e branco para guiar a composição.

Além disso, a equipe enfrentou regras rigorosas do parque. Era proibido pousar no interior, o que obrigava a logística de reabastecimento a atravessar a região montanhosa até Kalispell. Sem poder controlar o tráfego local, cada tomada próxima ao solo exigia atenção redobrada, pois o helicóptero voava apenas alguns metros acima da estrada. A presença de insetos nas lentes também se tornou um desafio, resolvido com soluções improvisadas, como capas de chuveiro esticadas por cordas, ou limpezas rápidas entre uma tomada e outra.

Jeff Blyth, à direita, com o piloto Duane Williams durante as filmagens da cena de abertura de 
O Iluminado .

Um detalhe curioso que assombra Blyth até hoje é a famosa sombra do helicóptero. Filmada com uma lente grande angular, a sombra não aparecia na projeção original nos cinemas, mas se tornou visível em lançamentos de vídeo devido ao recorte diferente da tela, surpreendendo até mesmo o próprio cameraman.

Após semanas de prática e ajustes, o resultado final foi impecável. O plano que mostra a ilha, com água completamente calma refletindo o céu, e a perseguição da estrada sinuosa do Volkswagen até a entrada do hotel, demonstram não apenas técnica, mas também o efeito emocional buscado por Kubrick: um medo silencioso, um presságio de que nada terminaria bem. Para Blyth, essa abertura define a essência de O Iluminado. A vastidão da paisagem e a trilha sonora não prometem aventura ou diversão, mas sim uma sensação de inquietação que acompanha o espectador durante todo o filme.

Em cada frame, Kubrick não só apresenta a história, mas estabelece o clima, preparando o público para o terror psicológico que está por vir, mostrando que o verdadeiro horror muitas vezes está no que sentimos antes de algo acontecer.

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Fagner Lopes

CEO Presidente e fundador da Obewise Entertainment Network, escritor, biomédico e amante de jogos eletronicos, mais precisamente DOTA 2. Redator do site e artista na Obewise Radio Network.

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