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Gamificação ou manipulação? O sistema de recompensas do BBB

Enquanto o Brasil para diante da TV para discutir quem é “planta”, quem é “vilão” e quem merece o prêmio milionário, o olhar mais atento enxerga algo diferente. O Big Brother Brasil não é apenas um reality show de convivência. Sob a ótica da ciência, ele é a aplicação prática, televisada e de alto orçamento de um dos conceitos mais famosos da psicologia do século XX: o Behaviorismo Radical. Para o público, é entretenimento. Para a produção (e para mim), a casa mais vigiada do país opera de forma assustadoramente semelhante a uma Caixa de Skinner.

Burrhus Frederic Skinner, o pai do Behaviorismo Radical, criou um experimento famoso: uma caixa isolada onde um rato aprendeu a pressionar uma alavanca para receber comida. O princípio era simples: o comportamento é moldado pelas suas consequências. Se a consequência é boa, repetimos a ação. Se é ruim, evitamos.

No BBB, a dinâmica é idêntica.

  • A Caixa: O confinamento total, sem relógios ou janelas para o mundo.
  • A Alavanca: As provas, o confessionário, o botão de resistência.
  • O Experimentador: O “Big Boss” (a produção), que controla a temperatura, a luz e, principalmente, os recursos.

Não estamos assistindo ao livre-arbítrio em ação. Estamos assistindo ao Condicionamento Operante em tempo real.

Estalecas: A Economia de Fichas

Na psicologia comportamental, existe o conceito de Economia Token . Em clínicas ou escolas, comportamentos desejáveis ​​são premiados com fichas ou moedas fictícias, que depois podem ser trocadas por bens reais.

As Estalecas são exatamente isso. É preciso que os participantes acordem cedo, usem o microfone corretamente e façam o Raio-X. Como garantir isso? Através do sistema de recompensas e punições financeiras.

Quando a produção introduz uma “Xepa” (escassez alimentar) e retira estalecas de um participante (punição), ela não está apenas criando uma regra de jogo, está ameaçando uma necessidade física básica (a fome). Segundo a Pirâmide de Maslow, quando a base da pirâmide é ameaçada, o comportamento social exclusivo desaparece e o instinto de sobrevivência assume. É aí que as brigas por um pacote de biscoito acontecem. Não é “falta de educação”, é design comportamental.

O Big Fone e o Vício: A Química do Reforço Intermitente

Por que os participantes são capazes de ficar 48 horas plantados ao lado do Big Fone, sem dormir e sem ir ao banheiro?

Skinner descobriu que existem diferentes formas de entregar uma recompensa. Se o telefone tocasse todo dia às 15h (Reforço Fixo), os participantes só iriam para lá às 14h55. Eles permaneceram em tempo livre.

Mas o BBB usa o Reforço Intermitente (Proporção Variável). O telefone pode tocar agora, daqui a 10 minutos ou daqui a 3 dias. A imprevisibilidade gera a maior liberação de dopamina possível no cérebro. É o mesmo mecanismo psicológico que faz as pessoas viciam em máquinas caça-níqueis (slots) ou ficam rolando o feed infinito do TikTok. A incerteza da recompensa é o que prende o sujeito à “alavanca”.

Líder x Monstro: O Erro da Punição

O jogo se divide entre o céu (Líder) e o inferno (Monstro). Aqui temos a distinção clássica:

  1. Reforço Positivo (Líder/Anjo): Você ganha algo bom (imunidade, festa, vídeo da família). Isso reforça o comportamento de competição.
  2. Punição Positiva (Monstro): É adicionado um estímulo aversivo (roupa quente, música alta, privação de sono).

Skinner era um crítico da proteção. Ele argumentava que a proteção não ensinava o comportamento correto; ela apenas gera revolta, agressividade e tentativa de roubar o sistema. E é exatamente isso que vemos no reality: o “Castigo do Monstro” relatou “educa” o participante. Ele serve apenas para gerar o caos emocional e o conflito o combustível da audiência.

Conclusão: Somos todos Ratos de Laboratório?

Ao analisar o BBB sob a luz do Behaviorismo, a magia da “torcida” diminui, mas o fascínio pela mente humana aumenta. O programa é uma prova de que, se você controlar o ambiente e as consequências (comida, sono, status social), você pode moldar o comportamento de qualquer pessoa. Talvez a lição que o BBB nos deixe não seja sobre quem vai ganhar o prêmio, mas uma reflexão sobre o nosso próprio significado. Trabalhamos por nossas estalecas, temos nosso paredão (o desemprego) e somos viciados no nosso próprio Big Fone (as notificações do celular).

No fim das contas, a diferença entre a participação do BBB e o rato de Skinner é apenas o número de seguidores no Instagram.

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Fagner Lopes

CEO Presidente e fundador da Obewise Entertainment Network, escritor, biomédico e amante de jogos eletronicos, mais precisamente DOTA 2. Redator do site e artista na Obewise Radio Network.

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