Quando se fala em mangá de terror, o nome de Junji Ito é sempre mencionado. O mangaká é uma referência nesse gênero. Suas obras não têm limites de criatividade. Ao longo de sua carreira já publicou muitos contos/histórias curtas. Vários deles podem ser encontrados no recentemente lançado Box dos Horrores Junji Ito: Fragmentos do Horror e Contos de Horror da Mimi (DarkSide Books, 2025). Esse box reúne duas coletâneas: Fragmentos do Horror (DarkSide Books, 2017) e Contos de Horror da Mimi (DarkSide Books, 2022).

Fragmentos do Horror
Fragmentos do Horror (Ma no Kakera, título original em japonês) é uma coletânea de 8 contos. Os contos foram publicados originalmente em série na revista Nemuki+ entre abril de 2013 e fevereiro de 2014, em sete contos separados, com um oitavo sendo adicionado para o lançamento do volume encadernado (tankōbon). Quando do lançamento de Fragmentos do Horror, fazia 8 anos que Junji Ito não produzia uma obra no gênero horror.


Abaixo uma breve descrição de cada um dos contos, evitando dar spoiler para aqueles que ainda não leram.
Futon. Tomio, se recusa a sair de seu futon por medo de “espíritos malignos da natureza” que ele diz estarem por toda parte. O personagem Tomio aparece aqui e novamente no 3º conto “Tomio · Gola rulê vermelha”.

Monstro de madeira. A casa de Megumi foi recentemente designada Patrimônio Cultural Tangível. Certo dia, uma mulher chamada Manami Kino a visita para ver a casa, na esperança de usá-la para sua aula de arquitetura. Alegando estar encantada com a casa, que ela chama de “sexy”, ela pergunta se pode se hospedar lá, e o pai de Megumi concorda.
Tomio · Gola rulê vermelha. Aqui vemos novamente Tomio, e sua agora ex-namorada Madoka, personagens do conto “Futon”. Tomio chega ao apartamento Madoka implorando por ajuda. Tomio estava se relacionando com uma vidente, que declara estar apaixonada pela cabeça dele e pergunta se pode ficar com ela, arrancando um dos próprios cabelos e começando a estrangulá-lo. Depois que ele a faz parar, ela lhe dá um suéter de gola alta para esconder a marca.

Suave adeus. Após a morte de sua mãe quando ainda era jovem, Riko passou a ser atormentada por pesadelos com a morte de seu pai. Depois de se casar com Makoto, ela percebe que alguns de seus parentes mais velhos são translúcidos, como fantasmas. Ele explica que são o que sua família chama de “imagens residuais”, um fenômeno psíquico criado pelas orações da família.
Dissecação-chan. Tatsuro Kamata é um estudante de medicina em treinamento de dissecação. No primeiro dia, descobre que um dos cadáveres está vivo e implora para ser dissecado antes de fugir do laboratório. Tatsuro a reconhece como Ruriko Tamiya, a quem conheceu na infância e que tinha uma fixação anormal por vivissecção.
Pássaro negro. Um observador de pássaros chamado Kume encontra um homem na floresta com as duas pernas quebradas. No hospital, a polícia interroga o homem, chamado Shiro Moriguchi, sobre como ele sobreviveu na natureza naquela condição por um mês. Ele afirma ter racionado sua comida, mas pede a Kume que fique com ele naquela noite. Durante a noite, Kume acorda e vê uma mulher estranha vestida de preto alimentando Shiro com carne crua boca a boca.
Magami Nanakuse. Kaoru Koketsu é uma fã devota da romancista Magami Nanakuse, conhecida pelas peculiaridades únicas que atribui aos seus personagens. Kaoru se orgulha de supostamente possuir peculiaridades semelhantes às dos personagens de Nanakuse. Depois de enviar uma carta à escritora, ela é convidada a encontrá-la em sua casa, onde Nanakuse a acusa de ser uma “impostora de peculiaridades”.
A mulher que sussurra. Mayumi sofre de uma forma grave de ansiedade que se manifesta como abulomania. Incapaz de tomar até mesmo a menor decisão sem entrar em pânico, ela depende de outros para dirigir cada movimento seu. Uma mulher chamada Mitsu Uchida se mostra muito habilidosa em instruir Mayumi por meio de terapia comportamental e nunca tira um dia de folga, ficando muito pálida e magra no processo, enquanto sussurra constantemente no ouvido de Mayumi.
Contos de Horror da Mimi
Contos de Horror da Mimi (Mimi no Kaidan Kanzenban, título original em japonês) foi publicado originalmente no Japão em série na revista Comic Flapper, entre junho de 2002 e abril de 2003. É uma adaptação em mangá da obra original Shin Mimibukuro, de Ichiro Nakayama e Horokatsu Kihara. A obra original é uma coletânea de histórias contemporâneas de terror e mistério, composta de 10 volumes contendo 99 histórias. Cada volume é chamado de “Noite”. Junji Ito relata no posfácio em formato de mangá, onde se autorretrata, que seu editor lhe deu total liberdade para adaptar da forma que quisesse. Contos de Horror da Mimi é uma coletânea de 9 contos. Os contos têm Mimi como personagem principal, que parece fadada a se deparar com fenômenos estranhos e assustadores. Quase sempre seu namorado aparece como um contraponto cético ao que Mimi está experenciando.


Abaixo uma breve descrição de cada um dos contos.
A Coisa em Cima do Poste. Mimi está dirigindo em um dia de chuva quando avista uma “criatura” no topo de um poste. Curto, com apenas 4 páginas.
A Vizinha. Mimi vive em uma habitação coletiva quando a ida ao andar de cima para reclamar do barulho faz com que ela entre em contato com uma misteriosa vizinha.

O Barulho na Relva. Mimi está caminhando no bosque quando se depara com o cadáver de uma mulher enforcada.
Na Companhia dos Túmulos. Mimi se mudou para um apartamento onde a varando da de frente com um cemitério. O barulho durante a noite a mantém acordada, vendo no outro dia que as lápides estão viradas.
A Praia. Mimi vai á praia no verão com amigos. Dormindo no carro, á noite ela vê uma pessoa andando com o corpo apodrecido e encharcado. A atendente do bar diz que estas coisas aparecem porque ocorreram muitos afogamentos ali.

A Sós com Ela. Mimi volta á casa dos paia para visitá-los e descobre que estão cuidando de uma pequena menina que perdeu a mão recentemente. Manchas de sujeiras começam a aparecer pela casa e parecem estar ligadas à menina.
O Círculo Carmesim. Mimi vai à casa de uma amiga onde descobriram um cômodo secreto. Esse cômodo tem uma mancha em forma de círculo que parece aumentar a medida que pessoas desaparecem.

A Placa no Campo. Mimi está andando por um caminho no meio da lavoura quando se depara com uma placa. A sombra da placa chama a atenção.
O Boneco de Assombração. Este conto aparece pela primeira vez na reedição de Contos de Horror da Mimi (a versão brasileira publicada pela DarkSide Books é uma tradução dessa reedição). Não tem a personagem Mimi. E tem as 2 páginas iniciais coloridas. Sakurai começou a trabalhar em uma empresa de eventos que usa bonecos de assombração para criar casa mal-assombrada em parque de diversões.
Análise dos elementos que constituem a obra
Roteiro: Em Fragmentos do Horror, Junii Ito mostra que não tem limites em sua criatividade. Todos os contos têm peso e intensidade. Levando o leitor por caminhos surpreendentes. Já em Contos de Horror da Mimi, com Junji Ito criando um roteiro adaptado para mangá a partir da obra original, apesar de ter tido total liberdade, se mostra limitado na maioria dos contos. Alguns deles acabam se mostrando simplesmente sem graça, enquanto outros são realmente muito bons.
Ilustração: A arte de Junji Ito é consistentemente sempre impressionante. É um traço muito claro e preciso. Com personagens e ambientes “límpidos” contrastando ainda mais com as monstruosidades criadas por Junji Ito.
Aqui cabe salientar a qualidade do material publicado pela DarkSide Books. A arte que forma o exterior e o interior do box é uma composição de várias cenas encontradas nos contos de Fragmentos do Horror. A qualidade do material em capa dura dos encadernados é incrível. As artes das capas e contracapas são compostas por imagens claramente em evidência e outras imagens subjacentes (e assustadoras) que só podem ser visualizadas observando mais de perto e de certos ângulos.

Autores

Junji Ito, roteiro e ilustração em Fragmentos do Horror; roteiro adaptado e ilustração em Contos de Horror da Mimi. Nasceu em 1963 na província de Gifu, Japão. Enquanto trabalhava como técnico de prótese dentária, enviou seu mangá para concorrer ao Prêmio Umezu, promovido pela Gekkan Halloween (Asahi Sonorama). Em 1986, Tomie recebeu a menção honrosa. A obra marcou sua estreia. É reconhecido como um dos maiores artistas contemporâneos dos mangás de terror. As influências de Ito incluem os artistas de mangá de horror clássico Kazuo Umezu e Hideshi Hino, assim como os autores Yasutaka Tsutsui e H.P. Lovecraft.
Prêmios:
– 2019 – Prêmio Eisner, na categoria Melhor Adaptação em Quadrinhos por Frankestein.
– 2021 – Prêmio Eisner na categoria Melhor Edição estadunidense de Material Estrangeiro Asiático por Planeta Demoníaco Remina.
– 2021 – Prêmio Eisner na categoria Melhor Roteirista/Artista por Vênus Invisível – Coleção de Histórias Curtas: O melhor de Junji Ito.
– 2022 – Prêmio Eisner na categoria Melhor Edição estadunidense de Material Internacional – Ásia por Mortos de Amor.
– 2023 – Prêmio Inkpot durante a San Diego Comic-Com pelo conjunto da obra em vida.
Hirokatsu Kihara, roteiro original da obra que originou Contos de Horror da Mimi. Nasceu em 1960, em Hyogo, Japão. Depois de graduar-se na Universidade de Artes de Osaka e trabalhar na Top Craft, estúdio de animação que produziu Nausicaä do Vale do Vento, ingressou no recém-fundado Studio Ghibli, onde atuou na produção de Meu Amigo Totoro e O Serviço de Entregas da Kiki. É coautor de Shin Mimibukuro.
Ichiro Nakayama, roteiro original da obra que originou Contos de Horror da Mimi. Nasceu em 1959, em Hyogo, Japão. É graduado pela Universidade de Artes de Osaka. Estreou como escritor com Shin Mimibukuro – Anata no Tonari no Kowai Hanashi (Novo Mimibukuro – Histórias Assustadoras Próximas a Você, em tradução livre), em 1990, concebido em coautoria com Hirokatsu Kihara, com quem lançou a série Shin Mimibukuro em 1998. É autor de outras obras relacionadas ao tema kaidan.
Tradutoras
Akemi Ono: Fragmentos do Horror.
Jéssica Ilha da Silva: Contos de horror da Mimi.
Outra obra de Junji Ito pela DarkSide Books
– Olhares (2025).
Reflexões finais
O terror ou horror é um gênero cujas obras são criadas com intuito de causar medo, aterrorizar. Ele está presentes em todas as formas de arte. E no mangá há um autor que se tornou icônico: Junji Ito. Seu traço limpo e preciso, contrastam com sua imaginação e criatividades sem limites para criar monstruosidades, cenas assustadoras e perturbadoras. Os contos agrupados nas duas coletâneas que compões o Box dos Horrores Junji Ito permitem uma boa viagem ao desconhecido com o icônico mangaká.
Em Fragmentos do Horror, podemos ver que a obsessão acaba sendo o foco da maioria de seus contos. É a obsessão que acaba sendo a força motriz que leva os personagens ao longo das tramas. E em se tratando de cenários, o próprio Junji Ito parece ter uma obsessão com casas. Elas parecem ter grande importância para o mangaká, já que quase todos os seus contos presentes aqui se passam no interior de uma, indo até o ponto de uma delas ser um personagem de fato.
E é marcante a escolha de fazer a capa de Fragmentos do Horror como uma referência direta a obra “O grito”. O Grito (em norueguês: Skrik) é uma pintura de 1893, do norueguês Edvard Munch. A obra representa uma figura andrógina num momento de profunda angústia e desespero. Aqui substituída pelo personagem Tomio, no conto Tomio · Gola rulê vermelha.

É também oportuno o Box dos Horrores colocar lado a lado uma obra original de Junji Ito e outra obra que é uma adaptação para o mangá. E nesse ponto vemos que em Contos de Horror da Mimi, Junji Ito não apresenta a mesma força de roteiro habitual em vários desse contos. Talvez por tentar não divergir demasiadamente da obra original. Ainda assim “A Praia” e “A sós com ela” são contos perturbadores, bastante pesados. Mostrando toda a habilidade de Junji Ito em causar uma série de sentimentos mais profundos associados ao terror.
O Box dos Horrores mostra que Junji Ito tem uma força criativa única para dar “vida” ao terror nas páginas de um mangá. Lidando tanto com o psicológico quanto com o “body horror”, muitas das cenas criadas por ele nesses contos vão ficar marcadas na mente do leitor.
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