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Machado de Assis ganha vida em game noir com loop temporal

A Investigação Póstuma surge como um divisor de águas no cenário indie brasileiro, desenvolvido pela a Mother Gaia Studio e publicada pela CriticalLeap em parceria com a Infini Fun, essa releitura audaciosa de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, chega resgatando o formato clássico de adventure point-and-click ambientado em um cenário noir no Rio de Janeiro de 1937.

O jogo oferece mais de 10 horas de imersão em um loop temporal viciante, em que o detetive recebe a missão diretamente do fantasma da vítima para desvendar seu assassinato em um único dia, reiniciando à meia-noite com todo o saber acumulado até apontar o culpado exato entre 14 personagens intrincados.

Machado de Assis reinventado como game

A narrativa agarra desde o prólogo, com Brás Cubas, o narrador póstumo cético e irônico do romance original, materializando-se como cliente espectral, enviando uma carta enigmática que prende o investigador em um purgatório cíclico na opulenta mansão aristocrática e nas ruas adjacentes de um Rio sombrio e decadente.

A Investigação Póstuma

Ao longo dos loops diários das 9h às 23h59, o jogador decifra rotinas autônomas de suspeitos que ecoam o vasto universo literário de Machado de Assis, de figuras paranoicas a iludidas, coletando depoimentos cheios de furos, pistas materiais e oportunidades para intervenções sutis que alteram o fluxo dos eventos. Temas como mortalidade, insanidade, fragilidades mentais e vícios cotidianos, de garrafas de uísque a cigarros intermináveis, são dissecados com a acidez não gráfica, mas incisiva de Machado, levando a reviravoltas que questionam a natureza humana em camadas cada vez mais profundas.

O que inova de verdade é o mundo literário vivo, num organismo dinâmico em que os 14 NPCs orbitam em agendas independentes, tecendo interações espontâneas, fofocas e alianças que evoluem organicamente, independentemente do ritmo do jogador, transformando o que poderia ser repetitivo em uma teia de descobertas imprevisíveis e manipulações engenhosas, como sabotar um encontro ou plantar dúvidas em mentes frágeis. Sem tutoriais ou dicas óbvias, o jogo aposta na autonomia intelectual, com uma demo introdutória perfeita para provar o conceito e recursos extras como conquistas que premiam criatividade e persistência, elevando o adventure clássico a um patamar de puzzle narrativo raro e viciante.

A Investigação Póstuma

A adaptação das Memórias Póstumas de Brás Cubas para o meio dos games surge como um golpe de mestre cultural, subvertendo a estrutura revolucionária do livro, narração fragmentada do além-túmulo, povoada por interrupções narrativas sarcásticas sobre vaidades burguesas e o absurdo da existência, em um thriller interativo que reposiciona Brás como vítima passiva e o detetive como narrador ativo, forçado a escavar verdades que o original apenas insinua.

Loop temporal que sustenta a investigação

O “Machadoverso” ganha espaço ao longo do jogo com ecos de Bentinho e Capitu de Dom Casmurro, trazendo ciúmes venenosos, o Dr. Simão Bacamarte, de O Alienista, com experimentos éticos duvidosos, e Rubião, de Quincas Borba, vagando em delírios filosóficos, todos recriados como suspeitos em um Rio de 1937 que atualiza o século XIX para um noir chuvoso, alfinetando com humor negro as hipocrisias da elite carioca. Puzzles com linha do tempo e contradições espelham fielmente a astúcia de Machado, com cada conexão lógica capaz de evocar os monólogos internos do autor, fomentando não só resolução, mas reflexão profunda sobre destino, traição e a ilusão da justiça, tornando a experiência um portal vivo para o realismo psicológico brasileiro que obriga debates eternos entre jogadores e literatos.

A Investigação Póstuma

A jogabilidade no estilo point-and-click puro acaba se tornando um dos principais pontos positivos pela profundidade com exploração irrestrita de cenários multifacetados e pontos de interesse que se metamorfoseiam conforme a hora avança. Uma gaveta trancada de dia vira cofre de segredos à noite, enquanto interrogatórios florescem em árvores dialógicas vastas, liberadas apenas pelo acúmulo de informações obtidas em loops anteriores, como confrontar um álibi após testemunhar o mentiroso em apuros.

Manipulações pelo ambiente elevam o nível, permitindo que você distraia um porteiro para invadir um quarto, atrase um coquetel com uma entrega falsa ou sincronize encontros improváveis entre rivais para flagrar explosões reveladoras, frequentemente demandando diversos ciclos por assassinato, com efeitos em cadeia. O Quadro de Investigação serve como um tabuleiro dedutivo magistral, para que você arraste evidências, linhas temporais e inconsistências para tecer uma teia de conhecimento, inclusive para que uma acusação falha seja apenas uma etapa para refinamento, mas o acerto oferece aquela sensação de domínio narrativo que poucos games igualam.

A Investigação Póstuma

Os controles fluem através de cliques precisos para navegar entre as perspectivas em 2.5D, interagir em múltiplas camadas para examinar, dialogar, coletar, além de zoom para verificar detalhes, como marcas de batom em copos ou ponteiros de relógios suspeitos, e atalhos para alternar entre inventário, quadro e mapa, tudo sem complicar ou interrupções, permitindo imersão total nas partidas e fazendo com que cada interação vira peça de um mosaico maior, priorizando a pureza da dedução sobre firulas desnecessárias.

Atmosfera noir em som e arte

A direção de arte monocromática, feita à mão e em estilo cartoon noir com o drama sombrio de filmes mudos, cria um Rio de Janeiro de 1937 como um personagem vivo e satírico. Mansões art déco abarrotadas de relógios cíclicos simbolizando o purgatório, vielas encharcadas de chuva onde mendigos machadianos murmuram profecias, farmácias grotescas com frascos venenosos e clubes enfumaçados pulsando com intrigas elitistas, cada sombra hachurada e silhueta alongada carregando camadas de ironia social. Tudo muito bem criado e colocado em seu caminho para ser explorado.

A Investigação Póstuma

Detalhes como expressões exageradas, com olhos esbugalhados de culpa, sorrisos falsos de aristocratas, e animações para gestos cotidianos capturam o exagero literário de Machado de Assis, com luzes dinâmicas que seguem o ciclo solar para transições poéticas de calmaria diurna a tensão noturna, construindo uma estética que não precisa de cores para hipnotizar. A trilha sonora surpreende positivamente com bossa nova melancólica com interferência do jazz e dedilhados solitários de piano, evoluindo em harmonias que espelham o passar das horas, pontuando diálogos e epifanias com silêncios.

A Investigação Póstuma não é apenas um jogo, mas um portal vibrante para o brilhantismo de Machado de Assis, em que o point-and-click noir combina perfeitamente com loops dedutivos em uma sinfonia de inteligência e sátira que honra o Brasil em sua totalidade em talento e capacidade, da literatura aos games, entrelaçando perfeitamente o clássico ao geek como nunca antes.

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Nota final: 5/5


























Avaliação: 5 de 5.

Acesse o site oficial do jogo.

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Fagner Lopes

CEO Presidente e fundador da Obewise Entertainment Network, escritor, biomédico e amante de jogos eletronicos, mais precisamente DOTA 2. Redator do site e artista na Obewise Radio Network.

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