O novo filme da Supergirl chega como uma aposta ousada da DC Studios que, em vez de tratar Kara Zor-El como uma simples prima do Superman, coloca a personagem no centro de uma jornada espacial marcada por traumas, vinganças e descobertas pessoais. Dirigido por Craig Gillespie e com roteiro escrito por Ana Nogueira, o longa aproveita a força de Supergirl: Mulher do Amanhã, graphic novel da brasileira Bilquis Evely em parceria com Tom King, para entregar uma versão mais intensa e interessante da heroína.
A estreia no Brasil acontece em 25 de junho de 2026, com distribuição da Warner Bros. Pictures, e desde o começo fica claro que a proposta aqui não é repetir fórmulas, muito menos de tentar fazer uma versão feminina do Superman. Este filme busca falar sobre perdas, identidade e resistência, tudo isso sem abrir mão da escala cósmica que combina tão bem com a personagem.
Uma heroína mais humana
Milly Alcock assume o papel de Kara Zor-El com uma abordagem que foge do estereótipo da heroína impecável, com uma Supergirl que carrega cansaço, ironia e uma espécie de desencaixe constante, como se ainda estivesse tentando entender o próprio lugar no universo. Isso dá ao personagem uma camada dramática que faz diferença, principalmente porque a narrativa não tenta suavizar suas contradições.

Essa escolha é um dos maiores trunfos do filme. Em vez de apostar numa figura perfeita e luminosa, Supergirl prefere explorar uma jovem que cresceu sob a sombra da destruição e que enxerga o mundo de maneira menos ingênua. O resultado é uma protagonista mais complexa, que se encaixa muito melhor no tom da história, inclusive contrapondo o recente filme do Superman.
A trama acompanha Kara em uma viagem pelo espaço ao lado de Ruthye Marye Knoll, interpretada por Eve Ridley, numa busca por justiça contra Krem das Colinas Amarelas. O que poderia ser só uma aventura de vingança se transforma em algo mais emocional, porque o filme entende que essa jornada também é sobre sobrevivência, perda e o peso de continuar em frente.

Ruthye funciona como contraponto essencial, pois ela não está ali apenas para empurrar a história, mas para ancorar Kara num tipo de humanidade que a heroína tenta esconder o tempo todo. Essa relação é o coração do filme e ajuda a manter a narrativa interessante mesmo quando o espetáculo visual assume o controle.
Elenco e atuação de peso
Milly Alcock tem o tipo de presença que faz a personagem parecer viva mesmo nas cenas mais contidas. Ela consegue transmitir vulnerabilidade sem transformar Kara em alguém passivo, o que é fundamental para uma Supergirl que precisa ser tanto quebrada quanto forte.

Eve Ridley também merece destaque como Ruthye, porque entrega uma energia firme e emocional que equilibra bem o caos da protagonista. Matthias Schoenaerts, por sua vez, dá a Krem uma presença ameaçadora suficiente para sustentar o conflito, enquanto Jason Momoa aparece como Lobo com o tipo de exagero que o personagem pede. David Krumholtz e Emily Beecham completam o núcleo com a gravidade necessária para reforçar a dimensão familiar da personagem.

Se no filme de 1978, Christopher Reeve surgiu com a promessa de que o mundo inteiro acreditaria que um homem era capaz de voar, Milly Alcock ocupa um lugar importante em Supergirl, ao lado dos demais membros do elenco, para provar que sua atuação é a oportunidade das novas gerações, principalmente feminina, em acreditar que as mulheres também podem voar, mas que seu heroísmo está muito além dos superpoderes e intrínseco em sua humanidade e força.
DCU acertou em cheio
Para quem leu Supergirl: Mulher do Amanhã, lançado no Brasil pela Editora Panini, fica evidente como o filme bebe da estética e da sensibilidade de Bilquis Evely. A HQ é uma das releituras mais elegantes e impactantes da personagem nos quadrinhos recentes, justamente porque combina delicadeza visual com uma narrativa emocionalmente brutal, criando uma dualidade que parece ter sido absorvida pelo filme de forma muito inteligente.

Esse diálogo com Bilquis Evely é talvez o elemento mais valioso da adaptação. A artista ajudou a consolidar uma imagem de Supergirl que não depende de idealização, mas de presença. Sua arte carrega delicadeza e peso na mesma medida, e o filme parece compreender que essa combinação é justamente o que torna Kara tão fascinante. Ao levar essa essência para as telas, a produção ganha personalidade e evita parecer apenas mais uma extensão genérica do universo da DC, mesmo quando o filme se distancia da obra original.
Craig Gillespie dirige tudo com uma mistura de energia e estranhamento que combina com a proposta. Há espaço para humor, violência, melancolia e grandiosidade, sem que o filme pareça desmontar sua própria identidade. No fim, o que ele entrega é uma Supergirl mais adulta, mais intensa e mais pronta para ocupar seu próprio espaço no novo DCU.

Supergirl se destaca por apostar em uma heroína que sangra, reage e amadurece diante do absurdo. É um filme que parece saber que a força de Kara Zor-El não está em ser perfeita, mas em continuar avançando mesmo quando tudo ao redor insiste em quebrá-la. E, ao fazer isso, a DC Studios entrega uma das leituras mais interessantes da personagem em anos.




