Quando somos crianças, e estamos brincando, tudo o que queremos é que a brincadeira nunca acabe. E se pudéssemos permanecermos crianças para sempre, eternamente brincando? Jeff Lemire e Dustin Nguyen nos dão um vislumbre dessa possibilidade em Little Monsters (Pequenos Monstros, em tradução direta).


Little Monsters Vol. 1 (DarkSide Books, 2023) e Vol. 2 (DarkSide Books, 2025) contam a história de crianças vampiras vivendo em um mundo em ruínas. Elas vivem brincando, acreditando que apenas elas restaram da humanidade, enquanto aguardam o retorno dos anciões (ou antigos). Até que descobertas dramáticas desequilibram e dividem o grupo.

Little Monsters foi originalmente publicado pela Image Comics nos EUA entre 2022 e 2023, em 13 edições.

Passagem do tempo
Considerando que os personagens principais de Little Monsters são crianças vampiras, é inevitável que a passagem do tempo seja um elemento central na trama. O andamento da trama faz uso de flashbacks de vários períodos no passado intercalados para dar ênfase alternadamente a origem de cada uma das crianças. Eventos históricos marcantes são utilizados para marcar essa passagem do tempo.
A noção de profundidade temporal é sentida pelo leitor principalmente quando essas crianças mencionam que nem ao menos se lembram de há quanto tempo são vampiras e nem de há quanto tempo estão naquela cidade. Visualmente isso também é sentido pelo leitor quando a cidade é mostrada de um ângulo aberto, e praticamente todos os prédios têm os desenhos de Romie.
Referências, inspirações e obras similares
Little Monsters faz algumas referências diretas através de nomes presentes na obra. Como o nome Wong Kar-wai em uma placa de trânsito, fazendo referência ao famoso cineasta. Além de referências a personagens da DC: Billy e Bats, fazendo referência a Billy Batson, alter ego do super-herói Shazam; e Ronnie e Raymond, fazendo referência a Ronnie Raymond, um dos alter egos do super-herói Firestorm (Nuclear, no Brasil).
E, como salientado na própria contracapa, Little Monsters evoca Peter Pan, O Senhor das Moscas e Garotos Perdidos. Obras que giram em torno de: isolamento e ausência de adultos; a figura do líder carismático e perigoso; lado selvagem da infância e a perda da inocência.
Esses temas podem ser observados também em outras obras, como o episódio “Miri” de 1966, em Star Trek série clássica. E em Les Enfants Perdus (de Neyef).
Por fim, o nome Little Monsters dá título a obras que não tem nenhuma relação com a criação de Jeff Lemire e Dustin Nguyen.
– Little Monsters, livro de Adrienne Brodeur (2023).
– Little Monsters, filme de Abe Forsythe (2019).
– Little Monsters, livro de Kara Thomas (2017).
– Little Monsters, filme de Richard Greenberg (1989).
Análise dos elementos que constituem a obra
Roteiro: O roteiro é hábil em transmitir uma trama onde os personagens estão vivos há muito tempo ao mesmo tempo que em tudo transcorre rapidamente de uma forma fluida. Os flashbacks se inserem naturalmente ao longo do andamento dos acontecimentos presentes.
Arte: A arte utiliza traços que, ao demonstrarem certa liberdade no acabamento, transmitem a sensação de “algo que existe há muito tempo”. A arte em si é em preto e branco, com colorização pontual em elementos chave: a lua, sangue, e os desenhos de Romie.




Autores

Jeff Lemire é um roteirista premiado e best-seller do New York Times.
Demais obras:
– Absolute Flash
– Ascender
– Black Hammer
– Condado de Essex
– Descender
– Fishflies
– Gideon Falls
– Minor Arcana
– O Soldador Subaquático
– Plutona
– Royal City
– Sweet Tooth
– Trillium
Prêmios:
– (2022): Eisner Award. Melhor Quadrinho Digital (Snow Angels).
– (2019): Eisner Award. Melhor Série Nova (Gideon Falls).
– (2018): Joe Shuster Award. Melhor Cartunista.
– (2018): YALSA Alex Award (Royal City).
– (2017): Eisner Award. Melhor Série Nova (Black Hammer).
– (2017): Joe Shuster Award. Melhor Roteirista (Outstanding Writer).
– (2016): Joe Shuster Award. Melhor Roteirista (Outstanding Writer).
– (2013): Joe Shuster Award. Melhor Cartunista.
– (2008): Joe Shuster Award. Melhor Desenhista/Cartunista (Outstanding Cartoonist).
– (2008): YALSA Alex Award (Condado de Essex).
– (2008): Doug Wright Award. Melhor Novo Talento (Best Emerging Talent).
– (2005): Xeric Award (Lost Dogs).

Dustin Nguyen trabalha na indústria de quadrinhos desde 2000, produzindo arte conceitual e design de personagens, além de ser um artista sequencial. Além dos quadrinhos, Dustin também atua, paralelamente, como artista conceitual para brinquedos e produtos de consumo, jogos e animação.
Demais obras:
– American Vampire: Lord of Nightmares
– Ascender
– Batgirl
– Batman
– Batman Beyond
– Batman: L’il Gotham
– Batman: Streets of Gotham
– Descender
– Detective Comics
– Friday the 13th
– Justice League Beyond
– Justice League: Generation Lost
– Manifest Eternity
– Scholastic’s DC Comics: Secret Hero Society
– Superman/Batman
– Supernatural
– The Authority Revolution
– What is it
– Wildcats
Prêmios:
– (2019) Eisner Award. Melhor Artista Multimídia / Pintor em Páginas Internas (Best Painter/Multimedia Artist) pela continuação de Descender.
– (2016) Eisner Award. Melhor Artista Pintor / Artista Multimídia (Best Painter/Multimedia Artist) por Descender.
Tradução

Dandara Palankof é uma jornalista, tradutora e editora de quadrinhos brasileira. Graduada em Rádio e TV pela Universidade Federal de Pernambuco, foi responsável pela tradução para o português de diversas HQs, como Estranhos no Paraíso, Inimigos Mortais e Tempos de Colégio. Foi curadora da 7ª Bienal de Quadrinhos de Curitiba. Em 2021 foi coeditora da oitava edição da revista Ragu.
Prêmio:
– (2022) 34º Troféu HQ Mix na categoria de Melhor projeto editorial.
Reflexões finais
Quando somos crianças, e estamos brincando, tudo o que queremos é que a brincadeira nunca acabe. Mas ela acaba, porque a infância acaba, porque em algum momento algo se perde: a inocência. Este fato recorrente na vida de todos os humanos é o que também acontece com as crianças vampiros em Little Monsters, mesmo que tenha demorado centenas de anos a mais.
Apesar do aspecto decadente das ruínas da cidade, sob o aspecto psicológico as crianças estavam vivendo em um paraíso, em plena harmonia, até que um agente externo adentra este paraíso e desestabiliza o equilíbrio existente. Um paralelo que pode ser feito com a ecologia. Quando populações de organismos vivem em equilíbrio em um determinado ambiente, e uma espécie invasora pode levar ao declínio de todas as espécies que ali estavam. O que ocorre então não é apenas a perda da inocência, mas a perda do equilíbrio “natural” que elas haviam atingido.
Mas é importante lembrar uma frase que foi dita em determinado momento da trama: “… para eles sempre foi noite, mesmo antes…”. Todas as crianças de Little Monsters tiveram suas infâncias, enquanto humanas, bastante traumáticas. O vampirismo, normalmente retratado como uma maldição, surge como um bote salva-vidas para estas crianças. Que paradoxalmente puderam finalmente serem crianças só após terem sido transformadas em vampiros.
Little Monsters faz o leitor ficar com o “coração apertado” enquanto acompanha incapaz as crianças se perderem, sem nenhum adulto por perto que possa levá-las em segurança de volta ao caminho que seguiam. É certo que é necessário crescer em algum momento, mas uma perda de inocência traumática não é um crescimento: é uma ruptura. Uma possível ruptura com o potencial que aquelas crianças algum dia tiveram, e que agora só lhes resta o caminho do declínio.
Ao terminar a leitura fica aquela sensação de…será que o que ocorreu poderia ter sido evitado? …Para sempre?
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