O governo de Donald Trump autorizou testes de uma arma militar que provoca uma intensa sensação de calor na pele para afastar pessoas sem disparar munição convencional. Conhecido como Active Denial System (ADS), o equipamento poderá ser avaliado para um possível uso na fronteira entre os Estados Unidos e o México.
A autorização foi concedida pelo secretário de Defesa, Pete Hegseth, ao Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos (DHS). O acordo prevê o empréstimo temporário de um equipamento por sete meses, a partir de setembro de 2026.
Isso não significa que a arma já esteja sendo utilizada contra migrantes. A autorização permite que as autoridades testem o sistema e desenvolvam procedimentos para um eventual emprego em operações de fronteira. Ainda não foram divulgados detalhes sobre onde os testes acontecerão nem como o equipamento poderá ser utilizado.
Como funciona a arma de calor dos Estados Unidos?
Apesar de ser popularmente chamada de heat ray, ou raio de calor, a arma não funciona como um laser convencional. Ela utiliza ondas eletromagnéticas milimétricas de 95 GHz para provocar um aquecimento intenso na superfície da pele.
O sistema foi desenvolvido para atingir pessoas a distâncias de até aproximadamente mil metros. Quando o feixe alcança o alvo, a energia provoca uma sensação semelhante à de se aproximar demais da abertura de um forno muito quente.
O desconforto faz com que a pessoa tente sair da área atingida. Segundo informações técnicas divulgadas pelos militares americanos, a sensação normalmente desaparece após a interrupção da exposição, podendo durar entre 10 e 15 minutos.
A tecnologia foi concebida como uma alternativa não letal para controle de multidões, proteção de perímetros e dispersão de pessoas em determinadas situações.
Entretanto, a classificação como não letal não significa que o equipamento seja inofensivo. Há registros de queimaduras de segundo grau em incidentes anteriores relacionados ao sistema, o que reforça a importância de estabelecer limites para sua utilização.
Trump pretende usar a tecnologia contra migrantes?
O possível emprego do equipamento na fronteira é uma das principais preocupações relacionadas à autorização.
Autoridades americanas já haviam discutido anteriormente a possibilidade de utilizar o sistema para dispersar grupos de pessoas ou desencorajar travessias irregulares. A ideia voltou a ganhar força durante o atual governo, que tem priorizado o reforço da segurança na fronteira sul.
A possibilidade de utilização, porém, ainda precisa ser definida. A agência de Alfândega e Proteção de Fronteiras dos Estados Unidos (CBP) afirmou que avalia continuamente novas tecnologias para ampliar a segurança e a eficácia de suas operações.
O documento que autorizou o empréstimo determina que o próprio DHS será responsável pelo emprego do sistema e pelo desenvolvimento dos procedimentos operacionais. Integrantes do Departamento de Defesa não deverão operar diretamente o equipamento durante esse período.
Também existem preocupações com a segurança de pessoas que poderiam ser atingidas durante uma operação. Em regiões próximas a rios ou terrenos perigosos, por exemplo, uma tentativa de fuga provocada pelo desconforto poderia criar outros riscos.
A arma pode provocar queimaduras?
Embora o sistema tenha sido projetado para provocar um efeito temporário, a exposição inadequada pode causar lesões.
A energia utilizada pelo ADS interage com moléculas presentes na pele, produzindo aquecimento superficial. Em condições controladas, o efeito é reversível. Entretanto, a segurança depende de fatores como a duração da exposição, a distância e o funcionamento correto do equipamento.
Incidentes registrados durante testes anteriores incluíram queimaduras de segundo grau. Por isso, o risco não pode ser descartado simplesmente porque a tecnologia foi desenvolvida como uma alternativa às armas letais.
O sistema também levanta questões sobre o uso proporcional da força. Aplicar uma tecnologia projetada para causar dor intensa contra grupos de civis exige regras claras, treinamento e mecanismos de fiscalização.
Até o momento, não foram divulgados detalhes suficientes para avaliar como essas questões serão tratadas nos possíveis cenários de utilização na fronteira.
Tecnologia militar ganha espaço no controle de fronteiras
A autorização representa mais um exemplo de como tecnologias originalmente desenvolvidas para aplicações militares podem ser consideradas em operações de segurança interna.
O ADS foi criado para oferecer às forças de segurança uma alternativa aos métodos tradicionais de dispersão. Ao longo dos anos, o equipamento passou por demonstrações e avaliações, mas seu emprego operacional permaneceu limitado.
Agora, o governo americano pretende examinar sua possível utilização em um contexto diferente, envolvendo a fiscalização da fronteira e o controle de travessias.
O resultado dos testes poderá ajudar a determinar se a tecnologia será considerada adequada para esse tipo de operação. Até lá, permanecem em aberto questões importantes sobre sua eficácia, seus riscos e as circunstâncias em que poderia ser utilizada.
Fontes:
CNN, transcrição da notícia de 21 de outubro de 2026
Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos explica o Active Denial System
Government Accountability Office explica as armas de energia dirigida
Active Denial System em vídeo, publicado pelo Departamento de Defesa
The Guardian aborda a autorização para testar o equipamento na fronteira




