Quando falamos em RPGs japoneses, os famosos JRPGs, existe um pilar fundamental que sustenta quase tudo o que veio depois, e esse pilar se chama Dragon Quest. No entanto, entre tantos títulos lendários, o sétimo capítulo sempre ocupou um lugar curioso, sendo amado por sua profundidade e temido por sua extensão gigantesca (ainda mais para a época).
Em 2026, sob o desenvolvimento cuidadoso da Hexadrive e publicação da Square Enix, Dragon Quest VII Reimagined chega como uma reinvenção audaciosa que se compromete em não apenas em polir, mas em redefinir completamente a experiência desse clássico para a era moderna. Uma oportunidade de ouro para que finalmente a nova geração descubra o motivo desse experimento narrativo merecer tanto carinho e atenção.
Um mundo fragmentado para ser reconstruído
A premissa de Dragon Quest VII sempre foi uma das mais intrigantes e melancólicas da série, e em Reimagined isso ganha um peso narrativo ainda maior. Você assume o papel de um jovem filho de pescador na pacífica e isolada ilha de Estard, na companhia de Kiefer e Maribel, seus amigos de infância, acreditando que aquele pedaço isolado de terra é toda a existência conhecida. Quando um fragmento de mapa misterioso é descoberto, com ele também surge uma simples pergunta: será que existe algo além dessa ilha? A resposta vem através da descoberta do Shrine of Mysteries, um santuário que atua como um portal não para outros lugares, mas para outros tempos. Lá, você descobre a verdade chocante sobre continentes inteiros selados e removidos do presente por uma força maligna, e que o destino do mundo agora está em suas mãos.

A narrativa se desenrola através de uma estrutura fragmentada, em que o jogador viaja ao passado para salvar ilhas e continentes que foram apagados da existência. O que torna o roteiro de Dragon Quest VII Reimagined tão especial, e que foi magnificamente preservado e otimizado nesta nova versão, é o formato de antologia. Cada ilha que você visita no passado possui seu próprio drama, seus próprios heróis e tragédias, funcionando como contos isolados que, pouco a pouco, constroem o mapa do mundo presente.
Diferentemente de outros jogos da série que oferecem uma narrativa linear contínua, Dragon Quest VII oferece uma série de histórias menores que se acumulam para revelar uma verdade maior sobre o mundo. A Hexadrive fez um trabalho primoroso ao otimizar o ritmo dessa narrativa, evitando cair no erro do original que parecia arrastado, porém conseguindo cortar excessos e remover três ciclos inteiros de ilhas que não acrescentavam muito à narrativa, tornando a progressão mais fluida e acessível, sem sacrificar a profundidade emocional de restaurar um mundo esquecido, pedaço por pedaço.

O remake introduz novas cenas que aprofundam os relacionamentos entre os personagens, particularmente entre o herói e Maribel, além de oferecer contextos emocionais inéditos para Kiefer como um homem mais velho. O Santuário dos Mistérios foi completamente reimaginado, eliminando o tedioso processo de coleta de itens do original. Os fragmentos de tábua agora vêm acompanhados de um sistema de checklist que os marca no menu de sistema, e minimap markers ajudam a localizá-los sem a frustração de busca aleatória. Talvez a mudança mais estrutural seja o retorno a uma progressão consideravelmente menos linear, permitindo que você aborde os problemas do passado em praticamente qualquer ordem, desde que você tenha os fragmentos necessários.
Quando a arte transcende pixels
Visualmente, o jogo é um espetáculo à parte e justifica plenamente o subtítulo Reimagined, pois a direção de arte optou por um estilo de diorama vivo que é simplesmente encantador. Não é apenas uma atualização de texturas, mas uma escolha estética que faz com que cada cidade, masmorra e ambiente pareça uma maquete detalhada e vibrante, cheia de cor e personalidade. Essa decisão estética nasceu de uma exploração profunda de como representar os personagens de Akira Toriyama, que nesse jogo são propositalmente desenhados menores e mais adoráveis do que seus equivalentes em outros títulos da série. Os ambientes parecem saídos de uma maquete delicadamente construída, com texturas realistas aplicadas aos tecidos das roupas dos personagens, criando uma sensação tátil que convida à exploração.

Esse estilo casa perfeitamente com os designs inconfundíveis de Toriyama, e ver os monstros clássicos e os protagonistas renderizados com essa fidelidade, inseridos em cenários que parecem brinquedos de luxo em movimento, cria uma atmosfera de fantasia acolhedora. Dragon Quest VII Reimagined é um convite visual tanto para quem cresceu lendo as páginas dos mangás, que finalmente saíra no Brasil em 2026 pela Editora JBC, quanto para quem aprecia uma direção de arte que foge do realismo de muitos jogos atuais.
A perspectiva de câmera top-down que Reimagined resgata do original complementa perfeitamente essa escolha visual ao permitir que você veja mais do mapa enquanto planeja suas rotas, um benefício prático que também vem com um benefício emocional, em ter a sensação de estar olhando para um mundo pequeno e acessível que você pode compreender intuitivamente. Cada encontro é vibrante, emocionante e cheio de aventuras, de florestas verdejantes e cidades movimentadas a ruínas antigas e monstros fantasiosos.

A trilha sonora continua sendo um pilar emocional fundamental com o trabalho da Sugiyama Kobo, estúdio dedicado ao legado de Koichi Sugiyama, compositor revolucionário que definiu o som de Dragon Quest desde 1986 e faleceu em 2021, orquestrando novos arranjos das composições originais. Esqueça os mídis das versões PS1 e 3DS, Dragon Quest VII Reimagined é acompanhado por uma performance orquestrada completa, fazendo com que a trilha sonora evoque a grandiosidade e a nostalgia que só Dragon Quest consegue transmitir, agora complementando perfeitamente a beleza visual dos dioramas.
Modernizado sem perder sua essência
Quando analisamos as mecânicas e jogabilidade de Dragon Quest VII Reimagined, nós conseguimos sentir as mudanças mais significativas e que fora muito bem implementadas. O combate mantém a essência clássica por turnos que define a série, mas foi com um “quê” mais moderno ao introduzir também ajustes de velocidade para batalhas e a opção do auto battle, respeitando o novo estilo de vida dos jogadores. Uma novidade interessante e extremamente prática é a capacidade de atacar monstros diretamente no campo antes da batalha iniciar, como a maioria dos JRPGs estão adotando. Se o inimigo for muito mais fraco que o seu grupo, ele é derrotado instantaneamente, eliminando a necessidade de entrar em telas de combate para batalhas triviais.

Impossível não falar da melhor mecânica trazida pelos desenvolvedores, com o novo sistema Moonlight, que pega o famoso sistema de vocações (ou Jobs) e traz para Dragon Quest VII Reimagined em um novo patamar de estratégia e customização. Com o sistema Moonlight, o jogador pode atribuir duas vocações ao mesmo tempo para um personagem, permitindo subir de nível em duas classes simultaneamente, além de permitir acesso a habilidades, feitiços e vantagens exclusivas com essa combinação. Imagine um Guerreiro combinado com a mágica de um Sacerdote, criando um Paladino híbrido desde cedo, oferecendo uma camada extra de personalização para que cada jogador molde seu grupo de forma única, incentivando a experimentação constante para encontrar as combinações mais devastadoras.
Como se não fosse o suficiente, cada vocação vem com uma habilidade exclusiva chamada Let Loose, que só pode ser ativada quando o personagem fica no modo Worked Up durante o combate. Isso acontece depois de ter absorvido alguns ataques ou curado aliados, fazendo com que esses Let Loose variem desde ataques devastadores até buffs em status. Diferente da versão de Nintendo 3DS, em que habilidades aprendidas em vocações básicas permaneciam permanentemente disponíveis, todas as habilidades agora estão vinculadas às vocações equipadas, tornando cada escolha de vocação mais impactante, além de removerem as vocações de monstro, substituindo por Monster Hearts, que funcionam como acessórios, concedendo características temáticas de monstro sem a complexidade do sistema anterior.
Uma evolução merecida para a franquia
Quando comparamos este lançamento com outros jogos da franquia, como o aclamado Dragon Quest XI, percebemos que o VII Reimagined ocupa um nicho específico e valioso, muito ligado ao estilo de RPGs mais longos e cadenciados. Dragon Quest VIII chegou com um salto gráfico espetacular e um sistema de skills bem diferente, enquanto Dragon Quest XI aperfeiçoou fórmulas subsequentes com um sistema ainda mais refinado. Dragon Quest VII Reimagined retorna às vocações ao mesmo tempo em que consegue modernizar profundamente o sistema com Moonlight e as Perks exclusivas, criando algo que se sente ao mesmo tempo clássico e completamente novo.

O que faz com que Dragon Quest VII Reimagined seja inda melhor é ter aceitado sua estrutura episódica como base para a construção narrativa. Enquanto outros jogos tentavam criar um mundo coeso para ser explorado de ponta a ponta, construindo para um clímax central com o tradicional herói salvando o mundo todo, essa nova versão pega a ideia de um herói salvando um mundo inteiro pedaço por pedaço para tornar cada episódio ainda mais impactante. Para os fãs que acharam o original de PlayStation ou mesmo o remake de 3DS muito lentos, esta nova versão é o que todos nós esperávamos.
Dragon Quest VII Reimagined é uma carta de amor aos JRPGs, que consegue respeitar profundamente o legado da obra original, sem medo de modernizar o que era necessário, para que um jogo clássico e frequentemente negligenciado merecesse mais uma chance, com mais atenção e cuidado. Todas as mudanças foram pensadas para alterar e reinventar, com o foco em aprofundar e melhorar. Com certeza essa é a melhor versão de um clássico complexo.
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Nota final: 5/5
⭐⭐⭐⭐⭐ Avaliação: 5 de 5.
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