Uma ampla revisão científica que reuniu dados de 52 estudos diferentes não encontrou evidências de que mulheres trans tenham desempenho físico superior ao de mulheres cis em competições esportivas. A análise comparou composição corporal e indicadores de condicionamento físico de pessoas cisgênero e transgênero e concluiu que, embora existam algumas diferenças médias de massa muscular, elas não se traduzem em vantagem real de performance.

O trabalho surge em meio a um cenário de crescente pressão política e midiática que tem levado federações esportivas a impor proibições amplas à participação de pessoas trans e não binárias em competições, inclusive em níveis amadores. Em muitos casos, essas decisões se baseiam em dados limitados, interpretações frágeis da ciência ou em suposições antigas de que homens cis seriam naturalmente superiores em qualquer modalidade esportiva. Um exemplo bastante criticado foi o da Federação Internacional de Xadrez, que em 2023 restringiu a participação de mulheres trans em torneios femininos, medida considerada sem sentido por várias federações nacionais.
Na revisão agora publicada, os pesquisadores analisaram informações de 6.485 pessoas entre 14 e 41 anos. Desse total, 2.943 eram mulheres trans, 2.309 homens trans, 568 mulheres cis e 665 homens cis. Os estudos avaliados tinham metodologias variadas, o que ajuda a entender tanto o alcance quanto as limitações dos resultados. Apenas uma parte deles analisou diretamente níveis de atividade física, e menos ainda considerou fatores importantes como níveis hormonais e alimentação.
Os dados mostram que, após um a três anos de terapia hormonal de afirmação de gênero, homens trans tendem a apresentar redução de gordura corporal e aumento de massa muscular, enquanto mulheres trans apresentam o movimento inverso, com mais gordura e menos músculo. Em média, mulheres trans mantêm uma quantidade de massa magra um pouco maior do que mulheres cis, mas com níveis de gordura semelhantes. Ainda assim, a massa magra de ambos os grupos permanece bem abaixo da média observada em homens cis.
Esses resultados reforçam achados anteriores de que a terapia hormonal provoca mudanças significativas no corpo, ajustando processos fisiológicos ao gênero da pessoa até mesmo em nível celular. Quando o foco passa da composição corporal para o desempenho físico propriamente dito, as diferenças praticamente desaparecem. A revisão não encontrou variações relevantes entre mulheres cis e trans em testes de força de membros superiores e inferiores. O mesmo ocorreu com a capacidade cardiorrespiratória, medida pelo consumo máximo de oxigênio, o chamado VO₂ máx.
Segundo os autores, a convergência do desempenho funcional entre mulheres trans e cis, especialmente em força e capacidade aeróbica, coloca em xeque a ideia de que existiriam vantagens atléticas inerentes decorrentes da transição ou de uma suposta “memória” muscular. À luz desses achados, as proibições generalizadas à participação de atletas trans no esporte carecem de base científica sólida.
Os próprios pesquisadores, no entanto, reconhecem limitações importantes. Uma delas é a falta de dados sobre atletas de elite. Existe a hipótese de que pessoas que transicionam após atingir níveis muito altos de condicionamento físico possam manter parte desse desempenho. O problema é que há pouquíssimas atletas trans em competições de alto rendimento, o que torna esse tipo de análise estatisticamente inviável. Forma-se, assim, um círculo vicioso: para estudar atletas trans de elite, seria preciso que elas pudessem competir nesse nível.
Especialistas que não participaram do estudo reforçam a relevância dos resultados. Para Adrián Carrasco Munera, da Sociedade Madrilenha de Medicina de Família e Comunidade, a revisão deixa duas mensagens claras: não há evidências de que mulheres trans tenham mais força ou resistência do que mulheres cis, e a exposição prévia à testosterona não se traduz automaticamente em melhores condições físicas para o esporte após o início do tratamento hormonal.
O grupo responsável pela pesquisa defende a ampliação dos estudos na área, com investigações de longo prazo e métricas mais específicas de desempenho, levando em conta também aspectos psicossociais. Mesmo diante das dificuldades metodológicas e do número reduzido de atletas trans, os autores destacam que seguir pesquisando é essencial para construir políticas esportivas mais justas, inclusivas e alinhadas com o rigor científico.
O estudo foi publicado no British Journal of Sports Medicine e contribui para um debate que segue intenso, mas que, aos poucos, começa a ser sustentado por dados mais robustos do que por suposições.
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