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Roblox é o novo Habbo?

O Roblox já deixou de ser, faz tempo, aquele joguinho inocente de blocos onde crianças constroem casinhas felizes e alimentam bichinhos fofos. Hoje, basta alguns cliques para sair de um parque colorido direto para o Boteco do Bira ou para um baile funk virtual, com avatares dançando, socializando e, em alguns casos, reproduzindo comportamentos que claramente não fazem parte do universo infantil. É engraçado à primeira vista, mas o riso trava quando a gente percebe que já viu esse filme antes.

Quem viveu a internet dos anos 2000 vai lembrar do Habbo Hotel. Oficialmente, era um jogo social para adolescentes. Na prática, virou um grande experimento sociológico sem supervisão. Crianças fingiam ser adultas, criavam quartos que simulavam prostíbulos, se comportavam como cafetões, cobravam “entrada” e reproduziam, em versão pixelada, tudo aquilo que talvez, não entendiam completamente. Era absurdo, constrangedor e, olhando hoje, obviamente problemático.

O Roblox segue um caminho perigosamente parecido, só que em escala muito maior. O Boteco do Bira funciona como um ponto de encontro virtual onde usuários entram para conversar, zoar e passar o tempo. Até aí, parece inofensivo. O problema começa quando um jogo frequentado majoritariamente por crianças normaliza ambientes tipicamente adultos, como bares, festas noturnas e dinâmicas sociais que imitam a vida adulta sem qualquer filtro crítico.

A situação fica ainda mais grave com os bailes funk dentro do Roblox. Alguns mapas criados por usuários passaram a simular festas com referências explícitas à violência, facções criminosas, armas e tráfico. O tema deixou de ser apenas curioso ou bizarro e passou a chamar a atenção da polícia. O que deveria ser entretenimento virou palco para a reprodução caricata, porém perigosa, de problemas reais da sociedade brasileira.

Assim como acontecia no Habbo, tudo vem embalado em uma estética cartunesca que cria a falsa sensação de inocência. São bonecos quadrados, animações exageradas e cenários coloridos. Só que por trás disso estão crianças consumindo e encenando conteúdos que não compreendem totalmente. No Habbo, isso foi ignorado por muito tempo porque a internet preferiu tratar tudo como brincadeira.

O Roblox parece repetir o erro, agora com tecnologia mais avançada e uma moderação que continua sempre atrasada. A empresa promete remover conteúdos impróprios, mas esses ambientes continuam surgindo, circulando e sendo acessados com facilidade. A plataforma quer ser jogo, rede social, metaverso e vitrine cultural ao mesmo tempo, mas evita assumir o peso real dessa escolha.

Dá para rir de um boteco virtual cheio de avatares segurando copos imaginários. Dá para achar curioso um baile funk feito de blocos coloridos. O problema começa quando a plataforma finge que isso é só criatividade da comunidade e ignora que está colocando crianças para brincar de vida adulta, violência e criminalidade.

O Habbo ensinou, anos atrás, que deixar crianças soltas em ambientes sociais digitais sem limites claros nunca termina bem. O Roblox parece decidido a provar que a internet continua sem aprender com o próprio passado.

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Fagner Lopes

CEO Presidente e fundador da Obewise Entertainment Network, escritor, biomédico e amante de jogos eletronicos, mais precisamente DOTA 2. Redator do site e artista na Obewise Radio Network.

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