Mosquitos que picam não são apenas um aborrecimento cotidiano. Eles estão entre os principais vetores de doenças graves, como dengue, febre amarela, chikungunya, Zika e malária, o que faz com que entender seu comportamento seja uma questão de saúde pública. Um estudo recente publicado nos Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) joga nova luz sobre esse tema ao mostrar que o momento em que os mosquitos decidem atacar não é aleatório, mas cuidadosamente calculado pelo relógio biológico desses insetos.
A pesquisa foi liderada por Laura Duvall, da Universidade Columbia, e se concentrou no Aedes aegypti, espécie conhecida por sua forte preferência por humanos e por ser responsável pela transmissão de vários vírus que circulam amplamente no Brasil. Diferente de mosquitos como o Anopheles gambiae, associado à malária e mais ativo à noite, o Aedes aegypti costuma picar principalmente ao amanhecer e ao entardecer, algo que já havia sido observado em décadas de estudos de campo.

Esses estudos tradicionais geralmente envolvem a chamada técnica de pouso e captura, em que pesquisadores expõem parte do corpo e contabilizam quantos mosquitos se aproximam para tentar picar. Ao longo do tempo, cientistas também descobriram quais sinais atraem esses insetos, como o contraste visual, o odor corporal humano, a temperatura do corpo e, sobretudo, o dióxido de carbono. Mesmo pequenas quantidades de CO₂, como aquelas liberadas na respiração, funcionam como um poderoso alarme de que há um hospedeiro por perto, dando início à “caçada”.
Para entender melhor como esse processo varia ao longo do dia, a equipe decidiu levar o problema para o laboratório, onde seria possível controlar todas as variáveis. Como os ritmos circadianos de mosquitos ainda são pouco estudados, os pesquisadores tiveram que criar praticamente tudo do zero, incluindo uma arena especial equipada com câmeras e sistemas para liberar dióxido de carbono em horários específicos. Assim, foi possível acompanhar em detalhes a atividade de voo dos mosquitos e medir não apenas se eles reagiam ao CO₂, mas por quanto tempo mantinham essa resposta ativa.
Os resultados mostraram algo curioso. Durante a noite, os mosquitos praticamente ignoram o dióxido de carbono, mesmo sendo um sinal forte da presença humana. Ao longo do dia, eles reagem, mas a intensidade e, principalmente, a persistência da resposta variam. No meio do dia, os insetos até iniciam o voo quando expostos ao CO₂, mas desistem rapidamente. Já ao amanhecer e ao entardecer, a reação é muito mais duradoura, o que ajuda a explicar por que esses horários são tão críticos para as picadas.
A equipe então foi além e investigou o que, no cérebro do mosquito, controla esse padrão. Em muitos insetos, os ritmos diários de comportamento são regulados por um conjunto de neurônios que formam o relógio circadiano. Um dos elementos centrais desse sistema é um gene conhecido como pdf, sigla para fator de dispersão de pigmento, responsável por produzir um neuropeptídeo que mantém essas células sincronizadas.
Com o uso de ferramentas modernas de edição genética, como o CRISPR-Cas, os pesquisadores conseguiram alterar esse gene nos mosquitos. O efeito foi claro: sem o pdf, as células do relógio biológico ficaram dessincronizadas e os insetos perderam seus ritmos normais de atividade. Quando expostos ao dióxido de carbono, esses mosquitos mutantes já não apresentavam o padrão típico de resposta persistente ao amanhecer, justamente o período em que normalmente são mais eficientes em encontrar humanos.
Essa mudança também teve impacto direto na alimentação. Em testes de laboratório, nos quais os mosquitos tinham acesso a um alimentador artificial de sangue, os indivíduos sem o pdf se mostraram muito menos eficientes em se alimentar pela manhã. O horário coincidiu exatamente com a queda na persistência da resposta ao CO₂, reforçando a ligação entre o relógio biológico e o sucesso da picada.
Embora o estudo tenha um caráter exploratório e não resulte imediatamente em um produto ou tecnologia, ele abre caminhos interessantes. Se for possível imitar o estado interno do mosquito em horários em que ele é menos sensível aos sinais humanos, talvez seja viável desenvolver novas estratégias para reduzir as picadas e, consequentemente, a transmissão de doenças.
Os próprios autores destacam que há limitações importantes. A pesquisa focou apenas no dióxido de carbono por ser um sinal fácil de padronizar, mas, na vida real, os mosquitos usam uma combinação de pistas, como cheiro e calor do corpo. Investigar como esses diferentes sinais interagem ao longo do dia será um passo essencial em estudos futuros.
Ainda assim, a descoberta reforça uma ideia fascinante: os mosquitos não apenas sentem a nossa presença, eles também sabem exatamente quando vale mais a pena nos atacar. Entender esse relógio interno pode ser uma das chaves para virar o jogo contra alguns dos vetores mais perigosos do planeta.
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