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Guerrilha urbana no Brasil: por que jovens da classe média enfrentaram a ditadura militar

O sequestro do embaixador dos Estados Unidos Charles Burke Elbrick, em 4 de setembro de 1969, foi o episódio que escancarou para o Brasil e para o mundo a existência de uma guerrilha urbana organizada no país. A ação, realizada por integrantes da Ação Libertadora Nacional, a ALN, e do Movimento Revolucionário 8 de Outubro, o MR 8, teve enorme repercussão e mostrou que a resistência armada à ditadura militar não era formada apenas por militantes veteranos ou trabalhadores ligados à esquerda tradicional. Havia ali muitos jovens entre 15 e 25 anos, estudantes, filhos da classe média urbana, moradores de bairros valorizados e frequentadores de algumas das melhores escolas e universidades do país.

Militantes históricas da ALN 

A revelação desse perfil surpreendeu muita gente e ajudou a consolidar uma pergunta que atravessa a história política brasileira até hoje. O que levou rapazes e moças com acesso à educação, alguma estabilidade material e perspectivas de futuro a mergulhar na clandestinidade, participar de ações armadas e se expor ao risco permanente de prisão, tortura, exílio ou morte? A resposta não está em uma causa isolada. Ela passa por um ambiente de forte repressão interna, radicalização ideológica e sensação crescente de que as vias legais de oposição haviam sido destruídas pelo próprio regime.

Depois do golpe de 1964, que derrubou o presidente João Goulart, o Brasil entrou em um processo de endurecimento político comandado pelos militares. Aos poucos, o novo governo ampliou seu poder com instrumentos autoritários, cassou mandatos, perseguiu adversários, restringiu direitos e desmontou espaços de participação democrática. Esse movimento chegou a um ponto decisivo em dezembro de 1968, com o AI 5, que autorizou o fechamento do Congresso, suspendeu garantias constitucionais e abriu caminho para uma fase ainda mais brutal da ditadura. Para muitos jovens politizados, aquele foi o momento em que ficou claro que a contestação pacífica e institucional havia sido praticamente sufocada.

Mas a radicalização da juventude brasileira também precisa ser entendida dentro de um cenário mais amplo. Os anos 1960 foram marcados por grandes transformações no mundo. A Revolução Cubana ainda inspirava movimentos na América Latina. A Guerra do Vietnã mobilizava protestos internacionais. Em 1968, revoltas estudantis explodiram em vários países, como França, México e Estados Unidos. Ideias socialistas, anti-imperialistas e revolucionárias circulavam com força entre universitários, intelectuais e militantes. No Brasil, essa atmosfera encontrou terreno fértil em uma geração que assistia ao crescimento da censura, da violência policial e da repressão política.

Vítima. Estudantes velam o corpo de Edson Luís na Assembleia Legislativa do Rio: morto por um policial militar durante manifestação no Restaurante Calabouço 

O movimento estudantil teve papel central nesse processo. Em 1968, a morte do estudante Edson Luís, baleado pela polícia militar no restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro, gerou comoção nacional e virou símbolo da violência do regime. O enterro do jovem se transformou em ato político, e a indignação ajudou a impulsionar protestos cada vez maiores. Pouco depois, a Passeata dos Cem Mil reuniu estudantes, artistas, intelectuais, religiosos e diversos setores da sociedade em uma das manifestações mais marcantes contra a ditadura. Para muitos jovens, aqueles episódios funcionaram como prova de que o Estado estava disposto a responder com força até mesmo diante de mobilizações civis.

Nesse contexto, parte da esquerda começou a romper com estratégias mais moderadas. Um dos nomes mais importantes dessa virada foi Carlos Marighella. Antigo militante do Partido Comunista Brasileiro, ele rompeu com a legenda e passou a defender a luta armada como caminho revolucionário, tornando-se fundador da ALN e referência para vários grupos clandestinos. Outro nome de destaque foi Carlos Lamarca, ex-capitão do Exército que desertou e aderiu à resistência armada. Ao lado deles surgiram organizações como a Vanguarda Popular Revolucionária, a VPR, a VAR Palmares e o MR 8, que passaram a atrair estudantes, jovens profissionais e militantes decepcionados com a impossibilidade de enfrentamento aberto ao regime.

Carlos Lamarca em cartaz

É importante lembrar que muitos desses jovens não enxergavam a própria escolha como aventura ou gesto impulsivo. Eles liam, debatiam política, acompanhavam os acontecimentos internacionais e estavam profundamente marcados pela ideia de transformação social. Em universidades e centros estudantis, circulavam discussões sobre desigualdade, imperialismo, reforma agrária, concentração de renda e autoritarismo. Para parte deles, a luta armada parecia menos uma opção extrema e mais uma resposta desesperada a um sistema que havia fechado todas as outras portas.

O sequestro de Elbrick sintetizou esse momento histórico. A operação exigiu a leitura de um manifesto nos meios de comunicação e a libertação de 15 presos políticos, que foram enviados ao México. A ação demonstrou capacidade de articulação e atingiu diretamente a imagem do regime no exterior. Também expôs a juventude como força ativa da resistência. Entre os nomes ligados ao episódio estavam Cid Benjamin e Virgílio Gomes da Silva, que mais tarde seria preso, torturado e morto, tornando-se um dos símbolos da repressão política daquele período.

Carlos Marighella

A resposta do Estado foi ainda mais dura. A partir do fim dos anos 1960 e sobretudo durante o governo Emílio Garrastazu Médici, a repressão ganhou estrutura mais sofisticada e violenta. Órgãos como a Operação Bandeirante, a Oban, e os DOI Codi ampliaram o uso sistemático de prisões arbitrárias, tortura, desaparecimentos e assassinatos. A morte de Marighella em 1969, em uma emboscada policial em São Paulo, mostrou que a ditadura estava decidida a eliminar fisicamente os principais quadros da resistência. Nos anos seguintes, a guerrilha urbana foi sendo esmagada, e muitos de seus integrantes foram mortos, presos ou obrigados a deixar o país.

O envolvimento de estudantes da classe média com a luta armada, portanto, não pode ser reduzido a uma narrativa simplista sobre rebeldia ou fascínio pela violência. Ele foi resultado de um tempo histórico marcado pelo fechamento democrático, pela repressão brutal, pela circulação de ideias revolucionárias e pela convicção, compartilhada por parte daquela geração, de que o Brasil vivia uma encruzilhada sem saídas fáceis. A clandestinidade e o confronto armado surgiram, para esses jovens, como fruto de um processo político e emocional intenso, moldado pelo medo, pela indignação e pela crença de que era preciso reagir.

Fotografia do dia 21 de junho de 1968 durante uma manifestação estudantil contra a ditadura, que ficou conhecida como “Sexta-feira sangrenta”. O homem que aparece caindo na foto era um estudante de Medicina que morreu logo após o registro.

Revisitar essa história hoje ajuda a entender não apenas como a ditadura afetou o destino de milhares de brasileiros, mas também como regimes autoritários podem empurrar sua própria juventude para escolhas radicais. Mais do que um capítulo sobre armas e resistência, essa é uma história sobre repressão, idealismo, trauma e os limites de uma geração que cresceu em um país onde a democracia havia sido colocada sob cerco.

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Fagner Lopes

CEO Presidente e fundador da Obewise Entertainment Network, escritor, biomédico e amante de jogos eletronicos, mais precisamente DOTA 2. Redator do site e artista na Obewise Radio Network.

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