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O duelo psicológico que define um bom filme histórico

O tribunal de Nuremberg costuma ser retratado no cinema sob a ótica da justiça processual ou do horror das evidências expostas. No entanto, o novo longa de James Vanderbilt, opta por um caminho consideravelmente mais claustrofóbico e cerebral.

O NERDIZMO participou do evento de pré-estreia para trazer essa análise sobre um excelente filme que estreia este em 26 de março. Em vez de focar apenas no veredito dos juízes, o filme se debruça sobre o que acontece nas sombras das celas, onde o psiquiatra americano Douglas Kelley (Rami Malek) tenta decifrar a mente de Hermann Göring (Russell Crowe), o arquiteto do regime nazista e segundo no comando do Reich.

O silêncio que precede o confronto

A narrativa se estabelece quase como um thriller psicológico de contenção, em cenários limitados e confinados, em que o maior perigo reside na mente e em segredos a serem revelados. O roteiro de Vanderbilt evita o espetáculo da guerra para focar na guerra de nervo.

Nuremberg

De um lado, o Kelley de Rami Malek, que entrega uma atuação pautada pela vulnerabilidade intelectual, sem ser o herói inabalável, mas sim um homem de ciência confrontado pelo abismo. Do outro, Russell Crowe ressurge com uma presença de tela avassaladora, interpretando um Göring que transita entre o carisma manipulador e a monstruosidade absoluta.

Nuremberg

A dinâmica entre os dois é o coração do filme, fazendo com que quem assiste ao embate perceba que a intenção do filme não é humanizar o criminoso, mas sim investigar a banalidade do mal através de uma lente clínica. Se você se interessa por estudos de perfil psicológico, como os vistos em Mindhunter, encontrará aqui um material de análise riquíssimo.

A estética do confinamento

Visualmente, Nuremberg utiliza a fotografia para isolar seus protagonistas, as cores são frias, e os enquadramentos frequentemente sufocam os personagens, reforçando a ideia de que Kelley está sendo, de certa forma, contaminado pela proximidade com o objeto de seu estudo. A direção de arte é impecável ao reconstruir o pós-guerra, mas é no design de som e nos diálogos pausados que o filme realmente brilha.

Nuremberg

O grande mérito da obra é não subestimar o espectador, pois o filme exige atenção aos detalhes ao apresentar um olhar de soslaio de Crowe ou um tremor nas mãos de Malek, que dizem mais sobre o estado psicológico daqueles homens do que qualquer discurso inflamado no tribunal. É um exercício de paciência e tensão que recompensa quem busca um cinema de fôlego, focado na palavra e na interpretação.

Uma reflexão necessária sobre a justiça

Apesar da força da dupla central, o filme por vezes perde o ritmo ao tentar equilibrar o drama pessoal de Kelley com a magnitude histórica dos julgamentos. Alguns personagens secundários do corpo jurídico parecem subutilizados, servindo apenas como pontes para o próximo encontro na cela. Contudo, essa falha de ritmo é compensada pela profundidade do tema central, apresentando o limite entre a análise científica e a repulsa moral.

Nuremberg

Ao final, Nuremberg se consolida como uma obra essencial para o catálogo de dramas históricos contemporâneos. Ele nos lembra que a justiça não é feita apenas de marteladas no tribunal, mas também da coragem de olhar para o que há de mais sombrio na condição humana sem desviar os olhos. É uma experiência cinematográfica densa, necessária e que certamente figurará nas discussões sobre as melhores atuações do ano.

Fagner Lopes

CEO Presidente e fundador da Obewise Entertainment Network, escritor, biomédico e amante de jogos eletronicos, mais precisamente DOTA 2. Redator do site e artista na Obewise Radio Network.

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