Poucos setores da economia brasileira cresceram tão rapidamente quanto o mercado de apostas online. Os dados fiscais de 2026 deixam isso claro: entre janeiro e abril deste ano, as bets licenciadas geraram R$ 12,2 bilhões em receita e recolheram R$ 4,5 bilhões em impostos, mais que o dobro dos R$ 2,2 bilhões arrecadados no mesmo período de 2025.
As informações foram apuradas pela Receita Federal e divulgadas pela Folha de S.Paulo este mês, e colocam o setor no mesmo nível de contribuição fiscal de indústrias consolidadas como o tabaco e o agronegócio, cada uma responsável por cerca de R$ 1 bilhão mensal em tributos.
O ano anterior já havia dado sinais do tamanho do fenômeno. O faturamento total das operadoras autorizadas alcançou R$ 36,9 bilhões em 2025, primeiro exercício completo sob regulamentação federal, coordenada pelo Ministério da Fazenda por meio da Secretaria de Prêmios e Apostas.
Quem são os apostadores brasileiros
O Ministério da Fazenda registrou 25 milhões de CPFs únicos realizando apostas em sites autorizados ao longo de 2025. O desembolso médio ficou em torno de R$ 123 mensais por pessoa, já considerado o desconto das premiações recebidas no período. Desde que a regulamentação entrou em vigor, 85 licenças foram concedidas a empresas do setor, que hoje operam coletivamente 187 domínios autorizados no país.
A distribuição da receita entre os operadores é bastante desigual. Levantamento da consultoria britânica H2 Gambling Capital aponta que as dez maiores marcas do setor respondiam por quase 69% de toda a receita gerada no final de 2025. Esse padrão de concentração é típico de mercados recém-formalizados, onde operadoras com maior capacidade de investimento em tecnologia e marketing tendem a capturar a maior parte do crescimento inicial.
Para o apostador, o resultado prático dessa disputa é positivo: a competição entre plataformas de jogos autorizadas tem reduzido barreiras de entrada, com depósitos mínimos cada vez menores, e elevado o padrão de experiência oferecida dentro do mercado regulado que, como verá de seguida, deve ainda sofrer um aumento muito brevemente já que apostar na copa do mundo é algo que será feito, pela primeira vez, por muitos brasileiros. Se é o seu caso, escolha um operador legal.
A fatia ilegal que ainda preocupa
O crescimento do setor formal não eliminou a presença das operadoras clandestinas, que seguem sendo o principal tema de atrito entre as bets licenciadas e o governo. Um estudo da consultoria LCA, encomendado pelo Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), calculou que os operadores ilegais responderam por algo entre 41% e 51% de todo o mercado de apostas em 2025, o que representa uma fatia estimada entre R$ 26 bilhões e R$ 39 bilhões.
A H2 Gambling Capital chegou a um número mais específico: R$ 16,3 bilhões movimentados pelo mercado clandestino em 2025, estimativa construída a partir de dados do Banco Central sobre remessas internacionais, transações com criptomoedas e análise de tráfego nos sites irregulares. O próprio autor do cálculo, o presidente da consultoria Ed Birkin, reconhece a ausência de dados oficiais que permitam uma mensuração precisa.
O diferencial competitivo das plataformas ilegais é basicamente financeiro: sem licença, sem carga tributária e sem obrigações regulatórias, conseguem estruturar premiações mais agressivas. O que os apostadores que as utilizam abrem mão, no entanto, é considerável: sem reservas obrigatórias para pagamento de prêmios, sem prazos regulamentados para saques e sem ferramentas de proteção como o sistema de autoexclusão da SPA, o risco recai inteiramente sobre o jogador.
Copa do Mundo e as próximas semanas
O segundo semestre de 2026 chega com um evento que deve amplificar significativamente os volumes do setor. A H2 Gambling Capital projeta que a Copa do Mundo, pode movimentar entre R$ 20 bilhões e R$ 25 bilhões adicionais em depósitos para apostas esportivas, embora o impacto final dependa do desempenho das seleções em campo e do engajamento dos apostadores ao longo do torneio.
Para Lauro Gonzalez, coordenador do Centro de Estudos em Microfinanças e Inclusão Financeira da Fundação Getulio Vargas, a trajetória de crescimento das bets está fortemente atrelada à intensidade das campanhas publicitárias, que ampliaram o alcance das plataformas para públicos que antes não tinham contato com apostas online.
No médio prazo, a expectativa da H2 é de uma consolidação natural do mercado, com operadoras menores e menos competitivas sendo absorvidas pelas líderes do setor.
O que fica para o apostador
O crescimento do mercado em 2026 é documentado e verificável. Mas os mesmos dados que mostram a expansão do setor regulado revelam que uma parcela enorme das apostas ainda circula fora de qualquer supervisão.
A diferença entre apostar numa plataforma autorizada e numa clandestina vai muito além da legalidade formal: envolve garantias de pagamento, mecanismos de proteção e acesso a canais de resolução de conflitos que simplesmente não existem no mercado ilegal.
Num setor que movimenta dezenas de bilhões por ano, essa distinção nunca foi tão importante.




