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Academias científicas falsas usam nomes de pesquisadores famosos para ganhar credibilidade

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Academias científicas falsas usam nomes de pesquisadores famosos para ganhar credibilidade

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Uma investigação da revista Nature revelou uma rede internacional de sociedades científicas suspeitas que utiliza nomes de pesquisadores famosos, informações falsas e até imagens manipuladas para construir uma aparência de prestígio acadêmico. Algumas dessas organizações chegaram a anunciar cientistas de universidades importantes como membros ou dirigentes sem que eles sequer soubessem de sua existência.

O caso veio à tona depois que a cientista da computação Julia Hirschberg, da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, recebeu em julho um convite que parecia representar uma grande conquista profissional. Ela havia sido anunciada como integrante da European Academy of Engineering, ou EAE, uma organização que afirma representar profissionais de alto nível da engenharia e que diz ter mais de 400 membros, entre eles 35 ganhadores do Nobel.

Poucos dias antes, Hirschberg também havia sido anunciada como integrante da Austrian Academy of Engineering. Em 2025, ela já tinha recebido uma suposta eleição para a National Academy of Artificial Intelligence, conhecida como NAAI.

Três reconhecimentos internacionais em um intervalo tão curto pareciam motivo para comemoração. A própria Universidade Columbia publicou uma notícia celebrando a conquista, e colegas enviaram mensagens parabenizando a pesquisadora.

A situação, porém, começou a ficar estranha quando um homem identificado como Michael Chu, apresentado como integrante da secretaria da EAE, entrou em contato com Hirschberg. Ele afirmou que a academia estava escolhendo um presidente rotativo e queria indicá-la para o cargo, que teria uma remuneração anual de US$ 2 mil.

Ao consultar o site da organização, Hirschberg descobriu algo ainda mais surpreendente. Seu nome já aparecia em destaque como parte da liderança da academia, apesar de ela nunca ter aceitado o cargo. A pesquisadora também não havia fornecido referências, participado de reuniões ou sequer conhecido previamente a organização.

Em resposta à Nature, Chu afirmou que havia interpretado algumas das conversas com Hirschberg como uma espécie de consentimento preliminar. A revista, entretanto, teve acesso à correspondência entre os dois e verificou que a cientista apenas perguntou quais seriam as responsabilidades da função, sem confirmar que aceitaria o posto.

O caso de Hirschberg não parece ser isolado. A partir de denúncias feitas por outros pesquisadores, a Nature começou a investigar as organizações e encontrou uma rede muito maior de sociedades acadêmicas com características semelhantes.

Segundo a investigação, algumas dessas entidades apresentam históricos institucionais que não podem ser comprovados, utilizam textos copiados de organizações legítimas, divulgam parcerias que aparentemente nunca existiram e apresentam endereços físicos que não correspondem às suas operações. Também foram encontradas imagens digitalmente alteradas para criar a impressão de que determinadas academias ocupam prédios acadêmicos reais.

Em alguns casos, pesquisadores de universidades prestigiadas aparecem como integrantes ou dirigentes sem terem autorizado a utilização de seus nomes.

A EAE, por exemplo, afirma ter uma importante presença internacional e relaciona entre seus membros nomes conhecidos da ciência. O diretor responsável por honrarias acadêmicas da Universidade de Michigan, Henry Dyson, decidiu investigar a organização depois que um professor recebeu um convite para integrar a academia.

O site tinha aparência profissional e apresentava uma extensa lista de atividades e personalidades associadas à instituição. Entre os nomes mencionados estavam a presidente do México, Claudia Sheinbaum, e ganhadoras do Nobel como Frances Arnold e Carol Greider.

Uma versão anterior do site também afirmava que sete ganhadores do Nobel, todos já falecidos, haviam participado da criação da academia em 1992. Essa informação posteriormente desapareceu da página.

Dyson encontrou outros sinais de alerta. A organização não possuía uma página na Wikipédia e não aparecia nas biografias dos supostos fundadores famosos. Além disso, duas pessoas da Universidade de Michigan que apareciam no site como dirigentes de seções da EAE afirmaram nunca ter ouvido falar da academia e não ter aceitado os cargos.

A Nature também encontrou uma série de informações aparentemente fabricadas relacionadas à localização da EAE. Não foi localizada uma entidade com o nome da organização no banco de dados público de organizações da Suécia. O endereço informado pela academia correspondia a uma caixa postal virtual.

Ainda mais curioso era o local indicado no Google Maps. A página apresentava uma fotografia de um imponente prédio acadêmico com o nome da EAE escrito na fachada. Uma comparação com outras imagens revelou que a fotografia havia sido alterada digitalmente a partir de uma imagem do prédio principal da Universidade de Gotemburgo.

Chu afirmou à revista que desconhecia completamente as imagens manipuladas e classificou o material como conteúdo antigo do site.

Também foram encontradas evidências de possível plágio. Uma versão arquivada do site da EAE apresentava um texto sobre o apoio da academia à Ucrânia que reproduzia diretamente conteúdo publicado pelas Academias Nacionais de Ciências, Engenharia e Medicina dos Estados Unidos.

A investigação identificou ainda mais de 30 comunicados publicados por universidades importantes, incluindo a própria Columbia, celebrando reconhecimentos concedidos por duas dessas organizações, a EAE e a NAAI. Isso mostra como a aparência de legitimidade dessas entidades pode acabar sendo reforçada até mesmo por instituições acadêmicas tradicionais.

Os sites das duas organizações também afirmam possuir relações com entidades reconhecidas internacionalmente, incluindo as Academias Nacionais de Ciências dos Estados Unidos, a Royal Academy of Engineering, de Londres, e a American Meteorological Society.

A Nature entrou em contato com algumas dessas instituições. Cinco responderam afirmando não ter conhecimento das supostas parcerias. Outras ainda não haviam respondido quando a investigação foi publicada.

Por trás de várias dessas organizações aparece repetidamente o nome de Michael Chu, também identificado pelo nome chinês Chaoyang Zhu. Ele é apresentado como secretário ou integrante da administração de algumas das entidades.

Seu perfil na NAAI reúne uma longa lista de vínculos institucionais, prêmios e livros, além de alegadas posições acadêmicas em diferentes organizações. A Nature consultou algumas das instituições mencionadas e não conseguiu encontrar registros correspondentes aos vínculos atribuídos a Chu. Ele, por sua vez, contestou parte das conclusões da investigação e afirmou manter uma ligação com a Royal Society of Arts.

Documentos públicos também indicam que organizações associadas a Chu utilizaram o mesmo endereço de caixa postal virtual no Colorado, nos Estados Unidos. Entre elas estão a International Institute of Engineering Psychology e a própria NAAI. Outra entidade registrada no mesmo endereço, a US National Academy of Sciences, Arts, and Humanities, foi classificada como irregular pelo estado do Colorado por não apresentar um relatório anual.

Uma foto de um prédio identificado como sendo da European Academy of Engineering é, na verdade, uma imagem digitalmente manipulada a partir de uma fotografia da Universidade de Gotemburgo, na Suécia.
Crédito: Johan Wingborg; imagem digitalmente manipulada obtida do Google Maps.

Pesquisadores que tiveram contato com Chu também relataram experiências incomuns. O cientista da computação Moshe Vardi, da Universidade Rice, participou virtualmente da reunião anual da NAAI em 2026 esperando encontrar uma grande conferência internacional. Em vez disso, encontrou uma reunião pequena, realizada principalmente em chinês, com aproximadamente duas dezenas de pesquisadores.

A investigação também identificou ligações de Chu com organizações de áreas bastante diferentes. Uma busca reversa por imagens associou seu rosto à International Institute of Film Science & Arts, que se apresenta como uma das principais sociedades acadêmicas dedicadas às artes cinematográficas e afirma reunir mais de 800 integrantes em 48 países. Chu confirmou à Nature que ajudou a criar a organização.

Para especialistas, uma das características mais preocupantes desse sistema é a forma como as organizações parecem se reforçar mutuamente. A investigação encontrou dezenas de sociedades com possíveis conexões entre si, compartilhando eventos, reproduzindo comunicados e encaminhando pesquisadores de uma entidade para outra.

O modelo também envolve diferentes tipos de títulos e associações. Pesquisadores conhecidos podem receber convites e honrarias sem pagamento, enquanto outros interessados encontram opções de filiação mediante cobrança.

No site da NAAI, por exemplo, as taxas mencionadas variam de US$ 30 por ano para uma categoria de estudante até US$ 600 de taxa inicial para integrantes plenos. A organização também anuncia programas virtuais de doutorado por US$ 10 mil e de pós-doutorado por US$ 2 mil.

Entre os benefícios prometidos estão certificados e cartões digitais de associação que podem ser utilizados em plataformas profissionais como o LinkedIn.

Esse sistema chamou a atenção do cientista da computação Michael Jordan, da Universidade da Califórnia em Berkeley. Ele havia aceitado inicialmente participar da NAAI e chegou a gravar uma declaração para uma conferência em 2025, mas posteriormente pediu que seu nome fosse retirado da organização depois de descobrir a cobrança pelos títulos.

Mesmo assim, a NAAI não removeu imediatamente seu nome. Sem que ele soubesse, Jordan chegou a aparecer como palestrante de destaque em uma conferência prevista para outubro, cujo ingresso custava até US$ 600. Ele só descobriu a inclusão quando a Nature entrou em contato para perguntar sobre sua participação. Depois disso, conseguiu solicitar a retirada de seu nome do site.

A investigação também encontrou pesquisadores na China e no Paquistão que apresentam em currículos e perfis nas redes sociais títulos e bolsas concedidos pela EAE, pela NAAI e por organizações relacionadas.

Para Fan Xiudi, especialista em políticas educacionais da Universidade Tongji, na China, esse tipo de estrutura pode explorar uma característica do sistema de avaliação acadêmica chinês, no qual títulos honoríficos e reconhecimentos institucionais possuem grande peso. A combinação entre prestígio acadêmico, pressão por reconhecimento e oferta de certificados pode criar um mercado especialmente atraente para organizações fraudulentas.

Ainda não está claro quantos pesquisadores pagaram por esses títulos ou quantos foram efetivamente enganados sobre a natureza das sociedades. Também não há evidências apresentadas pela investigação de que todos os pesquisadores associados a essas organizações tenham adquirido suas credenciais mediante pagamento.

Chu negou as acusações de irregularidades e defendeu a integridade das organizações. Ele também afirmou que as entidades não autorizam empresas de consultoria terceirizadas a comercializar títulos acadêmicos e descreveu seu próprio envolvimento com cada organização como mais limitado do que a investigação da Nature sugere.

O episódio serve como um alerta para um problema que vai além das chamadas falsas academias. Em um ambiente acadêmico cada vez mais dependente de currículos digitais, rankings, certificados e perfis profissionais, uma organização com um site convincente pode parecer legítima antes mesmo que alguém verifique quem está por trás dela.

Para pesquisadores, universidades e instituições científicas, a existência de nomes conhecidos em uma lista de membros não necessariamente comprova a legitimidade de uma sociedade. A investigação da Nature mostra justamente o contrário: em alguns casos, esses nomes podem ter sido utilizados sem autorização para construir uma reputação que a própria organização não conseguiu demonstrar possuir.

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Fagner Lopes

CEO Presidente e fundador da Obewise Entertainment Network, escritor, biomédico e amante de jogos eletronicos, mais precisamente DOTA 2. Redator do site e artista na Obewise Radio Network.

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