Se você é desenvolvedor indie, provavelmente seguiu a receita padrão: lançou o jogo em inglês e, talvez, em alemão ou francês. O problema é que todo mundo está fazendo exatamente a mesma coisa. O mercado dos EUA é o mais disputado do planeta e o custo para conseguir cada jogador novo (o tal do CPI) é um absurdo. Você acaba gastando muito para falar com pouca gente.
A estratégia aqui é parar de tentar espremer cada centavo dos jogadores americanos e começar a olhar para os lados. De acordo com o Steam Hardware Survey, menos de 35% dos usuários da plataforma hoje têm o inglês como idioma principal. O português do Brasil, por exemplo, já representa cerca de 2,8% da base total da Steam – pode parecer um número pequeno à primeira vista, mas estamos falando de milhões de usuários ativos em um dos mercados que mais consome jogos independentes no mundo.
Se o seu jogo só fala inglês, você está ignorando mais de 65% do mercado global. Mercados como Brasil, Turquia e o Sudeste Asiático têm um volume impressionante de gente querendo jogar. Para dobrar sua base, você não precisa de um jogo novo. Precisa apenas convidar o resto do mundo para jogar o que você já construiu.

1. Localização não é só traduzir texto
Muita gente acha que localização é luxo, mas na verdade é o marketing com o melhor retorno que existe. No momento em que você coloca o idioma nativo de um país, seu jogo destrava para uma massa de pessoas que antes nem olhavam para ele. Dados da Newzoo mostram que mercados emergentes na América Latina e Ásia são os que mais crescem em número de novos jogadores anualmente.
Mas cuidado: gamer não perdoa erro feio. Se o cara abre o jogo e vê aquela tradução dura, feita no Google Tradutor, ele pede reembolso na hora. Isso quebra a imersão e faz o jogo parecer amador. O segredo é não usar tradutor genérico. Se você quer entrar em mercados difíceis como Japão ou Coreia, precisa de gente que joga e entende o contexto.
Jogadores hardcore no Japão ou na Coreia vão sacar que a tradução é falsa em segundos. Para dar certo nessas culturas de alto contexto cultural, não dá para confiar em agência comum. Você precisa de tradutores especializados em games que manjam de RPG, sabem as gírias e entendem como o texto tem que caber na tela sem quebrar a UI. Isso faz o jogo parecer que foi feito lá.
2. Facilite a vida do jogador (Acessibilidade técnica)
Às vezes, o que impede seu jogo de crescer não é o conteúdo, é a barreira técnica. No Brasil e em boa parte da Ásia, muita gente só joga no celular. Se o seu jogo é só para PC, você já cortou metade do seu público potencial logo de cara.
Se puder, pense no mobile ou em como seu jogo roda em hardware mais simples. E uma dica de ouro: planeje sua interface (UI) desde cedo. Idiomas como o tailandês ou o árabe ocupam espaços diferentes e precisam de fontes específicas. Se você desenha seus menus prevendo que o texto pode aumentar ou que alguém vai usar os dedos em vez do mouse, portar o jogo depois fica muito mais barato e rápido.
3. Deixe a comunidade trabalhar para você
Os jogos que duram 10 anos no topo (tipo Skyrim ou Stardw Valley) têm uma coisa em comum: eles deixam os jogadores criarem coisas. O Conteúdo Gerado pelo Usuário (UGC) mantém o engajamento mesmo quando você não tem verba para lançar DLCs todo mês.
Se você liberar ferramentas de mod ou integração com o Workshop da Steam, sua comunidade vai criar conteúdo infinito de graça. Isso cria um ciclo onde o jogo nunca morre. E tem mais: se você não tem grana para traduzir para um idioma específico agora, dê as ferramentas para os fãs fazerem isso. As “fansubs” ou traduções comunitárias são uma forma poderosa de UGC. Se você facilitar o acesso aos arquivos, os próprios jogadores vão levar seu game para cantos do mundo que você nem imaginava.
Dicas Estratégicas: Onde os players estão
Se você já entendeu que o inglês não é tudo, vale olhar para outros territórios. Cada região tem um comportamento diferente.
Turquia e o Mundo Árabe
A Turquia é um dos mercados mais fortes hoje para jogos de estratégia, simulação e RPGs. Os jogadores turcos são engajados e costumam “comprar a briga” do desenvolvedor que dá atenção para eles. Outro ponto: o turco é uma porta de entrada excelente para o Oriente Médio. Se o seu jogo roda bem na Turquia, a chance de ele começar a aparecer em países vizinhos que falam árabe é enorme.
Sudeste Asiático (Vietnã, Indonésia e Filipinas)
O Sudeste Asiático é mobile por natureza. Se o seu jogo for para PC, ele precisa ser leve. Se for mobile, precisa rodar bem em celulares de entrada. Nesses países, o jogo cresce no boca a boca através de vídeos curtos. Se o seu jogo for “clicável” (fácil de gravar vídeos pro TikTok ou Reels), ele vai longe sem você gastar um centavo em Ads.
China e Chinês Simplificado
Não dá para ignorar a China, mas o buraco é mais embaixo. Além da tradução para o Chinês Simplificado, você precisa cuidar de temas sensíveis (sangue, caveiras ou política) que podem barrar o seu jogo por lá. Se o jogo for limpo e tiver suporte para os métodos de pagamento deles, você está falando com o maior mercado de players do mundo.
Leste Europeu
Muita gente acha que o Leste Europeu se vira bem com o inglês, mas a realidade é que eles preferem (é muito) jogar na língua nativa. O público polonês, por exemplo, é muito fiel a jogos de nicho e simuladores. Localizar para esses idiomas costuma dar um boost de visibilidade que pouca gente aproveita.
Conclusão
No fim das contas, crescer não é apenas adicionar mais 10 horas de gameplay ou melhorar a textura da grama. É sobre parar de dificultar a vida de quem quer jogar. Se você localizar o conteúdo corretamente, considerando o hardware de entrada dos jogadores, o jogo cresce organicamente. O mundo é muito maior que o seu círculo de desenvolvedores no Twitter. Basta saber convidar o público certo.



