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Experimento prova que átomos podem estar em dois lugares ao mesmo tempo e desafia a física

Um novo experimento acaba de dar mais força a uma das ideias mais estranhas da física quântica. Pesquisadores conseguiram demonstrar, pela primeira vez, o entrelaçamento quântico usando o momento de átomos, em vez de apenas propriedades internas dessas partículas. Na prática, o resultado confirma que, antes de serem medidos, esses átomos podem existir em mais de um estado ao mesmo tempo, algo que equivale a dizer que eles podem estar, de certa forma, em dois lugares ao mesmo tempo.

A descoberta é importante porque leva esse tipo de teste para um novo patamar. O entrelaçamento quântico já foi observado muitas vezes, mas quase sempre com fótons, que não têm massa, ou com características internas de átomos e elétrons, como o spin. O problema é que esse tipo de experimento não ajuda muito quando a ciência tenta responder uma das perguntas mais difíceis da física moderna: como a mecânica quântica se relaciona com a gravidade. Ao trabalhar com o momento de átomos de hélio, os cientistas abriram uma nova rota para estudar justamente essa fronteira.

Yogesh Sridhar e o Dr. Sean Hodgman (à direita) fazendo ajustes para demonstrar, pela primeira vez, o entrelaçamento do momento dos átomos.

Para realizar o experimento, a equipe resfriou duas nuvens de átomos de hélio até criar condensados de Bose Einstein, um estado exótico da matéria que surge em temperaturas extremamente baixas. Depois disso, essas nuvens foram lançadas uma contra a outra. Quando alguns átomos colidiam, formavam pares entrelaçados. Em seguida, os pesquisadores acompanharam a queda desses átomos em um interferômetro, aparelho capaz de revelar como seu movimento se distribui no espaço. O padrão observado só faz sentido dentro da lógica quântica: antes da medição, os átomos ocupavam simultaneamente mais de um estado de momento, produzindo uma interferência que não existiria em um comportamento clássico.

É justamente aí que entra o aspecto mais fascinante da história. No mundo cotidiano, um objeto segue um caminho ou outro. Na escala quântica, porém, a regra é bem menos intuitiva. Uma partícula pode assumir múltiplas possibilidades ao mesmo tempo até que a medição force uma definição. No caso do entrelaçamento, isso fica ainda mais intrigante, porque medir uma das partículas também determina instantaneamente o estado da outra, mesmo quando elas estão separadas. Parece absurdo, mas é exatamente esse tipo de resultado que a teoria prevê há décadas, e que agora ganhou mais uma confirmação experimental robusta.

O estudo também chama atenção porque encosta em um dos maiores problemas em aberto da ciência. A relatividade geral descreve muito bem a gravidade e o comportamento do Universo em grande escala. Já a mecânica quântica funciona com precisão impressionante no mundo microscópico. O impasse é que as duas teorias não combinam de forma satisfatória. Entender como sistemas quânticos entrelaçados se comportam sob influência gravitacional pode ajudar a revelar, no futuro, como essas duas visões do Universo podem finalmente se encontrar.

Os pesquisadores deixam claro que ainda há um caminho longo até esse ponto. Para testar com mais profundidade a relação entre entrelaçamento e gravidade, será necessário ampliar bastante o experimento, aumentar a distância entre os átomos e eliminar qualquer brecha que permita explicações convencionais. Isso exige equipamentos maiores, mais tempo de desenvolvimento e um investimento considerável. Mesmo assim, o avanço já é tratado como um passo importante, porque mostra de forma concreta que a física quântica continua funcionando mesmo em cenários cada vez mais próximos do mundo material que conhecemos.

No fim das contas, o experimento publicado na Nature Communications reforça uma verdade desconfortável e fascinante ao mesmo tempo: em seu nível mais profundo, o Universo não se comporta como a nossa intuição espera. E talvez seja justamente nessa estranheza que esteja a pista para resolver um dos maiores mistérios da ciência moderna.

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Fagner Lopes

CEO Presidente e fundador da Obewise Entertainment Network, escritor, biomédico e amante de jogos eletronicos, mais precisamente DOTA 2. Redator do site e artista na Obewise Radio Network.

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