O tempo sempre foi tratado como um dos elementos fundamentais do Universo. No entanto, um novo experimento conduzido por físicos da Universidade de Birmingham sugere que ele pode não existir da forma como imaginamos. Em laboratório, os pesquisadores criaram um pequeno sistema quântico apelidado de “mini universo” e demonstraram que a passagem do tempo pode emergir naturalmente das interações entre partículas, sem depender de um relógio externo.
Para realizar o estudo, a equipe utilizou cerca de 24 mil átomos de rubídio resfriados até formar um condensado de Bose Einstein, um estado extremamente raro da matéria que só pode ser obtido em temperaturas próximas do zero absoluto. Dentro desse ambiente altamente controlado, os cientistas dividiram o sistema em duas regiões, chamadas de “clara” e “escura”, permitindo acompanhar a troca de informação e o aumento da entropia entre elas.
O aspecto mais surpreendente do experimento foi a criação de um “relógio entrópico”. Em vez de medir o tempo utilizando um relógio convencional, os pesquisadores observaram apenas as mudanças internas do próprio sistema. À medida que a entropia variava, surgia uma forma de medir a passagem do tempo. Em determinadas condições, esse tempo interno acelerava, desacelerava ou até parecia parar completamente, mesmo que o tempo do laboratório continuasse avançando normalmente.
Os resultados oferecem uma demonstração experimental de uma ideia antiga da cosmologia quântica conhecida como tempo relacional. Nessa interpretação, o tempo não seria uma propriedade fundamental do Universo, mas sim uma consequência das relações entre os elementos que compõem um sistema físico. Em outras palavras, mudanças internas seriam suficientes para criar a percepção de passagem do tempo.
Segundo os autores, o experimento também conseguiu reproduzir matematicamente uma forma da equação de Schrödinger utilizando apenas esse relógio interno, sem recorrer a uma referência temporal externa. Isso representa um passo importante para testar teorias que tentam unificar a mecânica quântica e a relatividade geral, duas das principais bases da física moderna que ainda permanecem incompatíveis em diversos aspectos.
Embora o chamado “mini universo” esteja muito distante de reproduzir a complexidade do cosmos real, ele oferece um ambiente controlado para investigar questões fundamentais sobre a origem do tempo. Os pesquisadores acreditam que a abordagem poderá ser utilizada futuramente para explorar fenômenos ligados à gravidade quântica, aos primeiros instantes após o Big Bang e ao comportamento de sistemas quânticos isolados.
O estudo reforça uma tendência crescente da física contemporânea de questionar conceitos considerados básicos há séculos. Em vez de tratar o tempo como uma estrutura fixa que existe independentemente do Universo, a pesquisa sugere que ele pode surgir naturalmente a partir da evolução de sistemas quânticos. Embora ainda sejam necessárias novas investigações para confirmar todas as implicações dessa hipótese, o experimento representa uma das evidências laboratoriais mais importantes já obtidas em favor dessa ideia.
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