Há filmes que envelhecem, outros que se tornam peças de museu, e alguns poucos como Akira, que parecem esperar o momento certo para voltar e lembrar ao público que o futuro já foi imaginado e desenhado há quase quatro décadas.
A nova versão remasterizada em 4K de Akira chega aos cinemas brasileiros em um momento especialmente simbólico, celebrando os 35 anos da estreia nacional do longa, que contribuiu em abrir espaço para a animação japonesa no país. A distribuição novamente fica a cargo da Sato Company, com lançamento marcado para 27 de agosto.

O NERDIZMO esteve presente na exibição especial promovida pela Sato Company em São Paulo, no dia 08/08, uma oportunidade que reforçou algo percebido ainda antes das luzes se apagarem, de que Akira não é apenas um clássico revisitado. É uma obra que continua sendo descoberta, discutida e sentida por diferentes gerações.
O futuro voltou às telas
Dirigido por Katsuhiro Otomo, que também criou o mangá original, Akira acompanha Kaneda, Tetsuo e um grupo de jovens em uma Neo-Tóquio reconstruída após uma explosão devastadora. A cidade é marcada pela violência das gangues, pela repressão estatal, por experimentos secretos e por uma tensão social que parece prestes a explodir a qualquer momento.

A história começa como um conflito entre delinquentes e autoridades, mas rapidamente se transforma em uma reflexão sobre poder, militarização, ciência sem limites e a incapacidade humana de controlar aquilo que cria. Tetsuo não é simplesmente um vilão em formação, mas sim o resultado de abandono, humilhação e desejo de deixar de ser visto como alguém fraco.
É justamente essa combinação que mantém o filme tão relevante e atual, pois Akira não oferece respostas confortáveis, nem transforma seus personagens em arquétipos fáceis de compreender. O caos de Neo-Tóquio nasce de problemas humanos, e não apenas de uma ameaça sobrenatural ou tecnológica como muitos imaginam num primeiro momento.
Uma restauração que respeita o original
A nova remasterização não transforma Akira em um filme diferente e o mérito está em permitir que a animação original seja percebida com mais precisão, respeitando o trabalho realizado no fim dos anos 1980.
As luzes de Neo-Tóquio, o vermelho da jaqueta de Kaneda, os reflexos nas ruas molhadas e a destruição provocada pelos poderes de Tetsuo ganham ainda mais presença na gigantesca tela do cinema. A restauração evidencia detalhes que podem passar despercebidos em versões domésticas, especialmente nas cenas noturnas, nas texturas da cidade e nas transições entre silêncio, ruído e explosão, principalmente na sequência final.

Isso é importante porque Akira não depende apenas do roteiro e sua força está no movimento, no enquadramento e no modo como tudo parece estar vivo. A restauração funciona quando permite que o público veja melhor aquilo que já existia, reforçando o desenho e a densidade das sombras, que continuam fazendo parte da identidade do filme.
A relevância atual de Akira comprova as questões que fizeram ele ter sido uma produção praticamente impossível para os padrões da animação japonesa, no longínquo ano de 1988. O longa recebeu um orçamento superior a 1 bilhão de ienes, considerado o maior já destinado a um filme de anime até então, e apostou em um nível de detalhe muito acima do habitual.
O famoso “Akira slide” é apenas o exemplo mais conhecido da inventividade visual do longa. As perseguições de moto, os deslocamentos de câmera, os efeitos de luz e a destruição de edifícios foram concebidos com uma fluidez que ainda impressiona mesmo diante das atuais animações digitais.

A trilha sonora do Geinoh Yamashirogumi também permanece essencial. Em vez de funcionar apenas como acompanhamento, ela cria uma atmosfera ritualística, desconfortável e quase física.
Mesmo com toda a sua importância, Akira não é uma experiência acessível para todos. O filme é denso, violento e deliberadamente fragmentado. Ele não explica cada elemento de seu universo, tampouco conduz o espectador por uma jornada tradicional de herói.
Influência em outras grandes obras
Falar de Akira é falar de uma obra que ultrapassou o anime e seu impacto pode ser encontrado no cinema, nos quadrinhos, nos videoclipes, nos jogos e no design de personagens.

A influência mais evidente da obra de Katsuhiro Otomo aparece no gênero cyberpunk. Embora o filme dialogue com obras anteriores, como Blade Runner e Neuromancer, ele ajudou a consolidar uma linguagem visual própria, com megacidades decadentes, juventude marginalizada, tecnologia militar, poderes psíquicos e governos incapazes de controlar suas próprias experiências.
O cinema ocidental também absorveu elementos de Akira, com Matrix, A Origem, Looper, Stranger Things, entre outros, sendo frequentemente associados à influência temática ou visual do longa. A própria equipe de efeitos de Matrix reconheceu a importância de Akira para a concepção de efeitos como o “bullet time”.
A influência não está restrita às referências diretas, pois o longa mostrou que uma animação poderia ser adulta, violenta, filosófica e visualmente ambiciosa sem precisar abandonar o espetáculo. Para o público ocidental, isso ajudou a desmontar a ideia de que desenho animado era necessariamente sinônimo de conteúdo infantil.
Do cult ao fenômeno
O impacto de Akira no mercado foi tão importante quanto sua influência estética, pois o filme ajudou a criar uma porta de entrada para o anime em regiões onde a animação japonesa ainda era tratada como produto de nicho.
No Brasil, seu lançamento em 1991 aconteceu antes da explosão de popularidade de títulos como Cavaleiros do Zodíaco, Dragon Ball e Pokémon. O retorno aos cinemas, décadas depois, mostra como o mercado passou a enxergar valor comercial em obras clássicas voltadas a fãs adultos e colecionadores.
Esse movimento também revela uma mudança na relação entre distribuidoras e público. Relançamentos de filmes consagrados, sessões comemorativas e versões restauradas passaram a funcionar como eventos culturais, e não apenas como reprises. A presença da Sato Company nessa estratégia reforça o papel da empresa na circulação de títulos japoneses no Brasil.
A nova exibição também conversa com o crescimento do anime no circuito cinematográfico. Obras que antes dependiam de locadoras, eventos especializados ou exibições pontuais agora podem retornar às salas com campanhas nacionais, sessões dubladas e legendadas e uma audiência preparada para consumi-las como cinema.
Vale ver ou rever no cinema?
A resposta é simples: sim. A nova cópia em 4K não é apenas uma atualização técnica para colecionadores de formatos de imagem. Ela oferece a oportunidade de reencontrar Akira no ambiente para o qual ele foi pensado, com uma tela grande, som ocupando a sala e a cidade de Neo-Tóquio crescendo diante do espectador.
Para quem já conhece o filme, a experiência funciona como uma revisão de detalhes. Para quem nunca assistiu, é uma chance de compreender por que tantas obras posteriores parecem conversar com ele. O impacto pode não ser idêntico ao de 1988, mas a força visual e temática continua intacta.
A sessão promovida pela Sato Company em São Paulo, com a participação do NERDIZMO, deixou isso evidente. O interesse do público não se resume à nostalgia e existe uma nova geração encontrando em Akira perguntas que continuam atuais sobre tecnologia, autoritarismo, desigualdade e os limites do poder. Um retrato exagerado, barulhento e assustador de problemas que já estavam presentes quando o filme foi lançado e que ainda não desapareceram.




