Geek

6 descobertas da biologia que poderiam ter ganhado o Nobel

Todos os anos, o Prêmio Nobel reconhece pesquisas que transformaram a compreensão humana sobre a vida, a matéria e o universo. Ainda assim, algumas das descobertas mais importantes da ciência acabaram sem a famosa medalha. Em alguns casos, o impacto do trabalho só ficou evidente anos depois. Em outros, disputas, controvérsias, limitações das próprias regras do prêmio ou simplesmente a morte dos pesquisadores impediram que o reconhecimento chegasse a tempo.

Uma análise publicada pela revista Science reúne seis grandes avanços da biologia que poderiam ter recebido o Nobel de Fisiologia ou Medicina, mas nunca chegaram ao pódio. A seleção inclui desde a identificação do DNA como responsável pela hereditariedade até o sequenciamento do genoma humano.

Um dos casos mais emblemáticos envolve o microbiologista Oswald Avery. Décadas antes de James Watson, Francis Crick e Maurice Wilkins receberem o Nobel de 1962 pela descoberta da estrutura de dupla hélice do DNA, Avery já havia demonstrado que era o DNA, e não as proteínas, que carregava a informação genética.

Na época, porém, a ideia estava longe de ser consenso. Muitos pesquisadores acreditavam que as proteínas seriam responsáveis pela hereditariedade, justamente por apresentarem uma estrutura aparentemente mais complexa. Avery, trabalhando no Rockefeller Institute com Colin MacLeod e Maclyn McCarty, estudou uma bactéria capaz de transmitir características a outras bactérias. Os pesquisadores destruíram separadamente DNA, RNA e proteínas presentes nos extratos bacterianos e observaram o que acontecia com a capacidade de transformação.

Publicado em 1944, o trabalho mostrou que o material responsável pela transformação era o DNA. Mesmo assim, a descoberta demorou a conquistar aceitação ampla. Avery chegou a ser indicado várias vezes ao Nobel, mas morreu em 1955, apenas dois anos depois da publicação do trabalho de Watson e Crick. Como o prêmio não é concedido postumamente, ele nunca teve a oportunidade de receber a homenagem.

Outro caso envolve Brenda Milner, uma das figuras fundamentais para a compreensão biológica da memória. Durante muito tempo, psicologia e neurociência eram campos pouco conectados. O trabalho de Milner ajudou a mudar essa visão ao demonstrar que diferentes tipos de memória dependem de sistemas distintos do cérebro.

A neuropsicóloga Brenda Milner em 2013, ainda trabalhando na Universidade McGill aos 94 anos. Milner ganhou o Prêmio Kavli no ano seguinte, mas não foi indicada ao Prêmio Nobel.

Em 1957, Milner publicou suas observações sobre um paciente conhecido pelas iniciais H.M., posteriormente identificado como Henry Molaison. Ele havia passado por uma cirurgia para tratar uma epilepsia grave, procedimento que removeu parte do hipocampo. Depois da operação, H.M. perdeu a capacidade de formar novas memórias de acontecimentos.

O caso revelou algo ainda mais surpreendente. Embora H.M. não conseguisse se lembrar das sessões de treinamento, sua habilidade em determinadas tarefas melhorava com a prática. Milner concluiu que a memória responsável por acontecimentos e a chamada memória procedural não eram exatamente a mesma coisa e dependiam de sistemas diferentes do cérebro.

Seu trabalho ajudou a estabelecer uma nova maneira de estudar a relação entre cérebro e comportamento. Décadas depois, Milner continuava sendo uma referência na neuropsicologia. Ela recebeu importantes reconhecimentos, incluindo o Kavli Prize em Neurociência, em 2014, mas nunca ganhou o Nobel. Naquele mesmo ano, John O’Keefe, que havia sido seu aluno, recebeu o Nobel por pesquisas relacionadas ao papel do hipocampo na orientação espacial.

A história das células-tronco também tem uma ausência importante. Durante a década de 1950, pesquisadores acumulavam evidências de que diferentes tipos de células sanguíneas poderiam ter uma origem comum. O problema era que ainda não existia uma maneira adequada de acompanhar individualmente essas células.

James Till e Ernest McCulloch encontraram uma solução engenhosa. Trabalhando com células da medula óssea de camundongos, eles utilizaram radiação para provocar alterações que podiam ser identificadas ao microscópio. Depois, transplantaram as células para animais que também haviam tido a medula óssea destruída pela radiação.

Um selo canadense emitido em 2020 homenageou a descoberta das células-tronco por James Till e Ernest McCulloch.

O resultado foi revelador. Surgiram nódulos no baço contendo diferentes tipos de células sanguíneas. Como as células presentes em cada nódulo compartilhavam o mesmo padrão de alterações, os pesquisadores concluíram que elas descendiam de uma única célula original.

O estudo, publicado em 1963 com a participação do estudante de pós-graduação Andy Becker, foi a primeira demonstração experimental da existência das células-tronco. A área cresceu rapidamente nas décadas seguintes, com contribuições de diversos pesquisadores. Em 2012, John Gurdon e Shinya Yamanaka receberam o Nobel por trabalhos relacionados à reprogramação celular, mas Till e McCulloch permaneceram sem o prêmio.

Outro nome que aparece nessa lista é Tony Pawson, cuja pesquisa ajudou a explicar como as células recebem e transmitem sinais. Nossos organismos dependem constantemente dessas comunicações internas. Moléculas se ligam a receptores na superfície das células e desencadeiam uma sequência de reações que pode determinar quais genes serão ativados, quando uma célula deve se dividir ou como ela deve responder ao ambiente.

O cientista de sinalização celular Tony Pawson, fotografado em 2009, “era amplamente cotado para ganhar o Prêmio Nobel”,

Na década de 1980, Pawson estudou receptores conhecidos como tirosina quinases e identificou uma estrutura presente em diversas proteínas envolvidas nesse processo. O domínio recebeu o nome de SH2 e funcionava como uma espécie de ponto de atração para proteínas ativadas por sinais químicos.

A descoberta ajudou a explicar como uma informação recebida na superfície da célula consegue iniciar uma cadeia de acontecimentos em seu interior. Esse conhecimento posteriormente abriu caminhos para pesquisas sobre doenças relacionadas à sinalização celular desregulada, incluindo diferentes tipos de câncer e diabetes. Pawson recebeu diversos prêmios e era considerado um possível candidato ao Nobel, mas morreu em 2013, aos 60 anos.

A quinta descoberta envolve um grupo de células que durante muito tempo ficou praticamente à sombra dos neurônios. As células da glia eram conhecidas desde o século XIX, mas durante muito tempo foram vistas principalmente como uma espécie de suporte estrutural para os neurônios.

O neurobiólogo Ben Barres ajudou a mudar radicalmente essa percepção. Ele desenvolveu métodos para separar diferentes tipos de células cerebrais e estudar suas funções individualmente. Seus experimentos demonstraram que as células gliais participam ativamente de processos fundamentais do cérebro.

O neurocientista Ben Barres, da Universidade Stanford, fez importantes descobertas sobre células não neuronais no cérebro chamadas glia. Ele também foi o primeiro cientista abertamente transgênero eleito para a Academia Nacional de Ciências dos EUA e se manifestou contra o sexismo na ciência.

Em 2005, Barres mostrou que os astrócitos, células da glia com formato estrelado, liberam sinais importantes para a formação das sinapses, as conexões utilizadas pelos neurônios para transmitir informações. Dois anos depois, pesquisas de seu grupo mostraram que astrócitos e micróglias também participam da eliminação de sinapses que já não são necessárias.

Barres morreu em 2017, aos 63 anos. Para pesquisadores que trabalharam com ele, seu legado foi tão amplo que seria difícil reduzi-lo a uma única descoberta capaz de representar toda a sua contribuição. Essa característica também revela uma limitação do próprio Nobel, frequentemente associado à ideia de que uma grande transformação científica pode ser atribuída a um momento específico ou a uma descoberta isolada.

Por fim, está um dos maiores projetos científicos da história moderna: o Projeto Genoma Humano. Iniciado em 1990, o empreendimento reuniu pesquisadores de diferentes países com o objetivo de determinar a sequência dos cerca de 3 bilhões de pares de bases que compõem o genoma humano.

A dimensão da tarefa era tão grande que alguns cientistas duvidavam que ela pudesse ser concluída. Outros questionavam se valeria a pena gastar tanto tempo e dinheiro para sequenciar regiões do DNA que eram consideradas, na época, pouco relevantes.

O projeto acabou impulsionando novas tecnologias de sequenciamento e métodos computacionais capazes de organizar enormes quantidades de informação genética. Em 1998, Craig Venter anunciou uma iniciativa privada para sequenciar o genoma e criou uma corrida científica que colocou sua empresa, a Celera Genomics, em competição direta com o esforço público internacional.

Craig Venter, CEO da Celera Genomics (à esquerda), e Francis Collins (à direita), diretor do Instituto Nacional de Pesquisa do Genoma Humano, deixaram de lado uma antiga disputa para se juntarem ao então presidente Bill Clinton em uma cerimônia na Casa Branca que marcou a conclusão de seus “rascunhos de trabalho” do genoma humano em 26 de junho de 2000.

A disputa foi marcada por conflitos, mas os dois grupos acabaram anunciando em 2000 que haviam produzido versões preliminares do genoma humano. Os resultados foram publicados em 2001 e serviram de base para uma nova era da biologia.

Com um genoma de referência em mãos, cientistas passaram a identificar genes associados a doenças, estudar variantes genéticas e encontrar novos alvos para medicamentos. O projeto se tornou uma das maiores realizações científicas do final do século XX.

Mesmo assim, transformá-lo em um Nobel seria complicado. Milhares de pesquisadores participaram direta ou indiretamente do empreendimento, enquanto as regras do prêmio limitam a três o número de laureados em cada categoria. Além disso, a disputa entre a iniciativa pública e a empresa de Venter pode ter dificultado ainda mais a escolha.

Esses exemplos mostram que o reconhecimento científico nem sempre acompanha imediatamente a importância de uma descoberta. O Nobel é uma das maiores honrarias da ciência, mas suas próprias regras e limitações fazem com que muitos pesquisadores fundamentais acabem fora da lista de vencedores.

No fim das contas, a história da ciência é muito maior do que a relação de nomes gravados nas medalhas. O DNA, as células-tronco, a memória, a comunicação entre células, a atividade da glia e o genoma humano transformaram profundamente o conhecimento sobre quem somos e como nosso organismo funciona. Mesmo sem um Nobel no currículo, os cientistas por trás dessas descobertas ajudaram a construir boa parte da biologia que conhecemos hoje.

Veja mais ciência aqui!

Fagner Lopes

CEO Presidente e fundador da Obewise Entertainment Network, escritor, biomédico e amante de jogos eletronicos, mais precisamente DOTA 2. Redator do site e artista na Obewise Radio Network.

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Adblock detectado

Por favor, considere apoiar-nos, desativando o seu bloqueador de anúncios