Existe um tipo de obra de fantasia que consiste em basicamente mostrar duelos que normalmente seriam impossíveis de acontecer. A esse ponto todo mundo já viu na internet alguém mandando coisas como “quem ganharia: Goku ou Superman?” ou até mesmo nos anos mais recentes um “Saitama sola qualquer um”. É seguindo essa mesma linha que algumas histórias começam a surgir, e Tenkaichi: A Batalha dos Deuses (recém lançado por aqui pela JBC) é mais uma delas.
Roteirizado por Yosuke Nakamura e com arte de Kyoutarou Azuma (o mesmo ilustrador de Versus, mangá de ONE também publicado pela JBC), o mangá segue os moldes de Record of Ragnarok, mas com algo mais pé no chão (se é que é possível chamar assim). Oda Nobunaga, no final de sua vida, propõe um desafio para seus subordinados: fazer com que eles tragam fortes guerreiros para uma disputa. Quem trouxer o guerreiro que se tornará vencedor de um torneio, vai se tornar o próximo líder supremo do Japão.
Claro, considerando o período marcado por conflitos que o Japão vivia na época — que, na verdade, era considerado até pacífico levando em conta o que veio anteriormente —, vários nomes que deixaram sua marca na história são convocados para o Tenkaichi, o torneio para decidir o mais forte. São dezesseis guerreiros escolhidos por senhores feudais, incluindo nomes facilmente reconhecidos por quem sabe pelo menos o mínimo de história japonesa ou acompanha cultura pop, como Miyamoto Musashi, Kojiro Sasaki, Yasuke, entre outros. Os guerreiros escolhidos, inclusive, se adequam na medida do possível ao período histórico que a obra aborda, marcada pelos anos finais de Oda Nobunaga — então nesse quesito as coisas não chegam a ser tão “viajadas”. São embates que, sim, poderiam ter acontecido.

Imagem: Reprodução
Evidente que, quando começam os duelos em si, a situação começa a escalar. O primeiro volume consiste em uma introdução básica do conceito da história e aborda parcialmente o duelo entre Miyamoto Musashi e Honda Tadakatsu. Cada um tem certo pano de fundo para servir como apresentação de cada personagem, com Musashi sendo até então um jovem, totalmente desconhecido pelos seus rivais, enquanto Tadakatsu já é um veterano que participou de várias guerras e com o recorde pessoal de ter saído ileso de todas as suas batalhas.
Esse enredo de fundo apresentado em Tenkaichi, honestamente, é enfeite. O 1º volume do mangá já assume que o leitor conhece pelo menos o básico do que torna cada figura histórica importante e foca principalmente em exaltar os feitos de cada um durante as batalhas, com comentários dos espectadores sobre ações tomadas nos duelos, destacando o que torna cada movimento impressionante. As cenas de fato conseguem apresentar as capacidades físicas de cada um: Musashi, que começa a batalha usando apenas uma espada de madeira, usa passos velozes para enfrentar uma lança lendária de seis metros de comprimento. Isso faz jus às narrativas exageradas que costumam envolver Musashi e dá até certo favoritismo a ele, tornando a conclusão da luta um tanto previsível (mesmo que ela não aconteça já nesse primeiro volume).
O grande problema é que, apesar do conceito grandioso, a ação, que deveria ser o motivo de Tenkaichi existir, não empolga. Os comentários dos espectadores mais atrapalham do que ajudam a luta a ser mais divertida, sem falar de cortes para flashback que não animam e não te fazem torcer pra nenhum dos lados — ainda mais em um duelo com uma apresentação tão óbvia de quem vai vencer e quem vai perder.

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Comentários e pausas para contar uma narrativa fora da luta não chegam a ser exatamente um problema como recursos narrativos, afinal, é algo bem comum em muito mangá de luta ou esporte, mas em Tenkaichi nenhum desses conceitos torna a luta mais emocionante. Se apoiar apenas na história real por trás dos guerreiros também não serve como fator que deixe o leitor mais entretido, já que o que envolve os feitos reais é justamente a apresentação vazia de poderio e conquistas de cada um, não sendo suficiente para convencer quem está lendo uma história de ficção de se importar com o que está sendo narrado. Aí que deveria existir o capricho por trás dos flashbacks, que poderiam fazer o leitor se apegar às motivações dos lutadores, algo que não acontece. Musashi é apenas um garoto prodígio que se tornou forte tão rápido que estava cansado do caminho da lâmina e Tadakatsu é mostrado só como um homem que estava entediado com a paz. Ambos os conceitos, se melhor abordados, poderiam tornar o apelo dos guerreiros mais interessante, porém em ambos os casos o passado é contado de maneira que não nos faz criar qualquer conexão com os personagens, deixando tudo muito chato de acompanhar.
As cenas de ação não são particularmente ruins, mas também não fazem nada que qualquer outro mangá de artes marciais minimamente decente já não tenha feito tão bom quanto ou melhor — o que, pra uma história que se agarra tanto a isso, não deveria ser o caso. Falta até certa demonstração de impacto, principalmente envolvendo os ataques de Tadakatsu, que, ao mesmo tempo em que são narrados como poderosos e ágeis, as ilustrações não passam essa impressão. De que ele é alguém pra ser tão temido. Musashi, mesmo quando não está em uma situação favorável, parece estar sempre no controle do combate, porém não por sua habilidade com a espada, mas sim porque o poderio de Tadakatsu não é mostrado de forma grandiosa o bastante para corresponder à expectativa por trás do “homem intocável”.

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Tenkaichi: A Batalha dos Deuses, em seu 1º volume, tem uma história que não consegue repassar a sensação do alto risco envolvendo os duelos para assumir o controle do Japão, os personagens não são escritos de maneira que os tornem interessantes e nem mesmo as batalhas, que, no fim das contas, são o grande foco da coisa, criam um sentimento de empolgação. É um mangá que você já espera antes mesmo de abrir que seja raso, porém mesmo dentro de sua premissa simples ainda consegue ser decepcionante.
No momento em que esse texto está sendo publicado, a obra segue em andamento no Japão, com 14 volumes encadernados e uma adaptação em animê prevista para abril de 2027.
Galeria de fotos
Confira no álbum abaixo alguns registros da edição nacional do 1º volume de Tenkaichi: A Batalha dos Deuses pela Editora JBC:
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Vol. 1 (edição física) | Vol. 1 (edição digital)
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Essa resenha foi feita com base na edição cedida como material de divulgação para a imprensa pela editora JBC, que disponibilizou o 1º volume ao JBox.
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